O negacionismo factual dos “roqueiros de butique”, sejam filhinhos de papai, titios do food truck, tietes de parquiletes, garotas mimadas metidas a malvadas, andou prevalecendo nas redes sociais e o pessoal anda passando pano em “rádios rock” como a 89 FM, mesmo quando sua família dona da emissora ter um arrepiante histórico de defesa da ditadura militar e de pautas desumanas como a jornada excessiva de trabalho e as fortunas abusivas dos super-ricos.
Para esse pessoal, isso pouco importa. Eles endeusam rádios canastronas como a 89 FM e similares pelos poucos hits roqueiros que se encorajam em ouvir. Um punhado de músicas de Beatles, Rolling Stones, Queen, Pearl Jam, Ramones, Green Day e Nirvana, grupos rebaixados a one-hit wonders como Deep Purple e AC/DC, um nome superestimado como Guns N'Roses, bobagens como Raimundos e Mamonas Assassinas e grupos de thrashno como System of a Down e Korn. E não muito além disso.
A indigência da cultura rock no Brasil e o caráter conservador, reacionário e subserviente dos ouvintes preocupa bastante. Esse pessoal nem gosta de rock de verdade, mas tem dinheiro de sobra para encarar maratonas de shows que se realizam em São Paulo e outras capitais. E vão para eventos de rock mais para se promoverem nas redes sociais do que por gostarem desse tipo de música.
Seu envolvimento com o rock é meramente superficial, voltado ao consumismo e a mera curtição, parecendo que, para ouvir um rock, por sinal um rock “qualquer nota”, precisam tomar cerveja para aguentar horas daquilo que essa elite chama de "sonzeira" (assim como os fãs do "pagodão" baiano chamam sua música de "suingueira"). E aí, falando em bebedeira, a 89 FM, a “rádio rock” da Faria Lima, trabalhou uma ideia no último dia 13 de julho, o “Dia Mundial do Rock’ que de “mundial” só tem o nome, porque só vale para o Brasil.
Durante um dia inteiro, através de uma parceria com a marca de cerveja Eisenbahn, do grupo Heineken, franqueado pela AmBev de Jorge Paulo Lemann (atualmente alvo da Justiça no caso das Lojas Americanas), a 89 FM passou a se chamar Eisen Rock Station, com um processo que é conhecido como naming rights. A marca Eisenbahn é uma das principais patrocinadoras de concertos de rock realizados no Brasil.
Tudo parece lindo, mas é só puro negócio. Não se trata de ver o rock como cultura, mas como um comércio. Ingressos caros, produtos caros vendidos no local de cada evento, e exploração de mão de obra que às vezes soa desumana. Tudo é feito visando o lucro, e isso anula a rebeldia roqueira pois, por mais que se integre eventualmente a contextos de mercado, o rock tem uma essência reconhecida por lutar contra esse esquema ou, ao menos, com os excessos e abusos desse esquema.
Os verdadeiros fãs de rock estão fora. Não têm dinheiro para ver seus ídolos do rock, por mais que apareçam constantemente no Brasil. E também não se identificam com rádios que, em tese, representam o segmento rock, mas que só tocam os hits. Preferem ouvir rock no YouTube, cujo conteúdo é mais livre e abrangente.
As “rádios rock” hoje são só um faz-de-conta. Radialistas fingindo serem especializados em rock, ouvintes fingindo serem fãs fiéis de rock. Para sustentar o faz-de-conta, só produtores e jornalistas, ou então os programas específicos de fim de noite. Tem que manter as aparências. Mas tudo é marketing e tudo é negócio. Nada menos rock'n'roll do que tudo isso.

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