O golpe que ocorreu neste fim de semana na Venezuela, depois que tropas das Forças Armadas dos EUA percorreram o Caribe combatendo supostos narcotraficantes no mar sul-americano, matando 40 pessoas, complicou ainda mais o período de retomada reacionária pós-2016.
Nas primeiras horas do dia 03 de janeiro de 2026, aviões bombardearam a capital, Caracas, enquanto tropas invadiram uma casa onde estavam o presidente Nicolás Maduro e a esposa, Cilla Flores. Os dois não tiveram tempo para reagir e foram levados para Nova York, onde estão detidos à espera de julgamento. Maduro é acusado de suposto envolvimento com o narcotráfico e com o terrorismo.
A ação foi ordenada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que, em claro tom golpista, disse que vai governar a Venezuela "até que uma transição adequada possa ocorrer". O objetivo é claro: Trump quer explorar o petróleo venezuelano. No entanto, aparentemente as forças armadas da Venezuela reconhecem a vice-presidenta Delcy Rodriguez como chefe do Executivo federal do país, que vai governar por 90 dias até que se decidam pelas eleições.
A questão é muito complicada e não se permite maniqueísmos. Eu pessoalmente não considero Nicolás Maduro um ditador, mas achei um exagero ele tentar um novo mandato. A meu ver, seu personalismo talvez o tenha exposto demais para a reação golpista, pois melhor teria sido Maduro ter criado discípulos ou sucessores.
As esquerdas vivem um grande dilema. Ou elas se prendem a velhos paradigmas de lideranças vitalícias, ou então fazem um esquerdismo frouxo com concessões políticas, econômicas e até culturais à direita moderada. Nos primeiros mandatos de Lula, houve até sabotagens no setor cultural, na qual paradigmas conservadores oriundos da ditadura militar, no âmbito musical, comportamental, religioso e esportivo tentavam ser "ressignificados" para as esquerdas médias, através dos "brinquedos culturais".
O pior disso tudo é que, quando veio a onda reacionária de 2016 e, mais tarde, a primeira crise, as esquerdas tentaram voltar tentando negociar seus espaços com setores da direita moderada, vide a gestão de Alberto Fernandez na Argentina, com a ex-presidenta Cristina Kirchner como vice, e o governo de Luís Arce na Bolívia.
Aparentemente, o governo de Nicolás Maduro se manteve na linha tradicional dos governos vitalícios da esquerda mais antiga. Por outro lado, Lula tenta adaptar esse projeto vitalício sob uma roupagem pop e com concessões ao neoliberalismo, claramente vinculando a ideia de "democracia" à sua imagem pessoal.
Só que esse hibridismo vai complicar ainda mais a situação de Lula e do Brasil. O petista cometeu um erro grosseiro ao priorizar a política externa, se expondo de maneira perigosa, em vez de priorizar os trabalhos internos de reconstrução do Brasil sob seu acompanhamento pessoal. Sua intromissão em propor a paz entre Rússia e Ucrânia foi constrangedora.
Com uma atuação cheia de contradições, Lula pagou a conta das viagens ao exterior com uma queda de popularidade que é pior do que a que os institutos de pesquisa mostram. No caso da Venezuela, Lula adotou uma posição ambígua em relação a Nicolás Maduro, antigo amigo e aliado, e recentemente o presidente brasileiro passou a ter boas relações com Donald Trump.
Isso complica mais as coisas, e a oposição bolsonarista vibrou com o golpe na Venezuela. Isso pode prejudicar o favoritismo de Lula, assim como ele terá que lidar com abstenção em relação aos dois lados, sem defender o golpe na Venezuela mas sem contrariar a "química incrível" que passou a ter com Trump.
Lula já tem que lidar com a baixa popularidade, apelando para a campanha nas redes sociais. Só que os apoiadores do petista não se deixam mentir, demonstrando serem pessoas bem de vida que dificilmente convencem com sua pose de "pobres". E o presidente brasileiro, que desprezou a urgência de acabar com a escala 6x1, agora defende, mas mesmo assim empurra com a barriga para que a causa só seja aprovada na proximidade das eleições.
O golpe que tirou Maduro do poder é um desafio para as esquerdas se reinventarem, evitando governos vitalícios e pensando na população, não através do faz-de-conta de relatorismos, mas de ações que sejam palpáveis pelo povo. Além disso, o progressismo político deveria evitar personalismos e lideranças vitalícias, pois há uma necessidade de renovação política nas esquerdas e, também, de um projeto que dependa menos de um indivíduo carismático e foque nos resultados concretos para a sociedade.
É necessária uma reflexão e muita autocrítica por parte das esquerdas. Evitar velhas fórmulas, que de forma nenhuma assustam a direita e até encorajam ações como o golpismo de Donald Trump e o empoderamento dos bolsonaristas.
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