Ser jornalista não é somente comentar os fatos do dia, da mesma forma que também não é transmitir, passivamente, o que instituições oficialmente transmitem. É buscar informações e verificá-las, sem se submeter ao que é dito por fontes dotadas de algum prestígio.
Ignorar essa realidade permitiu que viessem comediantes fantasiados de jornalistas querendo tomar cargos estratégicos de Comunicação. Ou reacionários que imitam a pose e o discurso jornalístico e, aparecendo diante de estantes de livros, produzem notícias mentirosas dentro de narrativas cheias de argumentos confusos, mas bastante persuasivos.
Temos a polarização do “jornalismo civilizado” e da fábrica de fake news, que desnorteiam as percepções humanas de um lado e de outro. No primeiro caso, a coisa ocorre de forma mais sutil, pois são dados oficiais trazidos por fontes prestigiadas e compartilhadas por um Grande número de pessoas influentes e formadoras de opinião.
Dito isso, vejamos o que eu pude pesquisar sobre o Triângulo Mineiro. De um lado, temos a falácia de Uberaba como “a quarta cidade mais barata do Brasil”, tese lançada pela imprensa de status considerável mas sem um mínimo de fundamento. De outro, temos a cidade vizinha de Uberlândia, considerada uma das cidades mais caras de Minas Gerais.
Como duas cidades-irmãs podem ter atribuições opostas, se elas se relacionam sob as mesmas condições socioeconômicas e sob as mesmas caraterísticas na sua infraestrutura? Uberaba e Uberlândia são cidades estruturalmente semelhantes, vivem da mesma economia agropecuária e possuem o mesmo destaque no Triângulo Mineiro.
Isso soa como dizer “abóbora faz mal, mas jerimum faz bem”. Não dá para considerar essas duas ideias opostas como igualmente corretas. Portanto, entre essas duas premissas, a da “barata” Uberaba e da “cara” Uberlândia, uma delas pode estar errada.
Juntando o contexto da situação, com a exploração do gado zebu, espécie bovina que é uma das mais caras do mundo, e a natural ganância dos grandes fazendeiros, a informação de Uberaba como “cidade de baixo custo” é mentirosa. E nós verificamos: passagem de ônibus cara, hotéis caros, imóveis caros, alimentos e mercadorias não muito caros, mas também não muito baratos.
A cidade fez uma série de promoções que foram combinadas pelo comércio local num momento em que jornalistas e pesquisadores viajaram para Uberaba e a propaganda enganosa levou fama. Afinal, alguém com um mínimo de consciência que uma cidade dominada por coronéis latifundiários vai ter baixo custo de vida?
Uma cidade considerada uma das mais ricas do Brasil virou a “quarta cidade mais barata do país” por conta de uma promoção temporária nos moldes de uma Black Friday. O pessoal acredita, vai para Uberaba com pouco dinheiro no bolso e depois fica com dívidas e sem dinheiro para pagar a viagem de volta.
Comentários
Postar um comentário