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BREGALIZAÇÃO CULTURAL E O PERIGO DE FALSOS SURTOS NOSTÁLGICOS

HÁ CRÍTICOS MUSICAIS QUE CONSIDERAM SUCESSOS DA MÚSICA BREGA "CLÁSSICOS" SÓ PORQUE TOCARAM NOS MOMENTOS DA INFÂNCIA, COMO OS PASSEIOS PARA A PRAIA COM A FAMÍLIA.


A lembrança nostálgica, para a arte e a cultura, deveria levar em conta os critérios artísticos e a relevância cultural, critérios que não podem envolver uma simples impressão solipsista de um público ouvinte e suas recordações meramente pessoais ou grupais.

O comercialismo musical, ultimamente sobre o tratamento gurmê da grande mídia, se aproveita da ingenuidade coletiva para promover surtos nostálgicos que soam postiços. Tantos falsos saudosismos são montados pela mídia e pelo mercado, visando prolongar o sucesso comercial de ídolos veteranos, vide a onda do brega-vintage que tentou reciclar com embalagem de luxo nomes da mediocridade musical como. Michael Sullivan, É O Tchan, Bell Marques e Chitãozinho & Xororó, estes com a música “ Evidências”.

O brega-vintage foi uma amostra de como a bregalização cultural - na verdade, um cenário lúdico que interessa mais à indústria de cerveja e de outros produtos como automóveis e celulares - é um grande perigo, pois se vende gato por lebre.

São usadas motivações meramente solipsista, ou seja, explorando situações meramente banais e subjetivas, supostamente marcantes mas longe de merecerem qualquer classificação de âmbito artístico e cultural. Afinal, são apenas testemunhos de consumos e sensações, pessoais demais para alguma atribuição comunitária, sociológica e etnográfica.

A situação é grave pois tudo vira pretexto para uma nostalgia irresponsável, uma lembrança do passado em que qualquer desculpa transforma qualquer futilidade em pretenso clássico, só porque se tornou passado e a nostalgia fabricada passa a ser um merecimento pelo avesso, quando qualquer porcaria pudesse se transformar em ouro com o passar do tempo.

Já não foi suficiente vender o culturalismo bregalizante da ditadura militar como se fossem relíquias valiosas? Também não foi o bastante vender os “brinquedos culturais” da direita, com seus funqueiros m, “médiuns” e mulheres-objetos para serem cultuados por setores desavisados das esquerdas? E tudo isso sob pretextos aparentemente positivos que vão de memórias familiares a suposta finalidade de alegrar o povo pobre.

Além do caráter patético do brega-vintage, que, entre outras coisas, tentou vender o É O Tchan como uma “preciosidade cultural”, tivemos a ridícula iniciativa da Faria Lima em relançar o ídolo pop Michael Jackson, falecido há 16 anos, como se fosse uma “novidade”. Ver a geração Z tratando músicas como “Billie Jean”, “Thriller” e, principalmente, “Beat It”, como “lançamentos novos”, soou constrangedor. Nem café requentado sofre esse vexame.

E o que vem pela frente? Uma nostalgia cada vez mais patética. Já temos que encarar os bailes noturnos tratando a tenebrosa “Melô do Créu” como “clássico “, gourmetizando os sucessos popularescos de 20 anos atrás. Tendências como sofrência, piseiro, “funk” e arrocha pegaram no gosto juvenil e soa vergonhoso o pessoal dar um tratamento sofisticado a essas calamidades musicais.

Que motivo terá para essas tendências virarem nostalgia? A lembrança do cara que bebeu até cair ao som dessas canções e depois levantou? Ou do sujeito que transou com três mulheres numa mesma noite ao som daqueles sucessos?

Já bastou o crítico musical isentão definir um sucesso brega antigo como “clássico” por causa das lembranças pessoais dele viajando para a Baixada Santista no Ford Belina da família. Usar as lembranças pessoais como atestado de genialidade de um ídolo musical soa agradável, mas não tem a menor relevância objetiva. São mais um juízo de valor positivo e agradável. Somente isso.

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