NÃO IMPORTA O ERRO. IMPORTA É O STATUS DE QUEM ERROU

MARCELO ADNET E LUANA PIOVANI, EM CENA DE AS AVENTURAS DE AGAMENON, O REPÓRTER - Alvos preferidos da mídia seletiva.

Ainda sobre o caso de Letícia Sabatella e sua embriaguez, o episódio deixou uma lição amarga de impunidade típica em nosso país: pouco importa a natureza do erro, o que importa é o status de quem errou. Se duas pessoas cometeram o mesmo erro, se uma delas é mais carismática, leva punição melhor e ainda sai da situação sob aplausos.

O esquema de corrupção da Petrobras talvez precisasse ter uma Letícia Sabatella ao seu lado, para ao menos receber alguma solidariedade da opinião pública. Em contrapartida, será que, se no lugar de Letícia, estivesse a Luana Piovani, alguém se encorajaria em fazer um deitaço em sua solidariedade?

Infelizmente, a sociedade midiatizada e o caráter seletivo da mídia de celebridades faz com que os erros deixem de valer por si sós, pesando mais leve em quem é detentor de privilegios e prestígios sociais.

Se compararmos o caso Letícia Sabatella e o de Marcelo Adnet - que cometeu o erro de ter traído a esposa e também humorista Dani Calabresa - , nota-se uma injustiça que remete ao famoso ditado popular "dois pesos, duas medidas".

Letícia Sabatella reagiu às críticas de maneira arrogante e fútil, dizendo recusar-se a sentir vergonha pelo que fez e, de maneira esnobe e claramente antipática, ofereceu, por ironia, "um brinde aos seus acusadores". Acabou virando "unanimidade" entre colegas e fãs que viam nela uma simpatia e um senso de humor que não existiu, fascinados estavam com a beleza e o prestígio da atriz.

Marcelo Adnet reagiu de forma mais humilde, simpática e bem-humorada. Teve a autocrítica que a arrogante Letícia se recusou a ter. E a própria Dani Calabresa também reagiu com senso de humor. só que os dois passaram a sofrer críticas pesadas e humilhações, passando uma vergonha maior do que a que a bela atriz da Globo se recusou a sentir.

Nenhum humorista arriscaria, por exemplo, criar uma leve paródia chamada Bebícia Bagatella, aquela que "bebe a luz das estrelas". Seria considerado ofensivo demais, embora, se fosse nos EUA, até a revista MAD faria sem problema. 

Mas as gozações que o casal Marcelo e Dani recebem chega ao ponto de um verdadeiro bullying, desses que fazem qualquer um ter medo até de sair de casa. E isso por conta de uma coisa que, no seu contexto, foi muito mais leve do que encher a cara de vodca e ficar caído no chão.

A mídia de celebridades contribui para a seletividade de críticas, fofocas e rumores. Ela escolhe quem deve ser criticado, quem deve ser enquadrado em rumores, quem deve ser "derrubado" ou não. Em contrapartida, mesmo no mundo das sub-celebridades, a seletividade poupa até mesmo alguns ícones da mediocridade que precisam fazer sucesso.

Funqueiros e ex-BBBs que estão com muita evidência na grande mídia são poupados. E se uma "boazuda" mente sobre seu estado civil, julgando-se "encalhada" quando, na vida privada, está comprometida, vale a tese mentirosa. Nem adianta mandar comentário para o fofoqueiro de plantão que ele nem vai plantar qualquer rumor.

Enquanto isso, se certos atores e atrizes que fazem sucesso são "fiscalizados" pelos colunistas de fofocas, para ver se eles perdem a linha. Os fofoqueiros acabam virando termômetros para a concorrência desleal entre os sem-talento e os talentosos pelo alcance da fama nacional, em que nem sempre os dons naturais servem de critério para a obtenção de prestígio pelo grande público.

É ilustrativo que o caso Letícia Sabatella repercutiu favoravelmente à atriz, não porque ela estivesse certa pelo que ela fez - pelo contrário, o que ela fez é ERRADO, e não se refere à bebedeira em si, mas à arrogância e falta de autocrítica da atriz quanto a isso - . mas pelo carisma, prestígio e beleza que ela tem em seu meio.

Ela é influente, está no primeiro time de atores de TV, frequenta as colunas sociais como uma verdadeira convidada VIP e possui uma grande rede de contatos sociais no seu meio. Há um poderoso lobby em torno dela e isso favoreceu o desfecho positivo de um erro que, se fosse feito por alguém com menos carisma, teria feito repercussão negativa.

Já Marcelo Adnet e Dani Calabresa não alcançaram o carisma e o prestígio de Letícia. Pelo contrário, eles são considerados "emergentes" nos respectivos canais, Globo e Bandeirantes, numa posição ainda subalterna no competitivo mercado de celebridades.

Por outro lado, eles também não são pessoas que estão em alta e a mídia tenta derrubar (como Deborah Secco, por exemplo) e a situação se complica mais ainda, já que o casal não tem status suficiente para ter a blindagem que Letícia Sabatella, a atriz embriagada, teve a seu favor.

Dessa forma, fica muito estranho as pessoas protestarem contra a corrupção e o declínio de valores, se, a depender do status de quem comete algum erro vergonhoso, Assim não há defesa de ética e de responsabilidade social que dê jeito, quando a mídia seleciona quem deve ou não ser respeitado no show business ou quem pode ser endeusado pelos seus próprios defeitos.

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