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VIROU MODA FALAR MAL DE 'DOIS HOMENS E MEIO' FASE WALDEN

ASHTON KUTCHER (E) FEZ A SITCOM DOIS HOMENS E MEIO SE TORNAR MAIS ÁGIL. A CRÍTICA BRASILEIRA IGNORA ISSO.

Às vezes fico imaginando que a imprensa cultural brasileira se comporta como um gado bovino. Neste Brasil tão atrasado, a nossa "moderna" mídia tem certos chiliques e certas opiniões padronizadas que acreditamos ser combinada pelos interesses corporativistas de nossos jornalistas.

Em muitos casos, se alguns "bacaninhas" da imprensa dos EUA ditam o que é bom ou ruim, a imprensa brasileira macaqueia e assina embaixo. Entre outras coisas, é a moda de falar mal das últimas fases do seriado Dois Homens e Meio (Two and a Half Men), com Ashton Kutcher como Walden Schmidt, um profissional de informática.

A mídia tem uma grande implicância com Ashton Kutcher, que considero uma das figuras mais admiráveis que existe no mundo, e também um excelente ator. A implicância é tanta que os jornalistas "donos da verdade" chegam a dizer que Ashton é canastrão, chato, etc etc etc. Chegaram ao ponto de dizer que o Steve Jobs interpretado por Ashton não passava de um alter ego do Walden.


A situação não é nova. Ashton já havia recebido "implicância" antes. O filme Recém-Casados (Just Married), de 2003, foi considerado pela mídia norte-americana uma das piores comédias da década, e até ganhou prêmios negativos de pior filme, piores atores etc.

Não por acaso, a atriz do filme, a nossa saudosíssima Brittany Murphy - a primeira pessoa que eu pensaria se eu pudesse ressuscitar alguém - , também é outra que virou "vidraça". Sua tragédia precoce, em 2009, fez a grande mídia esquecer que Brittany era uma excelente atriz, cantora fantástica e figura humana admirável.

A imprensa sensacionalista, em vez de considerar as qualidades de Britt, preferem ficar o tempo todo perguntando como ela morreu, com quem ela brigou no final da vida, por que ela não entrou no elenco de tal filme, que remédios a mais ela tomou, quem a matou etc etc etc. Um luto de cinco anos!

Brittany era namorada de Ashton na época desse referido filme, já exibido no Brasil. Britt ficou estigmatizada por fazer comédias românticas, depois de ter sido ídolo adolescente - era uma das estrelas de As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless) - , e passou 2009 quase inteiro procurando papéis diferenciados em filmes de baixo orçamento.

E, de uma só vez, a atriz que, como cantora, tinha uma voz incomum numa era de vocais robotizados, havia feito personagens diversos em seus últimos filmes: aprendiz de cozinheira no Japão, loura sexy hospedada em um hotel, escritora vivendo em casa mal-assombrada, cientista encarando cataclisma, entre outros. Brittany era grandiosa e a mídia sensacionalista nem quer saber.

WALDEN

Voltando ao Ashton, que atualmente está noivo da ex-colega de De Volta aos Anos 70 (That 70's Show), Mila Kunis, com a qual cuida da filha Wyatt, a entrada do ator em Dois Homens e Meio fez o seriado ficar mais ágil, alterando um pouco a natureza do enredo com a saída de Charlie Sheen, que se desentendeu com a produção.

O seriado era ótimo com Charlie Sheen e ele é um excelente ator, mais famoso por papéis cômicos mas com expressiva experiência em papéis dramáticos (ele atuou no drama de guerra Platoon). Mas a imagem popularizada do personagem homônimo Charlie (há um hábito em sitcons estadunidenses em colocar atores para interpretar xarás, desde Lucille Ball) criou uma reação peculiar no Brasil.

Afinal, o personagem Charlie tinha aquele perfil que agradava o establishment da curtição brasileira. Curtia noitadas, bebia álcool e pegava mulheres, o que, para o padrão dos "quenuncas" brasileiros, é o mesmo que ser filósofo. E o envolvimento do ator com álcool e seus problemas amorosos, aliado ao jeito "pegador" do personagem da sitcom, reforçou a popularidade do personagem.

Aí o personagem Charlie criou uma torcida, sobretudo na imprensa brasileira - a estadunidense tem lá suas caraterísticas e sua seletividade - , que fez com que a substituição do pegador fanfarrão pelo técnico de informática problemático no amor, que é o personagem Walden, e aí os "fãs do Charlie" resolveram fazer seu protestinho.

Walden é um personagem, digamos, quase nerd, não bastasse o nerd que Alan Harper (interpretado por Jon Cryer, que nos anos 80 se destacou em A Garota de Rosa Shocking (Pretty in Pink)) é. Diz a lenda que o produtor Chuck Lorre criou The Big Bang Theory porque já tinha piadas demais para o Alan Harper. Lenda um tanto discutível, é verdade, mas vale a menção.

Claro que o fã-clube etílico de Letícia Sabatella não iria gostar. Dois Homens e Meio deixou de falar para eles mesmos, por isso ficou "ruim". A imprensa cultural corporativista, que se reúne para uma mesma noitada, provavelmente, em SP - os cariocas devem aproveitar a ponte aérea - , vai em uníssono dizer que o seriado "perdeu" com a entrada de Ashton Kutcher.

Os viúvos de Charlie Harper, no entanto, pouco perceberam que o seriado, que, admitamos, era ótimo, buscou ser ágil com a entrada do personagem Walden Schmidt. Mas o fato de não serem mais as mesmas piadas sobre pegar mulher na noitada e trazer para a casa revoltou a "turma da noitada" que transforma boates em quartos e as ruas em dormitórios.

Até o personagem Alan Harper, bem mais comportado na fase Charlie Harper, ficou mais solto diante de Walden Schmidt. E bem aproveitado nas piadas escritas por Chuck Lorre e sua equipe, criando enredos mais diversificados nesta fase de Dois Homens e Meio, seriado que vai acabar em breve.

O seriado vai deixar saudades e no fundo tem um excelente saldo de qualidade. A fase Charlie Harper é excelente e bastante divertida, mas tematicamente pouco variada. A de Walden Schmidt tornou-se mais dinâmica e ágil. As duas fases são ótimas e cumprem sua função de serem divertidas e engraçadas. Apenas possuem caraterísticas bastante diferentes.

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