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OS DESCENDENTES DA "CASA GRANDE" QUEREM SUBSTITUIR A ESQUERDA PROGRESSISTA

MUDAR PARA CONTINUAR A MESMA - A pequena burguesia brasileira se repagina, junto à elite da direita moderada.

É muito estranho. Depois de anunciar o fim do bolsonarismo, as esquerdas médias, lacaias da velha ordem dos descendentes da "Casa Grande" que, um dia, sentiram orgulho em derrubar João Goulart, agora tentam escancarar o viralatismo cultural que fez sabotar os primeiros mandatos do governo Lula, quando o petista, mesmo moderadíssimo, ainda mostrava serviço nas suas pautas progressistas.

Fica uma coisa esquisita, ver as esquerdas médias - ou esquerdas mainstream - esculhambarem o que houver de vida inteligente e emotiva, herdada dos tempos do varguismo, do esboço de anos dourados de Juscelino Kubitschek e os debates culturais da época de Jango, depois abortados pela ditadura militar.

De repente, tudo virou "vidraça": da Bossa Nova a nomes respeitáveis do Rock Brasil, como Renato Russo e Cazuza. Nomes como Paulo Freire, Elis Regina e Rita Lee apenas são tolerados pela elite do bom atraso por motivos protocolares, até chegar o tempo deles serem também alvo de críticas à maneira de um Rogério Skylab, o ex-vanguarda ressentido, que chamou roqueiros brasileiros admiráveis de "horríveis".

Não se pode emocionar de verdade, ser humanista, ser sensível, ser racional, ter senso crítico. Não se pode ter mais de 30 anos e morar com os pais, idosos e doentes. Não se pode ser adulto e odiar bebida alcoólica. Não se pode ficar em casa nas noites de fins de semana. Mas se pode passar a madrugada perturbando o sono de quem quer dormir rindo de maneira descontrolada e jogando conversa fora. Se pode festejar o hedonismo irresponsável e desenfreado como se isso fosse "felicidade e liberdade".

É um cenário no qual a pretensa cultura vintage se pauta em nomes realmente horríveis como Chitãozinho & Xororó, Michael Sullivan, É O Tchan e o que vier da breguice perecida cheirando a mofo tóxico mas tratada como se fosse uma pedra preciosa rara.

Na política, um Lula transformado em pelego (a "discussão" das pautas trabalhistas com o neoliberal Joe Biden não nos deixa mentir) e virando arremedo de si mesmo, uma caricatura exagerada, ao mesmo tempo ambiciosa e medíocre, do que ele havia sido há 20 anos, tenta se sobrepor até mesmo ao legado de Getúlio Vargas, apesar da relevância que o político gaúcho tem de suas realizações e que continua e continuará insuperável.

O que quer a elite do bom atraso com a desqualificação da antiga grandeza?

Simples. A elite do bom atraso tenta apagar a História do Brasil e tentar começar do zero. Ao mesmo tempo em que desqualifica quem havia sido relevante na sociedade brasileira, tenta começar tudo do zero, na esperança de ver toda a nação medíocre dos últimos tempos alcançar, como que competindo um decatlo, uma pretensa grandeza, se ostentando para o mundo.

Duetos musicais entre ídolos estrangeiros e brasileiros, as viagens excessivas e ostensivas de Lula, a obsessão de uma linguagem esquisita de "dialetos" em inglês - tipo dog, body e boy e até agora barbarista bullying - e gírias ridículas como "balada" (© Jovem Pan) dão o tom desse Brasil do viralatismo cultural enrustido, ou seja, um viralatismo nunca assumido como tal, pois oficialmente os "pais" do viralatismo cultural ou culturalismo conservador continuam sendo Sérgio Moro, Jair Bolsonaro, Kim Kataguiri, Carla Zambelli e companhia.

É constrangedor ver a histeria dessa elite do bom atraso que, como crianças birrentas, boicotam textos que apresentem senso crítico, fugindo de medo de verdades dolorosas. Só querem ler textos agradáveis, contar piadas sem graça e rir alto das mesmas, principalmente em plena madrugada. Uns querem fumar como se isso fosse a melhor coisa do mundo, outros jogarem comida fora, outros acumularem dinheiro sem necessidade, sem saber o que vão gastar, a não ser o mais supérfluo dos supérfluos.

Essas pessoas ficaram loucas quando viram Lula discursando na Assembleia da ONU. Até a mídia corporativa resolveu elogiar Lula, mais pela chance dessa elite obter para si o protagonismo mundial, completando o "serviço" feito quando John Fossit, tecladista de Bruno Mars, tocou a breguíssima canção "Evidências", de José Augusto, sucesso nas vozes dos canastrões Chitãozinho & Xororó.

Será que a elite do bom atraso quer substituir as esquerdas realmente progressistas, ou pessoas que, independente do plano ideológico (desde que não seja reacionária ou doentiamente conservadora), apresente alguma verdadeira grandeza humana?

Será que a elite do bom atraso quer sempre sepultar a antiga luta dos humanistas contra os socialmente nefastos de toda espécie, de forma a apagar os antigos heróis da memória afetiva brasileira, enquanto reabilita e ressignifica o legado dos antigos algozes também apagando pessoas e valores incômodos, mas mantendo sempre a essência das velhas oligarquias do Brasil-colônia?

O "novo esquerdismo" será desenhado pelas forças do atraso que derrubaram Jango e "lavaram as mãos" com a cassação política irrecuperável de Kubitschek? Até que ponto as elites do bom atraso vão chorar lágrimas de crocodilo com a morte violenta da menina Heloísa, mais uma vítima da truculência policial carioca? 

Ou até que ponto as elites do bom atraso vão fingir achar ótimo o fim do marco temporal (decretado pelo Supremo Tribunal Federal) que discriminava os povos indígenas ao lhes vetar o direito à terra? Sabe-se que a "boa" sociedade, como provou aquele "verão" brega do "combate ao preconceito" - ver Esses Intelectuais Pertinentes... - , nunca gostou da cultura originalmente indígena ou afro-brasileira, preferindo "etnicizar" o pobrismo através da gourmetização da miséria, das favelas, da prostituição etc.

A pequena burguesia que não tolerava Getúlio Vargas, João Goulart e Dilma Rousseff vai reescrever a história do esquerdismo brasileiro? Vamos reescrever a história da MPB com ídolos popularescos? Vamos reescrever a história do povo brasileiro transformando arrivistas nos "novos heróis" que prometem paz e alegria, gente que puxou o tapete dos outros mas que garante a pretensa unanimidade por não falar a língua raivista do hidrofobês?

Ver que a velha ordem que se tornou privilegiada e empoderada nos tempos do general Ernesto Geisel agora tenta se repaginar, fazendo uma plástica na cara, uma "limpa" no guarda-roupa, tentando parecer "esquerdista desde criancinha", é constrangedor.

Ver que Lula é visto pelos deslumbrados defensores da atual (e medíocre, embora grandiloquente) gestão como "mais esquerdista do que noutros mandatos anteriores" é uma grande hipocrisia, ainda mais quando o presidente brasileiro foi defender um projeto trabalhista junto com Joe Biden, o zelador de plantão do neoliberalismo de Tio Sam, com o claro objetivo de controlar e manipular os movimentos sindicais hoje enfraquecidos.

Mas temos que viver no faz-de-conta, para lacrar nas redes sociais e nas visualizações fáceis. Infelizmente a regra é fingir que Joe Biden é "socialista", mais "esquerdista" que Fidel Castro e que toda conta do neoliberalismo seja passada para um caricato Ernesto Che Guevara com chapéu do Clube do Mickey. Tudo em nome do "mundo da Barbie" a que se transformou o Brasil de Lula 3.0.

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