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GOVERNO LULA E O POBRE ESTEREOTIPADO


É risível que Lula lance uma campanha contra a polarização política, ele que justamente é um dos polos dessa dicotomia ideológica. E num momento em que o antipetismo nunca baixou a guarda, apesar de oficialmente enfraquecido no protagonismo político, A coisa se complica cada vez mais.

O governo Lula decepcionou porque o hoje presidente do Brasil, desde a campanha eleitoral d 2022, cometeu dois erros primários graves: achar que tudo está bem e se apressar em viajar para o exterior. Até o combate à fome, que fez Lula chorar feito um bebê nos palanques de campanha, foi deixado de lado em nome de um pretenso protagonismo internacional, desnecessário para o contexto atual do nosso país.

Tornando-se um governo do faz-de-conta, Lula começa a decepcionar até mesmo as esquerdas. A resistência de muitas pessoas em ler os textos contestadores deste blogue começa a diminuir, pois é muito melhor admitir uma realidade amarga do que refugiar-se em fantasias que, por mais persistentes que sejam, sempre esbarram na frustração.

Lula não fez grandes proezas. Apenas fez progressos pequenos. Houve progressos, sim, mas em passos de tartaruga, ou melhor, em passos da lebre do famoso conto da corrida, que preferiu se acomodar. Lula, com apelido que é nome de molusco, no entanto, tornou-se a lebre do conto, preferindo deitar na rede e achar que o Brasil já está reconstruído só porque o presidente é Lula.

E aí vemos os juros caindo em passos lentos. Preços dos produtos caindo lentamente e depois voltando a subir. Desemprego ainda alto, e critérios de mercado de trabalho ainda viciados, como no caso do etarismo e da meritocracia, de um setor privado contratando profissionais "divertidos" e um setor público contratando servidores concursados ranzinzas.

A pobreza continua firme e forte, infelizmente, com miseráveis extremos gritando e se enlouquecendo diante de uma vida sem chão. Por outro lado, a desigualdade social é defendida na prática pela "boa" sociedade, a elite do bom atraso que ganha fácil demais na sorte grande para torrar o dinheiro farto em cervejas, cigarros, excesso de cachorros para criar, festinhas todo fim de semana e viagens desnecessárias para Bariloche, Barcelona, Paris, Orlando, Los Angeles, Nova York etc, só para lacrar entre os amigos.

O atual governo Lula abandonou os pobres e os verdadeiros excluídos sociais. Fora da festa lulista estão tanto as pessoas intelectualmente refinadas, os cientistas, as pessoas solteironas e caseiras, os sem-tetos, o proletariado raiz, o lumpesinato e, no plano musical, roqueiros e bossanovistas. 

Essa diversidade de excluídos da festa lulista é composta dos que não se encaixam na festa hedonista-identitária de um Brasil com consumismo frenético e a cidadania restrita aos limites que permitem este hedonismo identitário, a "liberdade democrática" que, na prática, só serve mesmo aos agentes humanos da mesma linhagem daqueles que pediram a queda de João Goulart em 1964.

Aliás, o AI-5 completou 55 anos ontem, o ato institucional que fez a ditadura militar ser mais repressiva e violenta. Mas hoje Lula fez o milagre brasileiro de transformar a sociedade brasileira numa multidão em boa parte conformada e conformista, inofensiva e concordante como queriam os militares da ditadura, com a diferença que hoje o Brasil não é governado por generais nem o senso crítico e as manifestações de protesto são reprimidas com prisões, torturas e mortes.

A repressão que o AI-SIMco do Brasil de Lula 3.0 realiza é o cancelamento nas redes sociais, o boicote de verbas para a produção de filmes ou de teses universitárias, agora vetados para o pensamento crítico, uma herança do apetite censor que a burguesia teve nos anos de chumbo e que agora criou novas motivações, como o poder econômico e a suposta paz social de evitar temas "incômodos".

Que então se viva no mundo do faz-de-conta, aproveitando que as grandes empresas de entretenimento, agora compondo a nova elite dos super-ricos - subcelebridades e pseudo-artistas, donos de cerveja, dirigentes esportivos, empresários do entretenimento, craques de futebol, religiosos "espiritualistas" e pretensos filantropos - , a encher de cor e fantasia o sisudo universo das riquezas exorbitantes, tradicionalmente apropriadas por sisudos senhores de paletós grafite, cinza ou azul oxford.

E aí vemos o teatro da encenação, quando Lula mostra, como que num recorte, os "excluídos sociais" beneficiados por suas medidas governamentais. Lavadeiras, crianças negras pobres, catadoras de lixo, sem-tetos, índios, todos esses atores sociais do teatrinho lulista se deram desde a posse, quando Lula demonstrou estar brigado com Dilma Rousseff - os dois só se relacionam formalmente - e preferiu receber a faixa presidencial por supostos representantes das classes populares.

Na última cerimônia em que Lula lançou medidas para a população em situação de rua - atendendo uma exigência do Supremo Tribunal Federal - , apareceu um "sem-teto" que manifestou "estar feliz com a iniciativa". E isso com meses de atraso, pois Lula cometeu o erro grosseiro de esperar efemérides para implantar medidas sociais que deveriam ter sido feitas no primeiro dia de governo.

O teatrinho também é acrescido de encenações nas redes sociais, em que dois pobres, um extasiado e outro com um carrinho de compras cheio, alegam que "os preços das mercadorias baixaram", sem no entanto dizer em que supermercado e quais as marcas de mercadorias que baixaram. Tudo muito vago, feito apenas para causar impacto, sem informar detalhes sobre o que realmente baixou de preço. Se bem que, todavia, os preços voltaram a subir e só raramente sofrem alguma queda.

Em todo caso, Lula, que fala tanto que "governa para o povo pobre", só beneficia o pobre estereotipado, aquele pobre remediado padrão "Vai que Cola" capaz de fazer festinhas na laje todo fim de semana. Fora dessa relativa pobreza, há os verdadeiros miseráveis, que se sentem abandonados por Lula, e perderam a confiança no presidente. Só que esses pobres são tão pobres que não usam celular nem tem redes sociais, portanto parecem invisíveis ao filtro opinativo das redes sociais, que por isso preferem continuar no mundo da fantasia dos sonhos lacradores.


 

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