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A BURGUESIA DE CHINELOS NÃO QUER PAGAR A CONTA DO GOLPE DE 1964

 A ELITE DO BOM ATRASO QUER SER TURISTA NO PRÓPRIO BRASIL.

Não existe uma diferença fundamental entre a "democracia" que as velhas elites defendiam quando pediam a queda de João Goulart, há 60 anos, e a "democracia" que as festivas classes dos bem de vida e de bem com a vida que hoje apoiam Lula e já lhe dão voto para reeleição.

É a mesma elite, com os mesmos interesses, a mesma falta de caráter, a mesma ganância, o mesmo egoísmo, o mesmo conservadorismo. Mesmo alternando entre o hedonismo libertino com o espiritualismo religioso mais tradicional - por mais "futurista", "moderno" e "racional" possa parecer - , a elite do bom atraso apenas mudou na forma, mas na essência não difere muito dos hidrófobos avós das marchas familiares de 1964.

Hoje infantilizados pelo uso das redes sociais, convertidas no Brasil em brinquedos para adultos, os burgueses de chinelos que se acham pobres só porque falam "os cara e as mulé" e são fanáticos por futebol, na verdade, só se tornaram "progressistas" e "democráticos" porque aqueles que deveriam lutar por direitos estão socialmente castrados, a ditadura militar amedrontou os manifestantes sociais e o culturalismo conservador domesticou as classes populares e enfraqueceu proletariado e campesinato.

Sem essas pessoas para trazer inquietações, a mesma elite que quer demais para si, que tem obsessão pelo supérfluo em detrimento daqueles que sofrem por não poderem ter o necessário, apenas está mais tranquila. Os golpes sucessivos ocorreram, as necropolíticas diversas - feminicídios, parricídios, pistolagem, repressão militar, Covid-19 etc - dizimaram milhares de pessoas, e nosso país vê cada vez menos nascimentos ocorrerem.

Isso significa que a divisão do bolo torna-se cada vez mais restritiva, e a "boa" sociedade espera que o mito da "pobreza linda", cuja imagem glamourizada das favelas mascara sua condição trágica de verdadeiros campos de concentração de negros, índios e mestiços, entre outros excluídos sociais, possa dizimar mais gente, para deixar a burguesia brasileira poder viver em paz sua reputação de "classe média de Zurique" (ex-Oslo, depois que o economista estadunidense Robin Brooks afirmou que o Brasil "será a Suíça latinoamericana").

Mas como hoje são "outros tempos", os equivalentes tropicais do moleiro "amigo dedicado" de Oscar Wilde não podem mais mostrar nem assumir o passado golpista, escravocrata e genocida. Agora tudo está na conta de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Carla Zambelli, Silas Malafaia, Monark, Kim Kataguiri e o que vier junto. 

A burguesia "clássica", cujos avós gritaram pela queda de Jango em 1964 e cujos bisavós chamavam Getúlio Vargas de "ditador sanguinário" (apesar do político gaúcho ter, realmente, feito muito pelo povo brasileiro), hoje se acha no capricho de se achar até "esquerdista", já que hoje o socialismo está tão podado que se fala de um "socialismo de butique e de boteco", um esquerdismo "chapeuzinho vermelho" cujas questões trabalhistas são coisas do passado.

Essa elite, então, se torna invisível, tomando cerveja com pessoas comuns, indo para a praia pegar uma onda, desfilando com seus carros SUV pelas orlas marítimas mais transadas, ou fazendo suas caminhadas em botequins da moda situados em centros históricos, tornados paisagens de consumo para a classe média, enquanto as favelas viram paisagens de consumo para os "pobres de novela". As "generosas" elites brasileiras que se misturam com o povo querem apenas ser turistas do próprio país.

E assim a lembrança do golpe de 1964 se torna diluída quando os verdadeiros apoiadores hoje viram as costas para o passado. Se o presidente Lula faz questão de não se lembrar mais da ditadura militar para não desagradar seus novos "amigos de infância", os apoiadores de Lula, cujos avós espumaram de raiva ao verem Jango discursando na Central do Brasil, não querem que saibamos o que fizeram nos verões passados e nos outonos golpistas de 60 anos atrás.

Por isso, o legado do AI-5 se situa agora na mídia, nos meios acadêmicos, jurídicos e até cinematográficos, banindo o pensamento crítico que iria desmascarar certos beneficiados da hora. Daí o esquecimento como um analgésico para a burguesia esquecer suas dívidas estratosféricas com o sofrido e traumatizado povo brasileiro.

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