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O PAPEL DEVASTADOR DA FOLHA DE SÃO PAULO NA CULTURA BRASILEIRA


O papel da Folha de São Paulo na degradação cultural do Brasil pode não ter sido tão explícito quanto a Rede Globo ou o SBT, mas todos, durante a ditadura militar, tiveram uma participação decisiva na conduta cultural dos brasileiros, visando atingir os objetivos estratégicos da plutocracia que a simples repressão violenta não poderia alcançar.

Muito pelo contrário, a violência física e logística - como a censura - da ditadura militar, se levada às últimas consequências, poderia trazer os efeitos contrários. A morte de Vladimir Herzog foi um exemplo, a de Zuzu Angel também. E já havia denúncias de crimes contra os direitos humanos que a então autoproclamada "revolução democrática" havia cometido, e isso poderia botar tudo a perder.

Daí que, vendo que boa parte dessas denúncias vinha de setores progressistas da Igreja Católica, identificados com a Teologia da Libertação, a ditadura, sob a desculpa da "diversidade religiosa", teria financiado o crescimento de outros movimentos religiosos visando o enfraquecimento do Catolicismo no Brasil, com a finalidade de levar em descrédito os católicos ativistas.

Por isso mesmo é que vimos, no meio dos anos 1970, o repentino crescimento ou aparecimento de religiões como o Espiritismo brasileiro e o Neopentecostalismo, coisas que eu conseguia perceber, de forma latente, quando eu tinha cinco anos de idade em 1976, mas não percebia, nesta minha infância, a gravidade de todo esse processo.

Enquanto Romildo Ribeiro Soares, o R. R. Soares, despontava como um dos primeiros pastores eletrônicos da época, ao lado de um então emergente Edir Macedo, depois dono da Record TV (a mais antiga rede de televisão em atividade no Brasil), um "médium espírita" charlatão virava pretensa unanimidade através de uma suposta caridade sem resultados, feita para promoção pessoal desse farsante religioso de ideias medievais que havia defendido radicalmente a ditadura mas que conseguiu enganar até esquerdistas, roqueros, comunidade LGBTQIA+ e outras forças modernas.

Essa suposta caridade, marcada por cartinhas fake de "entes queridos mortos", por longas filas de miseráveis para receber precária quantidade de mantimentos e a alegação de que doou o dinheiro da venda dos livros "para a caridade", enquanto essa abnegação financeira enchia os cofres dos dirigentes "espíritas" sob o consentimento do "médium", se juntam a denúncias diversas, como a morte suspeita de um sobrinho, e que se acumulam em relatos na Internet.

Apesar disso, a passagem de pano desse "médium", figura perigosa de tantas energias maléficas que inspira e que faz do Espiritismo brasileiro uma religião tão macabra que faz Valdomiro Santiago parecer animador de quermesse, que o que poderia ser facilmente desmascarado por gente como os finados produtores de desenho animado Joe Ruby e Ken Spears causa muita dificuldade até para semiólogos que desvendam "bombas semióticas" quando elas vêm da Polônia ou dos escritórios de Donald Trump, mas tremem quando se é para investigar o gigantesco paiol semiológico do "médium da peruca".

A própria Folha passou, tardiamente, a blindar o "médium", uma iniciativa que parece vir de Luís Frias, um dos donos do periódico paulista, depois que o antigo dono e principal ideólogo do jornal, Otávio Frias Filho, faleceu em 2018. Diz a lenda que Luís Frias passou a apoiar o Espiritismo brasileiro na esperança de receber uma "psicografia" de Otávio lhe designando como único herdeiro da Empresa Folha da Manhã.

Mas a Folha não necessariamente "ensinou" os brasileiros a cultuarem obsessivamente um farsante religioso, a ponto de passar pano nos graves erros de uma trajetória que inclui uma misteriosa morte de um sobrinho, Amauri, que teria sido difamado e sofrido acusações infundadas antes de morrer envenenado por um assistente de um dirigente "espírita", anos depois do jovem ter denunciado o tio. A TV Tupi, a Rede Globo e o SBT já haviam designado essa propaganda de maneira assustadoramente habilidosa, fazendo o "médium" ser adorado até por quem representava o oposto dos valores dele.

DESMONTAR A REBELDIA DOS POBRES E DOS JOVENS ROQUEIROS

A Folha preferiu agir por duas frentes, numa metodologia mais intelectual e orgânica do que o simples apelo propagandístico que as emissoras dos Marinho e dos Abravanel e, antes, do condomínio dos Diários Associados após a morte do "velho capitão" Assis Chateaubriand, fizeram para atrair o apoio do grande público, através do espetáculo sensacionalista da falsa solidariedade aos oprimidos.

O negócio da Folha era desmontar tanto a rebeldia do povo pobre quanto o engajamento de um público alternativo identificado com o rock. Nestas duas frentes, a Folha, juntamente com a Abril, foram ajudar no crescimento de uma rádio comercial que estava embarcando na onda do radialismo rock, aproveitando dos "louros" do primeiro Rock In Rio 1985.

Essa rádio é a 89 FM, emissora paulista cuja família dona era apoiadora da ditadura militar. O patriarca José Camargo era ligado a Paulo Maluf, foi deputado pela ARENA e parceiro político de José Maria Marin que, décadas antes de se envolver como dirigente esportivo, havia feito campanha pela prisão de Vladimir Herzog, dando origem à tragédia que hoje conhecemos.

Nos anos 1990, a 89 FM foi fartamente patrocinada pelo governo Fernando Collor. A emissora se vendia como "apolítica" e usava o aparato de "rádio rock" visando três objetivos: mascarar seu caráter empresarial conservador, cooptar o público e os músicos de rock e dissolver qualquer foco de rebeldia autêntica dos jovens brasileiros.

E isso ocorria mesmo quando a 89 não representava um diferencial real de rádio, pois a emissora apenas reproduzia a mesma linguagem e mentalidade da Jovem Pan sob um vitrolão roqueiro. Até os nomes Tutinha e Tatola dariam para se combinar no nome de uma hipotética dupla "sertaneja": Tutinha & Tatola ou Tatola Godas & Tutinha.

Transformando a cultura rock num mainstream marcado por zonas de conforto - o roqueiro dos anos 90, em vez de garimpar como seus antecessores, passou a se contentar com os "grandes sucessos", definidos sob o eufemismo de "clássicos" - , a Folha de São Paulo, principal "palco" impresso da propaganda da 89 FM, ajudava a eliminar a conduta contestatória e militante que o rock havia reativado na década de 1980. Menos Legião Urbana e mais Mamonas Assassinas.

Mas a Folha de São Paulo deu uma ajudinha para a axé-music baiana - instrumento do ufanismo político de Antônio Carlos Magalhães, o político considerado pejorativamente como o "dono da Bahia" - crescer nacionalmente. A axé-music já antecipava o "funk" na choradeira do "preconceito", uma desculpa esfarrapada para atingir mercados heterogêneos, através de uma intelectualidade "bacana" baiana que passou a fazer pano na "cultura de massa", na contramão dos mais renomados pensadores europeus.

A Folha também promoveu o mito do historiador Paulo César de Araújo, exaltando o livro Eu Não Sou Cachorro Não, sobre os antigos ídolos cafonas, num trabalho certeiro de propaganda. Nem o Jornal do Brasil chegava a tanto, pois o periódico carioca admitia que muitas das teorias lançadas por Araújo eram dignas de serem publicadas no Planeta Diário, jornal fundado por uma parte dos comediantes do então futuro Casseta & Planeta.

Defendendo, então, os fenômenos popularescos como se fossem a "cultura popular por excelência", a Folha de São Paulo desenvolveu uma parceria com a Rede Globo para promover o crescimento mercadológico do "funk", atingindo novos mercados. Enquanto a Globo apelava pela popularização pura e simples, inserindo o "funk" em tudo quanto era atração e veículo, do Jornal Nacional a Malhação, da Quem Acontece ao Canal Futura, a Folha agia de maneira mais "orgânica".

A Folha criou uma narrativa "socializante", montada junto a uma elite de intelectuais brasileiros, a partir dos setores tucanos da USP, que já tinham influência cultural nos meios acadêmicos desde 1974 e, sobretudo, de forma intensa nos anos 1990.

A ideia da Folha é fazer o "funk" virar, de forma postiça, um "kaleidoscópio" de referências culturais e comportamentais que incluía sutis evocações ao Modernismo, à Pop-Art, à Revolta dos Canudos, ao punk rock e à Contracultura. Era uma narrativa falsa que vinha mais de juízos de valor de uma elite intelectual paternalista, mas o discurso funcionou na fantástica fábrica de consensos que permitiu prevalecer uma visão dominante que até hoje blinda o ritmo.

A ideia da bregalização promovida pela Folha era transformar a cultura brega-popularesca - uma grande frente de tendências popularescas de "sucesso fácil" entre o grande público - era eliminar qualquer foco de rebeldia nas classes populares, criando um divertimento que, pelo seu caráter patético e precarizado, já poderia ser trabalhado como "rebeldia por si só". 

Era a "ditabranda do mau gosto" (só para fazer trocadilho com um termo usado pela Folha), o "marketing da rejeição", campanha que gourmetizou os fenômenos popularescos e deu mais fôlego para essas tendências crescerem no mercado, sufocando espaços que antes eram para a MPB e o Rock Brasil.

O "FILHO DA FOLHA"

Com todos os processos de bregalização cultural em jogo, dos ídolos cafonas do passado ao "funk", passando pela axé-music e outras leituras "modernosas" dos fenômenos popularescos em geral, a Folha, através de seu empresário, ideólogo e eventual articulista Otávio Frias Filho, designou o jornalista Pedro Alexandre Sanches para fazer proselitismo na mídia de esquerda, como um infiltrado.

Sanches foi contratado pela Folha após ela implantar o Projeto Folha, que demitiu vários jornalistas de esquerda e apenas permitiu que o pensamento esquerdista, quase sempre estrangeiro, fosse confinado nas páginas do caderno Mais, dedicado à Literatura em geral e aos ensaios filosóficos.

Portanto, Sanches foi admitido nesse contexto antiesquerda da Folha, mas logo depois foi designado pelo próprio Otávio Frias (conhecido pelos amigos como Tavinho Frias) para "jogar no campo adversário". Desse modo, Sanches se desligou formalmente da Folha, mas informalmente era como se ele atuasse como freelancer dos interesses estratégicos de Frias, seu outrora "patrão-colega", em alusão ao hábito da mídia venal de seus repórteres e articulistas chamarem patrão de "colega".

Assim, o "filho da Folha" Pedro Alexandre Sanches foi levar a visão culturalista da Folha de São Paulo para as redações de Caros Amigos, Carta Capital e revista Fórum. Vestindo a máscara do "bom esquerdista", Sanches passou a "passear" pelas redações esquerdistas de 2008 até pouco tempo atrás.

Vendo o perigo de um jornalistas desses influenciar mal a opinião pública, eu tive que agir, mesmo quando meu antigo blogue Mingau de Aço era uma espécie de "patinho feio" da mídia alternativa. Denunciando as armadilhas traçadas por Sanches, uma a uma, eu consegui, com dificuldades, frear a ascensão do "filho da Folha", que chegou a enganar até setores mais orgânicos da intelectualidade de esquerda.

Sanches quase chegou ao "coração" dos jornalistas de esquerda, o Centro Barão de Itararé, depois de praticamente tornar estéril o ativismo popular, jogando o povo pobre para o entretenimento passivo e subordinado do brega-popularesco (que Sanches definia como "popular demais"). O "menino de ouro" de Otávio Frias Filho chegou a mediar, pasmem, um debate entre o hoje falecido Paulo Henrique Amorim e o jornalista do GGN, Luís Nassif.

A tática de Sanches era creditar os fenômenos brega-popularescos como "rebeldia", como se eles fossem em si um "fenômeno de rebelião popular" e não o que realmente eram, meros fenômenos comerciais da "cultura de massa".

Pedro Alexandre Sanches demonstrava não ser um esquerdista autêntico. Tinha um comportamento acovardado, não abria o jogo sobre sua verdadeira ideologia, ele apenas se infiltrava em cenários das esquerdas, assim que as conveniências do momento lhe permitissem. Ele atuou com intensidade na sua campanha até pouco depois da posse de Michel Temer, quando o "filho da Folha" chorava pelo fim do Ministério da Cultura, do qual dependia para verbas de incentivos fiscais para seu portal culturalista Farofafá.

Sanches agia de forma tão tendenciosa que ele, em algumas perguntas, atiçava a solidariedade do entrevistado através de perguntas especulativas. Em uma, Sanches perguntou a um produtor por que o Calcinha Preta não era "culturalmente levado a sério". Em outra, Sanches forjou a associação do "funk" com o MST através de uma pergunta tendenciosa ao MC Leonardo, presidente da APAFUNK.

Sanches foi um colaborador estratégico da dita "campanha contra o preconceito" que visava ampliar mercados da música popularesca, em parceria com empresas que iam da indústria automobilística às fábricas de cervejas. Era uma campanha comercial travestida de ativismo político-cultural, sob a desculpa de serem os fenômenos popularescos a "verdadeira expressão do povo das periferias".

Só que a campanha pegou pesado demais e, com a desmobilização do povo, "convidado" a se ocupar com o "engajamento" do "funk", da axé-music, do "sertanejo", do forró-brega, da velha canção cafona etc, a direita aproveitou para usar as críticas à idiotização sociocultural do brega-popularesco para se ascenderem e causarem o golpe contra Dilma Rousseff.

Hoje o brega-popularesco cresceu tanto que a precarização cultural virou regra, com vários malefícios, como jovens promovendo festas de "funk" e outros ritmos popularescos no alto da madrugada, perturbando o sono dos trabalhadores que precisam descansar para acordar cedo, e, não raro, muitíssimo cedo.

A supremacia brega-popularesca chega a atingir as universidades - amestradas, desde os anos 1990, com a concorrência desleal montada pela multiplicação de faculdades privadas na Era FHC - e já está na quinta geração de ídolos e intérpretes, hoje focada no trap, no piseiro e em vertentes identitárias do "sertanejo de sofrência". 

Para piorar, o brega-popularesco já criou um movimento "nostálgico", que eu defino como brega-vintage, marcado por nomes como Michael Sullivan, É O Tchan, Gretchen, Raça Negra, Bell Marques e Chitãozinho & Xororó, estes através do sucesso "Evidências".

Por isso, o papel da Folha de São Paulo na devastação da cultura brasileira foi bastante decisivo. Não foi o único nem o mais explícito, pois tais atribuições ficaram por conta de Globo, SBT e companhia, mas a Folha deu um caráter intelectualmente logístico para construir uma narrativa "científica", à maneira do IPES-IBAD dos anos 1960, para favorecer a ampliação dos mercados da música popularesca através de um suporte intelectual bastante articulado.

Assim, nosso país teve que mergulhar no caminho sem volta da deterioração sociocultural que desmobiliza massas e permite o sono tranquilo das elites que podem lucrar abusivamente sem susto.

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