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O NEGACIONISMO FACTUAL E A 89 FM


Era só o que faltava. Textos que contestam a validade da 89 FM - que celebra 40 anos de existência no dia 02 de dezembro, aniversário de Britney Spears - como “rádio rock” andam sendo boicotados por internautas que, com seu jeito arrogante e boçal, disparam o bordão “Lá vem aquele chato criticar a 89 novamente”.

Os negacionistas factuais estão agindo para manter tudo como o “sistema” quer. Sempre existe uma sabotagem quando a hipótese de um governo progressista chega ao poder. Por sorte, Lula andou cedendo mais do que podia e reduziu seu terceiro mandato ao mínimo denominador comum dos projetos sociais que a burguesia lhe autorizou a fazer. Daí não ser preciso apelar para a farsa do “combate ao preconceito” da bregalização cultural que só fez abrir caminho para Jair Bolsonaro.

Por isso, a elite do bom atraso investe na atuação “moderadora” do negacionista factual, o “isentão democrático”, para patrulhar as redes sociais e pedir o voicote a páginas que fogem da assepsia jornalística da mídia patronal. Existe até a herança acidental do “fisólofo” Olavo de Carvalho em uma parcela de detratores, pois ambos compartilham a visão sem um pingo de lógica de que “cogarro faz bem à saúde”.

No caso da 89 FM, o negacionismo factual entra em ação num contexto surreal. A rádio, cujos donos são uma família que apoiou a ditadura militar, representa o oposto do que significa o rock como cultura. A blindagem da 89 FM pelo mercado e pela mídia patronal, principalmente Abril e Folha e, às vezes, a Rede Globo, fez crescer o poder de um empresário de perfil bastante conservador.

As pessoas vão para a filial brasileira do Cavern Club ou para o Monsters of Rock e dormem tranquilas depois de ver o logotipo da 89 nos cartazes. De repente o roqueiro viro carneirinho do sistema e se transformou numa marionete ao gosto da Faria Lima e, principalmente, do Grupo Camargo de Comunicação.

A gente contesta isso tudo e, além de termos que encarar os esquentadinhos fundamentalistas que adoram a 89, vão os negacionistas factuais para pedir o boicote a textos que reprovam a “maravilhosa rádio rock”.

Que cultura rock esses negacionistas querem? A de feiras de automóveis e motos e de restaurantes temáticos? Já não bastou a onda da MPB de churrascaria, que fez muito ídolo da música brega-popularesca embarcar na “MPB de mentirinha”?

Rock se reduziu a mero couvert artístico? Bandas de yuppies tocando covers de Beatles e Creedence Cleareater Revival, com “direito” ao sucesso “Proud Mary”, que os fãs de parquiletes (parklets) conhecem como “Uouin’ at the Ribo”?

A gente vê um canastrão como Tatola Godas, o locutor estilo.putz-putz da 89 e que, como dublê de roqueiro punk, mais parece um crooner, que nos tempos do Não Religião, queria imitar de forma grosseira o Ira! e a Plebe Rude. Querer o Tatola como uma espécie de babá eletrônica para roqueiros emergentes é constrangedor.

Nas redes sociais, muita gente faz elogios rasgados à 89 FM, mas vamos combinar que o pessoal só ouvia a rádio no período da noite, através de programas específicos. Claro, os elogios fazem sentido quando são programas como Rock Report, Comando Metal, TV LeeZão e a retransmissão do Novas Tendências. Mas nada que faça sentido ao papo de “programação 24 horas de puro rock'n'roll”. No caso da 89, é conversa para boi e filhinho de papai dormir. 

Na grade diária da 89, só uns cinco programas prestavam, o resto é Jovem Pan com guitarras mesmo. Só valiam para sortear ingresso, carro, viagem, com “loucutores” que mais pareciam animadores infantis. Já dá para perceber o quanto os farialimeiros da 89 tratam o roqueiro como se fosse uma criancinha mimada.

Embora a cultura rock tenha várias nuances que relativizam o conceito de “verdadeira cultura rock”, não há como colocar nesse âmbito variado o carocato radialismo rock da 89 FM e, pir associação, a Rádio Cidade carioca,pois a visão de rock que as duas rádios possuem serve mais a uma visão etnocêntrica de empresários que representam o oposto do que pensa, vive e deseja o público de rock.

Daí ser vergonhoso ver uma parcela do público de rock sentar no colo da Faria Lima ao apoiar o principal veículo do Grupo Camargo de Comunicação. Apoiar a 89, portanto, é o extremo oposto do universo natural do rock, tão impróprio quanto o povo palestino apoiar o Benjamin Netanyahu. 

Que rebeldia roqueira se pode esperar de qiem faz o jogo do mais poderoso empresário da Faria Lima? Assim, a cultura brega-popularesca agradece.

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