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INJUSTIÇAS E ABUSOS NUMA SALA DE INFORMÁTICA NUMA FACULDADE


Década de 1990. Um estudante de graduação em Jornalismo, cursando Bacharelado, não tem computador em casa, mas tem um projeto de um zine, ou seja, uma revista independente na qual quer divulgar assuntos culturais que mesmo a mídia independente não tem interesse em publicar.

Desejando usar um computador, ele vai para a sala de uma Faculdade de Comunicação. Conversa com um monitor que controla a sala e o uso dos computadores. O estudante diz que quer fazer um zine e quer escrever textos no computador.

O monitor dá a resposta negativa.

- Me desculpe, mas essa sala só é reservada para trabalhos acadêmicos, principalmente para estudantes de pós-graduação. Sinto muito.

O estudante se retira, desolado e muito triste, proibido de exercer seu treinamento de produzir textos informativos.

Enquanto isso, um dos alunos de Mestrado, com bom prestígio entre colegas e até professores, utiliza um computador para produzir uma tese acadêmica. Na maior parte do tempo, porém, o mestrando realiza atividades de entretenimento, dedicando pouco tempo à sua monografia ou mesmo às pesquisas relacionadas à sua tese acadêmica.

O mestrando alterna, portanto, a visualização do aplicativo Microsoft Word, no qual escreve seu trabalho para a faculdade, com um chat sobre futebol no qual ele interage mandando mensagens, e, além disso, ele também tem outra aba do browser para praticar um joguinho on line

Em uma terceira aba, da qual saiu de um texto digital que servia de fonte para uma abordagem de sua tese acadêmica, ele abriu uma página com garotas de biquíni fazendo poses sensuais. Aparentemente, ele não está autorizado a ver estas páginas, mas até o monitor e um professor de faculdade presentes na ocasião veem o que o mestrando está fazendo e só "repreendem" de brincadeirinha.

- Rapaz, saia dessa página, aqui é ambiente de estudo. - diz, rindo, o professor, fingindo dar ordem para o mestrando.

- É para distrair um pouco, sabe como é. - disse o mestrando. - Mas não se preocupem, o trabalho está de vento em popa, só preciso interromper para "respirar um pouco".

- Vai fundo. - diz o monitor, se despedindo, assim como o professor. Nada acontece com o rapaz.

Não é preciso dizer que a tese acadêmica é daquelas teses em que a abordagem crítica é inexistente. São aqueles textos dotados da cosmética da linguagem acadêmica, sobre "problemáticas" que depois são desproblematizadas e transformadas em patrimônio fenomenológico.

Para quem não entende profundamente de jargões acadêmicos, consideramos que um "patrimônio fenomenológico" é aquela ideia ou assunto que pode ser um dos mais problemáticos da atualidade, mas que é preservado sem questionamentos nem contestações, através de uma abordagem acadêmica que, com tantas passagens de pano, parece ser escrita pela flanela e não pelo teclado de um computador.

Portanto, é uma daquelas teses acadêmicas que geram burburinho e festas quando, depois de pronta, vive seus quinze minutos de fama e badalação quando exposta no seminário final do curso de pós-graduação, neste caso o de Mestrado. Mas, depois dessa festa toda, a tese acadêmica foi permanecer no esquecimento na biblioteca da faculdade. Na prática, só fungos, baratas, traças e aranhas se interessam pelo material, que, anos depois, tem suas folhas de papel amareladas e com manchas bege.

Quanto ao estudante de Bacharelado, ele só pôde treinar seus textos jornalísticos porque seus pais lhe deram de presente um computador. Assim ele teve condições de concluir a edição de seu zine.

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