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AS ARMADILHAS DA NOSTALGIA QUALQUER NOTA

ATÉ UMA LEMBRANÇA FAMILIAR BANAL SERVE PARA GLAMOURIZAR A MEDIOCRIDADE CULTURAL DO PASSADO.

Ultimamente a mediocridade cultural de um passado recente passou a sofrer de um aparente perecimento às avessas. Por se tornar uma coisa mais antiga que se associa à lembrança sentimental das pessoas, só por serem coisas de mais de 20 anos elas são vistas como “geniais” só porque, à primeira vista, estariam acima da rotina rasteira do presente.

As pessoas caem nessa armadilha da nostalgia fácil, que faz com que, só porque nosso presente parece pior, o que era ruim antes passa a ter reputação de “excelente”. Lata de algumas décadas atrás vira “ouro”, lixo do passado vira “tesouro”. Basta aquela música ruim de 35 anos atrás ter servido de fundo musical para uma lembrança saudosa que ela se torna “clássico absoluto”.

O saudosismo fácil acaba misturando o joio com o trigo, juntando coisas antigas que valem a pena com coisas que nem valiam tanto a pena, mas estão associadas a um momento agradável da vida de alguém. É o sentimentalismo banal promovido a um pretenso atestado de qualidade artístico-cultural.

Acrescentamos a isso a influência de um poderoso lobby envolvendo empresários de entretenimento, executivos de mídia e da indústria fonográfica e produtores de rádio e TV, que articulam jornalistas para criar uma narrativa glamourizada dos ídolos medíocres do passado, que são relançados como se fossem “relíquias nostálgicas”.

Fico estarrecido quando, nas mensagens dos fóruns da Internet, os ídolos popularescos dos anos 1990 são levados a sério e tratados como “grandes artistas”. Numa postagem no Threads sobre cantores solo que não fazem o mesmo sucesso de quando estavam em seus antigos grupos, houve gente que tratou o canhestro Bell Marques, o cantor de axé-music que não sabe cantar um jingle baseado num sucesso seu, como se fosse “genial”.

Houve também uma matéria de Veja falando sobre o “método de composição” de Michael Sullivan, como se ele, um mero imitador barato do pop estadunidense, fosse o primor da sofisticação musical brasileira. E a narrativa de que grupos como Mastruz Com Leite e Magnificoss são “forró de raiz”.

Tem o "piripipi" ou o "konga konga konga" da Gretchen, tem a "alegria" do É O Tchan, o falso engajamento do "funk", são o "farofafá" e a "biluteteia" do Mauro Celso, os lamentos piegas de Waldick Soriano e a pretensa rebeldia de Odair José. Tudo vira saudosismo, nostalgia ou memória vintage só porque tocou em algum momento pessoal marcante para alguém.

Tudo isso é alimentado por um esquema comercial que não envolve somente a música. Na Copa do Mundo de 2002, a Seleção Brasileira de Futebol passou a vender a imagem de “última geração genial”, a exemplo dos canastrões Chitãozinho & Xororó tidos como “os últimos da canção caipira de raiz”.

No caso da Seleção, foi criado um truque que glamourizou a atuação do time de 2002, marcado pela mediocridade apesar da facilidade de golear. A mídia só mostrava os momentos dos gols na TV, sob uma narrativa fabulosa e, com isso, um time fraco foi classificado como “clássico”.

O saudosismo de resultados se torna uma armadilha para pessoas dotadas de fraquezas emocionais. Não se trata de dar um valor real, pois se trata de uma mera valorização subjetiva e emocional, sem um pingo de razão. 

O empresariado deita e rola com a ingenuidade coletiva e tudo que foi medíocre no passado ganha rótulo de coisa pretensamente brilhante. Mas nem tudo que é antigo reluz a ouro. A indústria do entretenimento apenas quer vender lixo e quinquilharia de ontem como se fosse tesouro. Convém ficarmos espertos.

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