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JORNALISMO DE ESCRITÓRIO E A DESVALORIZAÇÃO DA VIVÊNCIA HUMANA

NO JORNALISMO DE ESCRITÓRIO, OS CONSELHOS EDITORIAIS SE ACHAM ACIMA DOS FATOS.

A recente demissão da jornalista Graziela Andrade, na TV Globo de Minas Gerais, é mais um capítulo de tantas demissões de profissionais experientes e no vigor de seu trabalho, criando lacunas de gente experiente e com uma visão de mundo relevante e consistente.

Desde o governo Michel Temer, vemos a imprensa brasileira decair no enxugamento de profissionais, no encolhimento de veiculos, na domesticação das pautas. Há dez anos, emergiu o “jornalismo de escritório”, voltado a atender interesses comerciais dos conselhos editoriais, pouco preocupado com a vivência humana e o contato efetivo e honesto com os fatos.

O clube de veículos do “jornalismo de escritório” não é exatamente homogêneo, mas o clima de redução do senso crítico e a interpretação da realidade pouco vinculada aos fatos unifica desde veículos de direita, como O Antagonista e Oeste (este com logotipo da mesma fonte gráfica de Isto É), de esquerda, como Revista Fórum e Diário do Centro do Mundo, e até a antiga emissora Super Rádio Tupi, que já foi AM e hoje é uma webradio que usa o desgastado dial FM como vitrine.

Para compensar a pouca vivência dos jornalistas, o jornalismo de escritório vem com frases de filósofos ou coisa parecida e relatos psicológicos do tipo “o que pessoas nascidas entre 1970 e 1980 nos querem dizer através dexseus hábitos na adolescência” ou “quem nasceu na década de 1990 demonstra maior grau de resiliência na vida”.

Tudo virou “estatístico”. São as cidades brasileiras que disputam vantagens em “cultura, educação, preços e serviços”. São as “disputas” de gerações de pessoas para ver quais qualidades se spbressaem ou não. Um saber que, na melhor das hipóteses, pode parecer enciclopédico, mas carece de calor humano.

Reportagens continuam havendo, mas a visão de mundo sofre uma queda considerável de qualidade. A deterioração cultural brasileira só é inteiramente reconhecida por gente com mais de 75 anos. Mesmo na minha geração (tenho 55 anos de idade), isso é muito raro. Afinal, no Brasil tivemos, desde 1964, retrocessos que hoje são considerados naturais e até alvos de nostalgia. E quem é mais jovem tem dificuldade para ver os malefícios de vários retrocessos.

A demissão de profissionais experientes, que está acima de ideologias, poderia ser apenas um fim de um ciclo e uma renovação, se não fosse a lacuna que se deixa, pois a qualidade dos novos jornalistas, salvo exceções, anda caindo, se ainda não chegou a ser sofrível. E são jornalistas mais alinhados a esse jornalismo onde os conselhos editoriais se acham acima dos fatos.

Seria necessário voltarmos para um jornalismo mais arejado, voltado mais aos fatos do que a diretrizes empresariais. Um jornalismo que não precise subir nos pedestais de citações filosóficas ou de comparações entre cidades ou gerações de pessoas para compensar seu pouco caso com os fatos. Um jornalismo que dispense pretensões de heroísmo e que não seja refém do mercado. E um jornalismo sem sobrecarga nem overdose de informações que permita a gente respirar entre uma notícia e outra.

Falta um jornalismo como em outros tempos distantes, que formaram a bagagem dos jornalistas que morreram ou deixaram de trabalhar por uma razão ou outra.

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