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CASA EM FAVELA GANHA PRÊMIO DE ARQUITETURA. MAS MUITA CALMA NESTA HORA


Uma casa situada numa favela do Aglomerado da Serra, a comunidade de Vila Cafezal, Centro-Sul de Belo Horizonte, ganhou o concurso de Casa do Ano promovido pelo projeto internacional Arch Daily, que escolheu a residência brasileira que concorreu com outras do México, Alemanha, Índia e Vietnã.

A residência se chama Barraco do Kdu, ou, formalmente, Casa no Pomar do Cafezal, e é propriedade do artista plástico Kdu dos Santos. O projeto, organizado pelo arquiteto Fernando Maculan, é realmente uma casa funcional, feita com baixo custo e recursos simples. A base é o tijolo exposto, a área do imóvel é de 66 m², não foram utilizados reboco nem pintura e as peças foram colocadas deitadas.

Com certeza, o resultado das obras ficou muito bonito e maravilhoso. A casa valoriza seu espaço, seja interno, seja externo, como o quintal. O imóvel tem dois andares e as janelas valorizam a iluminação e a entrada de ar.

No entanto, temos que ter muita cautela, ter muita calma nessa hora. Isso não vai legitimar a alegação de que favela, no Brasil, passou a ser vista como "instituição", "pátria", "nação", "lar dos pobres", "terra natal" ou "habitat natural", através de um clima de ufanismo trazido por uma elite intelectual paternalista, burguesa, mas que se acha "mais povo que o povo", como a turminha do "combate ao preconceito" (ver Esses Intelectuais Pertinentes...).

Temos que tomar cuidado, porque há a narrativa do pobrismo que transforma favelas em paisagens de consumo, em safáris humanos, e no Brasil marcado pelo racismo estrutural, a intelectualidade pró-brega, "sem preconceitos" mas muitíssimo preconceituosa, usa a retórica de "apoio às periferias" como uma máscara para seu racismo científico.

Durante anos, li textos de antropólogos, críticos musicais, cineastas de documentários, sociólogos e historiadores, vários deles dotados de "provocatividade", e fiquei abismado com a defesa ferrenha usada por eles para uma concepção caricatural do povo pobre.

Embora jurassem que suas visões eram "realistas", que eles defendiam a "verdadeira cultura popular brasileira" - a ponto de um Eugênio Raggi, por sinal um conhecido historiador de Belo Horizonte, ter me agredido num antigo fórum, Samba & Choro (o texto está todo em Esses Intelectuais Pertinentes...) - , o "verdadeiro povo" que eles defendiam estava mais próximo de algo que se vê em núcleos pobres de novelas da Rede Globo ou de comédias que vão de A Praça é Nossa a Vai Que Cola.

Temos, aliás, que desmascarar esses padrões socioculturais que hoje vemos, porque na verdade a cultura que prevalece hoje na sociedade é tramada por uma pequena elite de pessoas. A "liberdade" é uma concessão da Folha de São Paulo, com participação acionária da Globo, do SBT, da Rede TV!, da Jovem Pan, entre outros veículos do poder midiático dominante.

Não podemos nos enganar que esses valores, só pela ampla facilidade de compartilhamento do público em geral, sejam valores "de toda a humanidade brasileira". Não são. Temos que desmascarar esse culturalismo vira-lata enrustido, essa bregalização que virou o "novo normal" do entretenimento atual, e esses valores estranhos que viram moda, como o portinglês (como a tolice de chamar cãozinho de "doguinho") e a persistência da horrenda gíria "balada" no vocabulário "popular", um jargão da Jovem Pan e da juventude da Faria Lima que contaminou até setores das esquerdas brasileiras.

Nas favelas, o que existem são exceções feitas por pobres remediados, uns já integrando as fileiras mais modestas da chamada classe média (conforme os critérios de Jessé Souza). A "periferia" que dá certo, dentro desse padrão cultural ditado pela intelligentzia, corroborado pela esquerda identitária, é a de uns poucos emancipados, o 1% que Jessé fala nos seus livros, a minoria dos pobres que têm a chance de pegar as fatias seletivas oferecidas pela burguesia.

São apenas poucos pobres que viram ex-pobres. Viram classe média, como no caso de Kdu dos Santos. É uma conquista válida, porém limitada a esse público, fazendo com que nas favelas umas poucas casas sejam mais organizadas estruturalmente. Isso não faz das favelas um ambiente permanente ou definitivo, pois elas se fundamentam pelas construções precárias, a maioria esmagadora de seus diversos territórios existentes no Brasil.

A premiação ocorre na mesma época em que, na tragédia do Litoral Norte paulista, sobretudo na comunidade de Barra do Sahy, no município de São Sebastião, várias casas de favelas foram derrubadas, causando várias mortes. 49 pessoas morreram em São Sebastião e uma em Ubatuba, conforme dados vistos na edição deste texto.

Não se pode brincar com a vida do povo pobre. A premiação de uma casa de favela em Belo Horizonte é válida pela qualidade, funcionalidade e baixo custo de sua edificação. Mas isso é exceção e não se pode cair na tentação de tomar a exceção como regra. A maioria das casas de favelas está mais para Barra do Sahy. Favela não é nação, não é pátria, não é habitat natural. Favela continua sendo um problema habitacional. O problema é o preconceito positivo oculto nas elites "sem preconceito", que pensam que problema, quando vem do povo pobre, é "solução" e "privilégio".

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