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JORNALISMO FICA SEM A JOVIALIDADE DE GLÓRIA MARIA

GLÓRIA MARIA EM ÚLTIMA APARIÇÃO PÚBLICA, EM JUNHO DE 2022, NO RIO DE JANEIRO, DURANTE UM DIA DE COMPRAS.

O jornalismo perdeu uma de suas figuras mais talentosas. Glória Maria, a simpática e jovial repórter e apresentadora, não conseguiu resistir a um câncer que voltou mesmo quando o tratamento contra a doença, no fim do ano passado, parecia bem sucedido. Com 74 anos incompletos - idade que ela resistiu durante anos em revelar - , ela faleceu hoje, deixando uma grande lacuna na mídia brasileira.

Glória Maria, uma das primeiras pessoas negras a se destacar no jornalismo televisivo, foi conhecida por tornar o Globo Repórter mais arejado, leve e muito interessante de se ver. Eu já vi várias edições com ela e era um grande prazer. A fluência, a simpatia e a capacidade de trazer informações com suas viagens fazia deste programa de documentários uma coisa gostosa de se ver, trazendo até a tranquilidade necessária para ir para a cama e dormir alegremente.

O irônico disso tudo é que a primeira reportagem de Glória Maria, em 1971, foi uma pauta horrível. Era o desabamento do Viaduto Paulo de Frontin, no Rio Comprido, Centro-Norte do Rio de Janeiro, que gerou vários mortos e feridos. Glória, antes de se tornar repórter, era telefonista e iniciou na TV Globo do Rio de Janeiro como rádio-escuta de informes da polícia, para colher matérias para os noticiários da emissora.

Glória Maria foi pioneira em várias ocasiões. Em uma delas, foi a primeira a cobrir a primeira matéria ao vivo e a cores na TV, reportando um trânsito de veículos no Rio de Janeiro para o Jornal Nacional. A matéria teve um incidente, a lâmpada do equipamento de reportagem queimou e o cinegrafista teve que ligar o farol do Chevrolet Veraneio da equipe. Glória e o cinegrafista tiveram que ficar de joelhos para aproveitar a iluminação de alcance restrito do automovel.

Mais recentemente, Glória foi a primeira a fazer uma matéria para a televisão em alta tecnologia digital, a televisão HD. Foi para o Fantástico, quando ela fez uma matéria sobre a festa do pequi, que é uma fruta de cor amarela adorada pelos índios Kamaiurás, região do Alto Xingu.

Ela entrevistou várias personalidades, nacionais e estrangeiras. Seu histórico de matérias é incontável, e Glória, que era poliglota, viajou por mais de 100 países, principalmente quando gravava para o Globo Repórter, programa do qual foi, nos últimos tempos, co-apresentadora, até a doença não permitir mais que ela trabalhasse na TV.

Glória era conhecida por sua beleza jovial. Tinha voz de menina de 25, 30 anos, e nem precisava ter escondido a idade, pois ela tinha um espírito jovial, que permitiu aos colegas que conviveram com ela uma amizade vibrante e descontraída, e uma interação profissional, em vários casos, bastante agradável, não só pelo talento grandioso de Glória, mas pela sua personalidade motivadora e sensível.

Católica fervorosa, a ponto de ser chamada pelo cantor Roberto Carlos para entrevistá-lo num especial de TV, Glória foi vítima de fake news na Internet, tendo sido incluída, sem qualquer lógica nem motivo, na lista de personalidades ateias, montada por internautas desesperados pela falta de grandes ateus entre as celebridades brasileiras. Glória nunca deixou de manifestar sua religiosidade, em várias ocasiões de sua vida.

Eu vi várias matérias com ela no Jornal Nacional e Jornal Hoje. Eu vi vários programas do Globo Repórter e algumas aparições dela no Fantástico. E dá para perceber o quanto ela fará falta, num meio em que grandes jornalistas se foram nos últimos anos, como Paulo Henrique Amorim, Ricardo Boechat, Arnaldo Jabor, e gente não tão veterana assim, como Susana Naspolini, outra figura carismática vítima de câncer.

O carisma de Glória foi tanto que o falecimento dela foi lembrado até pelo portal de celebridades estrangeiras Who Dated Who, através de um slide com a mensagem "rest in peace Gloria Maria (1949-2023)". Glória Maria também era desejada por sua beleza, tendo sido casada duas vezes e tido vários namorados. Certa vez, ela declarou que estava "solteira médio", provavelmente com algum pretendente. Consta-se que, nas festas e eventos sociais, Glória Maria era paquerada por homens mais jovens.

Outro dado triste é que Glória Maria foi mais uma personalidade com grande presença de mídia e de espírito a falecer, depois que perdemos Gal Costa, Erasmo Carlos e Pelé. O que nos faz pensar nesses tempos medíocres em que vivemos, de gente sem humanidade, sem talento e sem inteligência que predomina nessa chamada indústria cultural, carente de gente como Glória Maria.

Glória Maria já havia encaminhado duas filhas, Laura e Maria, que a jornalista adotou na Bahia - onde ficou temporariamente para atender ao processo legal de adoção - , para outras tutelas, no caso da repórter e apresentadora não poder mais cuidar delas. Infelizmente, é agora o caso, com as duas meninas, adolescentes, sem o convívio da mãe.

Ficam aqui os pêsames pelo falecimento de Glória Maria e desejamos boas vibrações para os que ficam, durante esse momento difícil. Quanto a Laura e Maria, desejamos muito sucesso a elas neste caminho que as receberá adiante, e que o legado da mãe adotiva permaneça sempre vivo nas mentes delas. E Glória Maria permanecerá na história deixando grandes lições para as futuras gerações de jornalistas. Obrigado por tudo, Glória!!

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