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QUANDO UMA PAIXÃO ATINGE NÍVEIS BEM TÓXICOS


Ter muito cuidado com pretensas unanimidades e com certos hábitos aparentemente populares é necessário. Às vezes a pessoa, feliz da vida, adere a um divertimento do qual se julga inadiável e acaba cometendo um grave erro na sua vida.

Exemplo disso é uma estória fictícia mas bem instrutiva. Há dois amigos, um deles gosta de futebol e outro não. O que não curte futebol convida o outro para viajar a Ouro Preto, onde estarão no dia em que uma importante partida de futebol se realizará em São Paulo. O jogo será transmitido em rede de televisão com afiliada na cidade histórica mineira.

O amigo que não curte futebol fazia questão de que o outro se dedicasse totalmente a conhecer a cidade, visitar seus pontos históricos e curtir a paisagem. Tudo ia bem até que o convidado, ao se aproximar do horário do jogo, contrai um semblante estranho e passa a só pensar no futebol.

O amigo recomendou que o outro não pensasse em futebol nem usasse as redes sociais, se dedicando totalmente a conhecer Ouro Preto. Mas este, de repente, passou a procurar um bar onde uma televisão está ligada na emissora que vai transmitir o jogo.

Tudo parece favorável, os vendedores e fregueses do bar falando do jogo e o rapaz que foi convidado pelo amigo foi tomado pela tentação de ver o jogo, torando todo o foco da viagem. O amigo tenta ser gentil e diz para o outro esquecer o jogo e ver o resultado no dia seguinte.

No entanto, o rapaz convidado para a excursão parecia obsessivo feito um zumbi e só queria ver o jogo. Usava desculpas de que estava seguindo um lazer “saudável”, mas contraditoriamente alegava urgência diante de um evento “inadiável”. E foi ver o jogo, enquanto o amigo, aborrecido e triste, faz uma caminhada pelas ruas da cidade.

O rapaz que é torcedor de futebol não percebe o ato vergonhoso que cometeu. Ele ofendeu um amigo e a obsessão pelo futebol não se mostrou saudável, mas doentia. Tudo parece lindo, divertido, alegre, socialmente adorável, mas o amigo se sentiu traído e o compromisso de curtir a cidade de Ouro Preto foi quebrado por um lazer rotineiro e supérfluo.

O rapaz que não curte futebol ficou indignado com o amigo e, depois, lhe deu uma bronca. No âmbito das aparências e conveniências sociais, o rapaz que não curte futebol parece errado, mas errado é o outro que deixou de se dedicar a um lazer diferente para o repetitivo ritual do fanatismo esportivo.

E se o rapaz que gosta de futebol tiver, um dia, dificuldades na vida? Ele vai recorrer aos onze rapazes por quem manifesta sua paixão de torcedor? Grande ilusão. Para os craques de futebol, torcedor é só um detalhe, e se o torcedor do nosso episódio cair no chão, não será aquele goleador admirado que lhe irá socorrer.

Devemos tomar muito cuidado. Futebol é uma paixão tóxica e um desperdício nas horas de descanso. E a grosseria não partiu do rapaz que não torce por futebol, mas daquele que fugiu do foco de curtir uma cidade histórica e viver uma experiência diferente. O rapaz que foi ver o futebol é que se tornou escravo da mesmice e, o que é pior, servil a uma paixão tóxica que se tornou o futebol brasileiro.

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