O calor do momento traz impressões enganosas. É no presente que as paixões se tornam vivas e vibrantes. As paixões do presente tentam mentir sobre o passado e deter a posse do futuro para aqueles que são privilegiados no momento vigente. Com isso, não dá para julgar a História pelas impressões momentâneas, mas é necessário esperar para ver seu significado real aparecer.
Lula, o "senhor da democracia de um homem só", anunciou oficialmente que vai disputar a reeleição, em evento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em São Bernardo do Campo. Disse ele, que prometeu aposentar o "Lulinha Paz e Amor" na luta "da democracia contra o fascismo":
"Eu estou com 80 anos e vocês pensam que eu não quero ser candidato. Eu vou ser candidato, sim. Porque enquanto esse jovem com 80 primaveras –mas com energia de 30– estiver vivo, a extrema-direita não volta mais a governar esse país".
O governo Lula, em sei atual mandato, tentou ser o mais ambicioso. Seus defensores criaram uma narrativa gloriosa. O próprio Lula quis parecer glorioso. Tivemos festa no lugar de reconstrução. Colheita sem plantação. Construção sem canteiro de obras. Realizações que o povo não sentiu. E ainda teve o papelão do “Efeito Lula e seus recordes históricos” que o povo não percebeu no seu cotidiano.
Tudo ficou no mundo do faz-de-conta. Um governo de contos de fadas, com direito a vilões que poderiam ser Jair Bolsonaro, Roberto Campos Neto ou, dependendo da situação, Donald Trump. O presidente Lula, no seu atual mandato, soou muito midiático, muito marqueteiro, muito fabuloso. Só não governou como deveria governar, pois só agiu quando pressionado.
O terceiro mandato de Lula não criou uma política de recuperação real do emprego, apenas repetindo, feito papagaio, a narrativa do "crescimento de emprego" do governo Michel Temer, quando apenas o trabalho precarizado teve o tal "crescimento recorde". E os salários cresceram de forma mixuruca, culminando com o vergonhoso valor de R$ 1.621 deste ano. Isso fez os trabalhadores se irritarem com o petista, que hoje perdeu, talvez para sempre, o apoio de suas antigas bases populares.
Lula se pavoneou durante os dois primeiros anos do terceiro mandato. Parecia mais preocupado em reconstruir a Ucrânia do que o Brasil. A posse deu sequência a um desnecessário festival de música que atrasou a posse dos ministros. Lula viajou ao exterior, priorizando a política externa. São erros que podem parecer “sem importância” até pouco tempo atrás, mas já cobram o preço da queda de popularidade e da rejeição que agora aparecem nas supostas pesquisas de opinião.
Lula nunca rompeu com as estruturas sociais, em todos os seus mandatos. Mas, nos dois primeiros, dava passos para pequenas transformações no nosso país. O petista tinha, nesses mandatos, um fôlego de gestor que sumiu no atual mandato. No terceiro mandato, Lula parecia se aliar às classes dominantes e combinar com estas falsas tretas para lacrar nas redes sociais e na imprensa em geral.
No mandato que se encerra este ano, Lula fez uma performance decepcionante. O presidente não acompanhou de perto a reconstrução do Brasil, e no primeiro momento foi viajar para o exterior, dando ao povo pobre a impressão de abandono. Ficou aquele desgosto do presidente sair da prisão, ser eleito e depois fugir do país.
Daí que a crise de popularidade de Lula só tende a se agravar. As ruas falam mais alto do que as supostas pesquisas de opinião, e muita gente ficou desapontada com o jeito festivo do petista, que parecia mais preocupado em sua própria consagração.
Por isso vemos Lula pagando a conta de uma festa desnecessária, pois reconstrução de verdade mereceria um tratamento de frieza cirúrgica para resolver os problemas do Brasil, com o presidente dentro do país e os ministros representando ele nas cúpulas do exterior.
Mais preocupado com o culto à sua personalidade, Lula não convenceu com os simulacros de ações - relatorismos, pesquisismos, opiniões em discursos e entrevistas, promessas etc - e, vendo a popularidade cair, só resolveu governar no último ano de mandato. Agora, o petista tenta salvar suas chances de reeleição, com o bolsonarismo ameaçando voltar ao poder. Neste caso, Lula dependerá mais da burguesia do que das classes populares para conquistar uma vitória nas urnas.
A narrativa lulista ainda se esforça em glorificar o terceiro mandato de Lula e até a dizer que foi "o melhor dos três". Alguns exageram dizendo que Lula foi maior que Getúlio Vargas e que o petista é "o maior presidente da História do Brasil". Chegam a chamar de "históricos" discursos de véspera que, pouco depois, caem no esquecimento.
Mas a História não é tola para aceitar as paixões do presente e, passado essa euforia, que hoje faz os lulistas se acharem donos da posteridade, o juízo histórico vai mostrar o quanto o terceiro mandato de Lula foi o mais fraco. Muito ambicioso, mas muito medíocre.
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