EDUARDO MENGA E ALMIR GHIARONI, AO LADO DE SUAS ESPOSAS BIANCA RINALDI E GEÓRGIA WORTHMANN - ELES PECAM PELO COMPORTAMENTO "ADULTO DEMAIS".
Vendo uma aparição recente do casal Bianca Rinaldi e o empresário Eduardo Menga, me lembro da polêmica que teve pelo fato da ex-paquita ter um marido 20 anos mais velho. A polêmica girou em torno do etarismo e aqui me cabe refletir a respeito do caso.
Eu folheava as edições de Caras, nos anos 1990 e 2000, quando a revista estava mais próxima do colunismo social tradicional, mais focado em mostrar granfinos do que necessariamente famosos (com exceção dos medalhões, é claro).
Aí eu observava os casos de médicos, empresários, publicitários e outros profissionais liberais que, nascidos nos anos 1950, compensava o fato de serem casados com mulheres bem mais novas com um pedantismo cultural que tentava fazer parecer “mais velhos” do que eram. Esses homens abraçavam os anos 1940 como um adolescente se atrevendo a dirigir o automóvel do pai.
É um cacoete da sociedade patriarcal. Homens pegando mulheres mais novas e querendo se enturmar com homens mais velhos, como um moleque dando pitaco nas conversas do pai com os amigos. E tem aquela coisa de adotar um comportamento “adulto demais”, com excesso de elegância e de etiqueta.
Via, nas páginas de Caras, exemplos como dos médicos Almir Ghiaroni e Malcolm Montgomery e dos empresários Eduardo Menga e Roberto Justus. Na época, estavam se aproximando dos 50 anos de idade. Li várias entrevistas com eles e eles passavam um pedantismo que fazia os mais jovens acreditarem que eles estavam nos bares de Ipanema, em 1958, junto a Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues e Sérgio Porto, entre outros.
Difícil ver moleques daquela época bancarem os intelectuais na plenitude adulta. Seus heróis não podiam ser Frank Sinatra, Glenn Miller, Ernest Hemingway, Benny Carter ou Norman Mailer. Na época, seus heróis eram Carequinha, Arrelia, Rim Tim Tim, Lassie e mal foram apresentados ao embrião da Turma da Mônica, as tirinhas do cachorro Bidu e seu dono Franjinha, lançadas em 1959.
Essa geração de homens granfinos nascidos nos anos 1950 foi marcada por um comportamento “adulto demais”. O hábito dos sapatos de couro fazia os pés ficarem tortos e eles já eram sisudos ou formais demais desde a infância, quando experimentavam usar terno e gravata até em cerimônias na igreja.
Eu ficava constrangido em ver a erudição forçada desses coroas. Via Almir Ghiaroni interagindo vom Jô Soares e Millôr Fernandes e a jovialidade estava com estes dois, que eram mais velhos que o oftalmologista. Ghiaroni dizia gostar de jazz (na verdade, os standards românticos dos musicais da Era de Ouro de Hollywood), e Millôr gostava da Legião Urbana.
Nos anos 2000, Almir Ghiaroni, apesar de ser um médico, se encanava em vestir paletós pretos como se fosse um magnata do ramo da indústria ou algum ministro da velha guarda. Me lembro de, em 1974, aos três anos de idade, ver sempre um homem de terno e gravata e dizer que ele estava vestido de "ministro". Ghiaroni se casou com uma mulher 16 anos mais nova, mas parecia agir e se comportar como se estivesse se casado com Lily de Carvalho Marinho, que havia sido a senhora Roberto Marinho. Ghiaroni parecia viver ainda nos tempos de Jacintho de Thormes, o célebre colunista social dos anos 1950.
Nota-se que os homens “mais maduros” que pegam mulheres mais novas têm fobia de juventude. Rapazes jovens são bem vindos, desde que em posição subordinada, chamando o coroa pelo vocativo de “senhor” e tudo. Mas eu tenho cá minhas dúvidas quanto a essa “maturidade” que faz os homens mais velhos se comportarem “conforme a idade”.
Fala-se de forma negativa do mito da “eterna juventude”. Até aí, nada demais. Mas eu fico perguntando se a obsessão de Menga, Ghiaroni e companhia em parecer “clássicos” e “maduros” não seria uma forma, disfarçada pelos cabelos então grisalhos (hoje eles estão brancos), de obsessão pela “eterna juventude”, só que nos padrões dos anos 1940 e 1950? A falta de contexto nesye caso é gritante, além de uma apreciação tendenciosa do jazz e da música eridita só para impressionar seu meio social (algo parecido com a lacração digital da geração Z).
O problema talvez não seja tanto do etarismo. É porque homens como Ghiaroni, Menga e companhia se comportam como sendo “adultos demais”, carregando muito na pretensa sofisticação. Embora cultos, não são intelectuais, até porque dedicam seu tempo apenas a gerar renda com suas profissões. E, agora que estão na casa dos 70 anos, no contexto deles há mais necessidade para eles aprenderem do que ensinarem. Sem o ritmo frenético do trabalho, só agora eles estão começando a conhecer o mundo na sua abrangência e complexidade.
Eu, que conheço a cultura rock, sei de muita gente mais velha e mais jovial que esses empresários e médicos nascidos entre 1951 e 1955. O punk rock foi feito por gente nascida nesta época. Os primeiros zines, veículos de imprensa alternativa da época, também. Surfistas e esqueitistas, em boa parte, eram nascidos nessa década. E boa parte da cultura dos anos 1980 foi criada por gente nascida nos anos 1950.
O curioso é que, entre os nascidos nos anos 1950, quem se deu melhor foram aqueles que estavam sintonizados com a juventude contemporânea. Quem buscou “andar para trás”, como os Ghiaroni, Menga e companhia no Brasil, focalizados num padrão de comportamento adulto dos anos 1950, é que perderam.
Daí que as críticas pesadas ao fato de Bianca Rinaldi ser casada com um homem mais velho se deve porque Eduardo Menga age como alguém “adulto demais”. Nesse sentido, se houve a adultização do universo de Xuxa e das Paquitas, do qual Bianca fez parte, houve também a adultização da geração de Eduardo presa a velhos paradigmas de afirmação masculina.
Consideremos, portanto, que Eduardo Menga tenha sido vítima de seu próprio etarismo, querendo parecer mais velho que sua idade. Foi o preço dele e seus semelhantes brincarem de ter 70 anos aos 50 anos. Aos 70, é hora de descer do pedestal etário e aprender o mundo pós-moderno de hoje.
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