Um relato de uma locutora mostra os bastidores da realidade opressiva e da visão cruel de trabalho que o Grupo Camargo de Comunicação, dono da 89 FM, defende contra seus contratados. O caso envolve outra rádio conhecida do grupo, a Alpha FM, dedicada ao pop adulto.
A radialista Mayumi Sam passou por um momento difícil na rádio. Ela chegou a trabalhar de forma ininterrupta, em sete dias por semana (escala 7X0), numa jornada de 18 horas, na Alpha FM, e, sentido sinais de esgotamento, pediu um período de 30 dias de férias. Ela também tinha outra profissão, a de roteirista de um humorístico da Record.
Quando encerraram as férias, Mayumi foi informada que seu pai estava seriamente doente. Ela então pediu demissão para cuidar do familiar, e com o tempo o pai melhorou de saúde. Mesmo assim, o episódio mostra como é o drama trabalhar numa poderosa corporação da grande mídia que, como muitos da mídia hegemônica, impõem uma carga horária análoga a um trabalho escravo.
Muita gente passa pano na ascensão do magnata João Ernesto Camargo, filho de José Camargo, fundador da rádio 89 FM de São Paulo. A família Camargo apoiou a ditadura militar, mas nos anos 1980 pôde se tornar "invisível" à opinião pública quando transformou a antiga emissora pop Pool FM na autoproclamada "A Rádio Rock".
Depois, o grupo passou a ser conhecido pela participação acionária em outras rádios, a Alpha FM e a Nativa FM, esta de música brega-popularesca. Recentemente, formou-se um grupo chamado Esfera Brasil que passou a se denominar Grupo Camargo de Comunicação após adquirir a franquia brasileira da CNN e transformar a antiga Rádio Transamérica na rede all news TMC.
João Ernesto Camargo tornou-se o mais poderoso empresário da Faria Lima, sendo o mais poderoso líder da elite empresarial paulista, influente em todo o Brasil. A Faria Lima é capaz de impor, como "linguagem" nacional, a gíria "balada" (eufemismo para rodízio de ecstasy nas festas noturnas) e "dialetos" em portinglês como body e bike, além de "neologismos" como "doguinho" e "lovezinho".
O chefão do Grupo Camargo de Comunicação manifestou defender as fortunas dos super-ricos, numa entrevista há pouco tempo. Além disso, o relato da locutora da Alpha FM mostra que seus donos também não só são adeptos da escala 6x1 como, se for necessário, implantam a escala 7X0 em clara demonstração de defender a jornada opressiva de trabalho.
Nos últimos tempos, vemos as redes sociais blindarem a rádio 89 FM ao pedir o boicote a textos que contestam a validade da "rádio rock". A desculpa é que a 89 FM - cuja cobertura de rock só funciona, e olhe lá, no fim de noite, pois nos demais horários soa quase sempre como uma rádio pop que toca o que há de roqueiro no hit-parade convencional - patrocina os principais eventos de rock realizados na Grande São Paulo.
Como é que o público roqueiro médio resolveu passar pano numa rádio cujos donos têm uma ideologia oposta e hostil à causa roqueira? A História do Rock foi em grande parte voltada para a luta contra as injustiças sociais e contra a opressão, o que soa estranho ver a cultura rock submissa a uma rádio cujo fundador foi um ex-deputado da ARENA ligado a Paulo Maluf.
De que adianta uma rádio como a 89 FM tocar faixas como "Pátria Amada", dos Inocentes, "Proteção", da Plebe Rude, "Que País é Esse?" da Legião Urbana e "Núcleo Base, do Ira!, se a família proprietária apoiou a ditadura militar e, hoje, defende a manutenção da escala 6x1 e da fortuna dos super-ricos? Qual a moral de uma rádio dessas irradiar versos como "Pátria Amada / De quem você é afinal? / É do povo das ruas / Ou do Congresso Nacional?".
Assim como Mayumi Sam, há outros casos de trabalho sobrecarregado, o que vale também na cobertura noticiosa, diante da ilusão da falsa valorização do Jornalismo através das rádios all news, pois o que se vê não é necessariamente a notícia valorizada pela qualidade, mas pela quantidade, com a sobrecarga de trabalho e de informações, estas só elogiadas pelos portais de rádio por questões corporativistas, quando infelizmente um hobby é contaminado pela submissão a interesses empresariais.
Fica aqui nossa solidariedade a Mayumi Sam e que seu talento possa ser aproveitado em outras oportunidades que não imponham um trabalho exaustivo e opressor. Até porque os grandes talentos também se cansam quando o trabalho se torna incessante e com pouco tempo para descanso.
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