NATANZINHO LIMA, A NOVA SENSAÇÃO DO ARROCHA, RITMO COMERCIAL SURGIDO NA BAHIA.
Quando houve a campanha do "combate ao preconceito", há cerca de 25 anos, criou-se uma narrativa etnográfica e antropológica que eu, como jornalista, fui um dos poucos a desmontar, dentro de um questionamento jornalístico e intelectual muito raros no Brasil, embora existentes lá fora. Tudo isso nunca foi mais do que uma conversa para boi dormir, uma forma de criar perenidade a fenômenos comerciais da bregalização musical.
Esse discurso andava meio em baixa nos últimos anos, devido ao desgaste do "combate ao preconceito" trazido pela intelectualidade "bacana". Mas às vezes ele volta, só que agora sem poder esconder seu contexto comercial, por mais que haja ainda um esforço de "etnicizar" e "socializar" os fenômenos popularescos.
Uma matéria da revista Billboard ilustra essa tendência atual, de ainda vender a bregalização cultural como se fosse uma "cultura popular de verdade", sem no entanto poder se passar por algo "libertário", como nas antigas campanhas de Pedro Alexandre Sanches, o "filho" da Folha de São Paulo que foi passear pelas redações da mídia de esquerda anos atrás.
Afinal, a matéria é assinada por um empresário, Alessandro Laruse, definido como CEO da OK! Promo e OK! Music,o que significa que o próprio contexto já aponta o comercialismo na narrativa que analisaremos a seguir. A matéria tem como título "O Brasil voltou a ouvir o Nordeste".
O texto descreve o sucesso dos ritmos arrocha e piseiro, que se tornaram fenômenos nacionais, que Laruse define como "protagonistas da música brasileira". O CEO que assina o artigo fala que o sucesso se deu a partir do streaming nas mídias digitais. Disse o empresário:
"Durante muito tempo, a indústria funcionou a partir de alguns pólos específicos de influência. A sensação era de que determinados artistas precisavam passar por certas validações para alcançar relevância nacional. O streaming mudou essa lógica. Hoje, o público decide antes. E quando o público decide, a geografia perde força".
Laruse menciona o atual ídolo do arrocha - ritmo que surgiu na Bahia, há mais de 20 anos - , Natanzinho Lima, como exemplo do sucesso do ritmo. Assim como o piseiro, outro ritmo baiano, o empresário descreve o arrocha como "autêntico" e representante de "um momento parecido com outros grandes ciclos da música brasileira". Sobre Natanzinho, Laruse descreve, até com certo exagero na avaliação do arrocha como um todo:
"E todo movimento cultural precisa de símbolos. Hoje, Natanzinho Lima representa essa virada de chave. Não porque tenha criado o arrocha ou inaugurado um novo gênero musical. Mas porque conseguiu traduzir para o Brasil inteiro uma linguagem que já mobilizava milhões de pessoas. Seu sucesso mostra que não existe mais a necessidade de adaptar a identidade regional para conquistar espaço nacional. Pelo contrário: quanto mais autêntico o artista é, maior costuma ser sua conexão com o público. Talvez essa seja a maior lição desse momento".
Em seguida, Laruse tenta forjar uma visão "social" do sucesso do arrocha e do piseiro, que ele alega não serem uma "moda passageira":
"A música brasileira está cada vez menos interessada em padrões e cada vez mais interessada em verdade. O público quer se identificar. Quer consumir histórias reais. Quer reconhecer sua cultura, seu sotaque e suas referências nas canções que escuta todos os dias".
O empresário conclui expressando uma visão idealizada do Nordeste, escondendo que os dois ritmos, piseiro e arrocha, nasceram para serem mainstream:
"Os próximos anos provavelmente trarão novos artistas, novas sonoridades e novos fenômenos. Mas uma coisa parece clara: o mercado finalmente entendeu algo que o público já sabia há muito tempo. Algumas das histórias mais relevantes da música brasileira estão sendo escritas longe dos grandes centros. E o Nordeste é, mais uma vez, um dos principais autores desse capítulo".
A Billboard é uma revista de hit-parade. Ela é dedicada ao comercialismo musical. Não é uma revista a que se pode atribuir qualquer vanguardismo cultural, pois a Billboard é a "Bíblia do comercialismo". Seu compromisso é com a música que vende mais, não necessariamente com a música que cumpre uma função social, artística e cultural relevantes.
A postagem presente é apenas uma pequena tentativa de desconstruir o discurso de um empresário do entretenimento, e levamos em conta que o "nordeste" retratado por esses dois ritmos é caricato. Não se trata de uma "verdade" ou de "histórias reais", mas uma forma de vender um produto criando qualidades extraordinárias para aquilo que é simplesmente banal.
Portanto, o Nordeste é a última coisa que o piseiro e o arrocha pensam em representar. Eles apenas são produtos de um coronelismo cultural e musical que exerce supremacia na música brasileira, com a bregalização se multiplicando em monoculturas que sufocam a verdadeira cultura popular brasileira, hoje sequestrada pela alta sociedade e sob riscos de extinção.
Enquanto a MPB autêntica vive de artistas idosos que, aos poucos, vão falecendo, a música brega-popularesca cria novos ídolos e novos ritmos e estabelece essa narrativa pretensamente etnográfica, algo comparável a falar de um chiclete de bola sabor imitação de fruta como se fosse a própria fruta representada neste doce.
Portanto, por mais que haja uma narrativa fabulosa aqui e ali, seja de um CEO do entretenimento popularesco, seja de algum antropólogo ou jornalista cultural "mais provocativos", o que vemos nos fenômenos dessa natureza, sejam os velhos "sertanejo", "pagode romântico", axé-music e "funk", sejam os atuais piseiro e arrocha, são apenas sabores imitação "cultura popular". Como naquele tablete "sabor chocolate" que na verdade não contém chocolate, ou de salgadinhos "sabor cebola" que não têm cebola.
Falam que o povo é protagonista, mas isso não é verdade. O protagonismo da música brega-popularesca está nos empresários que investem nesses produtos e que querem vendê-los como "algo valioso". Em nome do retorno financeiro, se inventa qualquer narrativa, mesmo que seja fantasiada de monografias, documentários e reportagens.

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