1976. Era uma vez três religiosos. Um, Edir Macedo, era funcionário de uma loteria. O Segundo, Romildo Ribeiro Soares, cunhado de Edir. Outro, cujas iniciais são as consoantes da palavra “caixa”, era inspetor sanitário de gado bovino no Triângulo Mineiro e atuava como pregador religioso em Uberaba.
Os três tinham uma missão, a de enfraquecer a Igreja Católica, principalmente a corrente progressista Teologia da Libertação, que estava denunciando as atrocidades da ditadura militar, recorrendo aos órgãos internacionais de direitos humanos. Os falsos suicídios de Vladimir Herzog e de Manuel Fiel Filho e os falsos acidentes que tiraram as vidas de Zuzu Angel e Juscelino Kubitschek causaram profunda crise no aparelho repressivo ditatorial.
Sob a desculpa da diversidade religiosa, outras religiões ganharam o apoio da ditadura militar para enfraquecer a Teologia da Libertação e salvar o poder vigente. Entre elas, vieram a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus e o Espiritismo brasileiro da Federação Espírita Brasileira.
As duas primeiras seguem a linha evangélica neopentecostal, enquanto a terceira, apesar de evocar a Doutrina Espírita do francês Allan Kardec, é uma repaginação do Catolicismo Medieval que vigorou no Brasil durante o período colonial, a ponto de considerar o padre Manoel da Nóbrega como seu “pensador maior” e de se inspirar na Teologia do Sofrimento para difundir seus valores moralistas.
Enquanto católicos progressistas denunciavam prisões, torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres feitos por órgãos como o DOI-CODI e a violência contra camponeses e sindicalistas, pastores, “bispos” e “médiuns” criavam suas cortinas de fumaça, uns prometendo o “céu” com o pagamento de dízimos, outros prometendo as “bençãos eternas” para quem suportar em silêncio as piores desgraças.
Cobranças de dízimos e divulgação de supostas cartas "mediúnicas" faziam parte desses tristes espetáculos de exploração da fé não só dos pobres, mas também da classe média abastada, que se rendia ao culto à personalidade desses falsos cristos blindados pela grande mídia.
Por enquanto, as narrativas apenas vão contra os neopentecostais, enquanto os ditos “kardecistas” esperam lançar filmes temáticos para reativar o lobby que conta com o apoio da mídia venal e de ricos proprietários de terras do Triângulo Mineiro. Os neopentecostais estão associados ao golpe político e jurídico de 2016.
Duas notícias, uma delas com maior destaque, tomaram conta da imprensa brasileira ontem. Uma é a decisão da Justiça em penhorar um helicóptero do pastor Valdomiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus. O bem, que pode ser leiloado, ajudará a pagar uma dívida de aluguel de aproximadamente R$ 188 mil.
Já Edir Macedo tem seu banco Digimais alvo de investigação por irregularidades nas movimentações financeiras. Uma delas é uma operação operação que teria sido usada para transferir ativos problemáticos para o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) e melhorar artificialmente indicadores contábeis do banco.
Segundo a Polícia Federal, o Digimais teria se inspirado no Banco Master ao superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado. O Digimais pode ser liquidado, a exemplo do banco de Daniel Vorcaro, e isso causa apreensão até mesmo na Record TV, diante do risco de confiscar o patrimônio financeiro de Edir e provocar cortes de gastos e demissões.
Curioso é que, aparentemente, Edir gozava do silêncio da mídia que evitava criar uma guerra religiosa com denúncias envolvendo neopentecostais e "espíritas". Ultimamente apenas Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, era alvo de matérias negativas a ele. Mas agora Edir Macedo volta a viver seu inferno astral diante da suspeita de irregularidades no seu banco. O que renderam os dízimos da IURD para montar esse banco...

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