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NÃO SE FALA DE GRANDES FESTIVAIS DE MÚSICA COMO EVENTOS "ALTERNATIVOS"

A CANTORA LUÍSA SONZA, ÍCONE DO ULTRACOMERCIALISMO MUSICAL BRASILEIRO, NO PALCO DO VALE DO ANHANGABAÚ DURANTE A VIRADA CULTURAL DE SÃO PAULO, NO ÚLTIMO FIM DE SEMANA.

Sabemos que, para muita gente, é chover no molhado dizer que grandes eventos musicais não podem ser considerados "alternativos", mas quem é novo, como os chamados "mileniais", não entende isso e, vivendo num terraplanismo musical, acha que tudo é "vanguarda" e "alternativo", num contexto em que esse público mede os valores dos ídolos musicais e comportamentais com o umbigo.

Quem é novo e que quase nunca viu o mundo musical pensa que tudo é "vanguarda" ou "alternativo" e isso, por incrível que pareça, não é culpa dessa garotada. É culpa, primeiro, da péssima educação cultural dos pais, que nunca apresentaram cultura de verdade para os filhos e, segundo, por conta de uma péssima mídia cultural que, movida por lobbies empresariais diversos, vende gato por lebre tratando a mediocridade cultural como se fosse grande coisa.

Os mileniais só passam a serem culpados pelo terraplanismo cultural quando substituem a boa-fé pela má-fé e passam a defender com unhas e dentes valores distorcidos e passam a ofender e agredir quem discorda dos mesmos. É quando passam a ter julgamento de valor sobre aquilo que nem bem entendem e passam a pregar coisas como "se a realidade não é aquilo que eu acredito e gosto, então f****".

E aí vemos uma inversão de valores, que troca as bolas no que se refere à música comercial e à música não-comercial. Os conceitos são trocados, conforme o juízo de valor de fãs temperamentais que se acham donos da verdade absoluta.

Dessa forma, música "não-comercial", para esses terraplanistas culturais, é "aquilo que se ouve no dia a dia" e soa "palpável" para o público juvenil ou mesmo relativamente adulto do momento. Leia-se "palpável" o que se ouve no rádio (web radios, pois FM praticamente morreu, pois "rádio FM" agora é aplicativo de celular) e se vê na TV e nas mídias sociais, o que dá a ilusão de um "contato direto" e de uma "representatividade" cotidiana que soa natural para seu público.

Deste modo, há o critério de "proximidade" que é confundido com "naturalidade". A mediocridade musical endeusada por ser, em tese, mais "pé no chão", o que faz com que a música que, realmente, é anticomercial, seja vista erroneamente como "comercial", associada a um suposto academicismo artístico, como se fosse pecado fazer músicas mais elaboradas.

Daí que "comercial", para esses terraplanistas musicais, é aquele músico veterano que luta para garantir o copyright de suas canções, e isso se deve por uma compreensão simplória e distorcida da dramática situação de grandes artistas do passado, que buscam dinheiro não porque este é o objetivo de sua arte, mas porque seu nível de renda é tão decadente que eles precisam de alguma arrecadação para pagarem suas contas e, sendo idosos, a comprar alimentos e remédios para manter uma vida com saúde razoável.

Há casos de bandas de rock clássico cujos ex-integrantes disputam nome da respectiva banda, enfrentam processos de direitos autorais, entre outras pendências. Seus músicos são idosos, precisam financiar tratamento quando sofrem de algum mal como o câncer e até querem retomar suas antigas bandas, embora haja casos de músicos brigados, de outros músicos tratados não como membros mas como "contratados" (equiparados a músicos de apoio) etc.

Mas só porque isso ocorre não significa que essas bandas, de valioso acervo musical na maioria de seu legado, devam ser consideradas comerciais. Da mesma forma que não é porque o grupo de música popularesca faz a trilha sonora da rotina diária dos jovens ou mesmo dos relativamente adultos - gente que nasceu de 1960 à primeira metade dos anos 1980 - que deve ser considerada "não-comercial" ou "anti-comercial".

E isso se complica de tal forma que, no Brasil, os bregas do passado são gourmetizados pelo vitimismo (vide Michael Sullivan no seu constrangedor papel de coitadinho artístico, ele que já teve o poder em suas mãos), e, no exterior, o pop comercial governado pelo déspota sueco Max Martin transformou a excentricidade humana em mercadoria. Ou seja, ser "esquisitão" ficou banal, virou mainstream.

E é isso que faz com que todo o comercialismo se alterasse, sem deixar de ser comercial. Isso tem o preço de, nas últimas décadas, fazer com que festivais antes sofisticados, como o Festival de Montreux, na Suíça, e os outrora alternativos (ou quase isso) Lollapalooza, Coachella, nos EUA, e Reading, na Grã-Bretanha, tenham se rendido ao mais escancarado comercialismo musical.

E no Brasil veio a onda do "pop popularesco" de apelo identitarista, como se nota em Luísa Sonza, Glória Groove, Pabblo Vittar, Anitta e em tendências brega-popularescas que sobrevivem ao declínio bolsonarista - marcado pelos escândalos envolvendo breganejos como Zé Neto e Gusttavo Lima - , como o "pagode romântico" e o "funk", agora pegando carona na "onda Lula".

Isso faz com que a banalização da esquisitice humana - responsável por uma infinidade de ídolos "excêntricos" trazidos pelo pop comercial dos anos 1990 para cá - ganhe ainda um tempero peculiar no Brasil, combinando o vitimismo dos ídolos popularescos e o engajamento identitarista do chamado "pop brasileiro", que vê nas viradas culturais e nas franquias como o Lollapalooza Brasil um palanque para seu "ativismo de resultados".

E é por isso que não se pode mais definir tais eventos como "vanguardistas" ou "alternativos". O mainstream virou o paraíso de uma excentricidade transformada em mercadoria. Escandalizar e incomodar virou produto de consumo. E vemos o establishment sendo comandado por "excêntricos" como Max Martin e Elon Musk, gente relativamente jovem que reinventou o sistema de valores de forma a fazer o conservadorismo se passar por anticonservador. 

E aí levamos gato por lebre, com os mileniais atirando pedras nos mestres que só querem se manter vivos, enquanto verdadeiras falsidades musicais se apropriam de rótulos "vanguardistas" para enganar muita gente boa, e receber generosas passagens de pano da crítica musical atual, repleta de isentões de plantão. E assim a cultura comercial se muda, para continuar essencialmente a mesma.

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