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DEMOCRACIA DE CABRESTO?

LULA DISCURSANDO NO EXPOMINAS, EM BELO HORIZONTE, ONTEM. 

Os lulistas estão enlouquecidos.

Depois de uma semana em que o presidenciável Lula vira matéria e capa da revista estadunidense Time e lançou com festa o Movimento Vamos Juntos Pelo Brasil, o lulismo passou a agir de forma autoritária.

Por coincidência, três Fernandos vieram com chantagem contra quem não votar em Lula.

Fernando Horta, historiador e colunista do 247, disse que "Quem se diz de esquerda e não vota em Lula é quinta coluna", usando o termo que se refere a direitistas infiltrados nas esquerdas.

Fernando Brito, do Tijolaço, foi taxativo: "Quem não é Bolsonaro, é Lula".

Já Fernando Caruso, ator e humorista, chegou mesmo a forçar a barra: "Quem é 'Nem Lula nem Bolsonaro' é Bolsonaro".

Enquanto isso, gente sensata dentro das esquerdas vira "vidraça" por conta dos fanáticos apoiadores de Lula.

A coluna "Entendendo Bolsonaro" mais recente cita as ideias de Vladimir Safatle no livro Só Mais um Esforço, e, entre elas, está o desgaste do lulismo.

Com uma abordagem mais próxima da do nosso blogue, Safatle também se preocupa com as alianças de Lula com os responsáveis pelo golpe contra Dilma Rousseff.

Escrito pelo jornalista Raul Galhardi, o texto alerta sobre o risco do bolsonarismo voltar com mais força, no caso de Lula não conseguir atender as expectativas dos brasileiros.

Safatle é considerado "desprezível" pelas esquerdas médias, por ele desenvolver um pensamento mais crítico sobre vários assuntos. 

Sobre a música popularesca, a postura crítica de Safatle foi esculhambada pelos farofafeiros Pedro Alexandre Sanches e Eduardo Nunomura (o caso está em Esses Intelectuais Pertinentes...).

Não vi um comentário esculhambando o artigo, mas Safatle, como muita gente com senso crítico mais afiado, fala "para as paredes", num contexto em que o que mais agrega é a imbecilização cultural e sua correspondente passagem de pano por uma parcela de especialistas.

Mas quem virou "vidraça" mesmo foi a drag queen Rita Von Hunty, personagem do ator, professor e influenciador digital Guilherme Terreri Lima Pereira (não é meu parente).

Isso porque a personagem do canal Tempero Drag - que já mediou um debate com a filósofa Marilena Chauí - resolveu desaconselhar os brasileiros a votarem em Lula no primeiro turno.

Disse Rita Von Hunty:

"Esse clima nacionalista embalou o tom de reconciliação com os golpistas responsáveis pela desgraça que hoje acomete os trabalhadores e povos pobres do Brasil. Boa parte do discurso de Alckmin foi para tentar limpar ares de Temer ao seu redor

Eu fico profundamente triste como o cenário vai se construindo para a política institucional no Brasil, mais uma vez, mesmo havendo pouquíssima expectativa. Esperava ao menos dignidade de Lula em assumir o compromisso com uma agenda que revogasse (no mínimo) as reformas-neoliberais de 6 anos de Temer-Bolsonaro. Nem isso tivemos".

As reações contra Rita Von Hunty foram de um primarismo doloroso, mostrando que existe o chamado "gado lulista".

Sem argumentos, os internautas apoiadores de Lula usaram desculpas passivas, como o mantra da "derrubada de Bolsonaro", a "carteirada" do "combate à fome", a conformação com a aliança com Alckmin e a procrastinação de "debater o projeto lulista" após as eleições.

Um dos argumentos comparou Von Hunty a Merval Pereira, colunista de O Globo, que propôs um segundo turno presidencial com três candidatos.

Nenhum argumento lógico, nenhum argumento consistente. Tudo em torno da "derrubada de Bolsonaro", fosse a que preço, mesmo com Lula carregado pelos papas do neoliberalismo brasileiro.

Aliás, Lula, ontem, no evento Expominas em Belo Horizonte, segunda capital da agenda do Movimento Vamos Juntos Pelo Brasil, reforçou o discurso polarizante, acreditando num triunfalismo contra Bolsonaro, que mais uma vez impôs um aumento para os preços dos combustíveis:

"Bolsonaro, seus dias estão contados. Não adianta desconfiar de urna. O que você tem é medo de perder as eleições e ser preso".

Lula não abre o jogo quanto ao seu projeto político. Deixou um programa de governo pendente para ser discutido até por aliados da centro-direita, a partir do próprio vice, Geraldo Alckmin, designado para ser co-autor do plano.

A página do PT apenas se limitou a coletar "13 frases que mostram como Lula quer governar o Brasil", com ideias até corretas, mas desprovidas de uma fundamentação e um planejamento técnico, se limitando apenas a serem meros comentários opinativos.

Com tantas menções, nota-se o quanto Lula e os apoiadores apostam numa "democracia de cabresto", como se impusessem a candidatura do petista na marra.

Isso não pode.

Mesmo que Lula fosse realmente o melhor candidato - as alianças com a direita moderada, na prática, puseram o projeto progressista a perder - , ninguém tem o direito de impor uma candidatura na marra.

Lulistas acabam se equiparando, em modus operandi, aos bolsonaristas, e estão agindo com muita arrogância e nervosismo.

Lula está cometendo contradições sérias demais para que seu favoritismo fosse realmente justificável.

Este blogue já enumerou várias delas, principalmente a falta de autocrítica de Lula e uma certa arrogância por parte dele em não tirar satisfações para o eleitorado.

Geraldo Alckmin até agora também não mostrou sua autocrítica e ele mais parece um canastrão político fingindo se comover com o hino da Internacional Socialista, num evento do PSB.

Por outro lado, temos que respeitar a Terceira Via, que poderia até mesmo ter a função útil de pulverizar os votos que seriam para Bolsonaro.

Nem para favorecer o próprio Lula se respeita a Terceira Via.

Em vez disso, a campanha presidencial ainda não começou para valer e a Terceira Via, seja que candidato for, foi linchada sem dó nem piedade pelos lulistas. Quantas vezes a Terceira Via foi tida como "natimorta" pela artilharia lulista!

A campanha presidencial não tem dois candidatos somente. Tem vários.

Os lulistas não sabem, mas, embora no discurso defendam tanto a "democracia" que o candidato petista tanto promete recuperar, estão agindo de maneira antidemocrática.

E, desesperados, uma vez que as vantagens de Lula são artificiais - montadas por supostas pesquisas eleitorais - , os lulistas fazem ameaças e chantagens.

Agora eles partem para cima dos que não querem votar em Lula, dizendo que quem não votar no petista aceita Bolsonaro de qualquer forma.

Tem que engolir até "Lula com chuchu", a moda culinária baseada no apelido de Geraldo Alckmin, agora o "novo queridinho" dos petistas.

E Lula enche seus seguidores de expectativas, como se pudesse fazer tudo de tudo.

Com um Brasil devastado, Lula quer transformá-lo numa Suécia em quatro anos. Acha que vai fazer uma maratona de medidas transformadoras, acreditando que a direita moderada vai consentir até com as ousadias do petista.

Não vai. A História do Brasil mostrou o que vai acontecer com Lula. Basta ver o segundo mandato de Dilma Rousseff. Economia inicialmente conservadora, e, depois, as brechas progressistas e, em seguida, o golpe.

A própria Dilma advertiu Lula, em vão, sobre o perigo da aliança com Alckmin:

"Alckmin será o seu Michel Temer. Quando você mais precisar, ele ficará à disposição da oposição para tomar seu lugar".

Mas dizer isso não pode, né? Os lulistas estão enlouquecidos, em clima de festa, e querem Lula vencendo na marra as eleições. Até que o rodízio de "Lula com chuchu" provoque uma grave intoxicação alimentar nos ensandecidos apoiadores do petista.

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