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A DISCRIMINAÇÃO DO SENSO CRÍTICO


A classe média dominante, que se acha "dona da verdade", "dona do Brasil" e "dona do mundo" e comdnuz o chamado "senso comum", não quer exercer o senso crítico.

É uma elite que, indo de um patamar acima dos pobres já remediados - os ex-pobres prósperos - aos famosos enriquecidos, envolvendo desde a ex-favelada membro de um coletivo cultural ao apresentador de TV de sucesso, cria os padrões culturalistas vigentes em nosso país.

Ultimamente, vemos a glorificação da mediocridade cultural, seja música, entretenimento, literatura, tudo o mais.

Essa mediocridade, que chega aos níveis da idiotização, atinge níveis avassaladores, mas só é parcialmente identificada pelo "senso comum" oficial.

Daí que o viralatismo cultural só é reconhecido através de uns poucos exemplos: Operação Lava Jato, os factoides de Jair Bolsonaro e o Jornal Nacional. Nada muito além disso.

É por isso que vemos o horror da classe média dominante, da "boa sociedade", da "gente bem", quando se fala que viralatismo cultural pode ser tanto a música brega quanto religiões como o Espiritismo brasileiro, o Catolicismo medieval de botox.

O desespero da "boa sociedade", dessa "banda boa" da elite do atraso que pôs no cardápio político "Lula com chuchu", em fugir do senso crítico, se demonstra sob vários aspectos.

Há, claro, a sociopatia de reacionários enrustidos, não muito diferentes dos bolsonaristas e até fascistas não assumidos, que disparam ataques virtuais violentos contra quem questiona o "estabelecido", ainda que seja uma gíria do "consórcio" Jovem Pan-Rede Globo, "balada".

Mas há também o boicote dos cursos de pós-graduação a teses que tenham senso crítico, erroneamente creditado como "opinião". Ter posicionamento, numa tese acadêmica, é pecado e se Umberto Eco e Pierre Bourdieu fossem brasileiros e jovens hoje, seriam barrados desses meios.

No mercado literário, a maioria dos leitores foge de livros que tragam Conhecimento e Saber, com maiúsculas, porque uma nova ideia, uma nova revelação, podem causar incômodo tirando os leitores das zonas de conforto das compreensões rasteiras da nossa realidade.

Na música, cria-se a ilusão de que basta investir dinheiro público no ídolo popularesco para ele se transformar num "gênio da MPB" num estalar de dedos.

E olha que existe o ditado popular muito conhecido, que diz: "Dinheiro não traz felicidade". Sendo assim, também o dinheiro dificilmente trará "mais talento" para alguém que sempre será medíocre, mesmo diante de uma cosmética "sofisticada".

E o que dizer de um Big Brother Brasil que se acha mais Hollywood do que Hollywood?

Se Hollywood sempre mostrou seus "podres", sejam casos de alcoolismo, consumo de drogas, violência e, recentemente, assédios sexuais e comportamentos abusivos, não será um "riélite chou" que fabrica subcelebridades anualmente que será o paraíso da fama e da visibilidade plena.

Vivemos hoje um cenário de crise cultural profunda e gravíssima, que não foi inventado por Mário Frias nem deve ser jogado na conta do finado José Ramos Tinhorão.

Essa crise cultural envolve muita coisa "legal" no âmbito popularesco e em fenômenos aparentemente inocentes que hoje produzem sentimentos tóxicos, como a religião, o futebol e o consumo de cerveja.

Ou mesmo a maconha, já que vemos, numa atitude admirável, a cantora Patrícia Marx largar a droga visando melhorar sua saúde mental.

Mostrando uma foto de 2013 em que ela apareceu feia e fumando um cigarrinho, Patrícia fez um desabafo, ainda mencionando que ainda "gostava" de fumar o "baseado", mas que abandonou por questão de consciência.

"E eu parei de fumar porque senti que estava me fazendo mal. Eu ficava agressiva, de mal humor e mais antissocial do que já sou. Demorou para eu entender isso, porque gosto muito Mas, para o meu caminho espiritual, minha busca interior, também não estava somando. Então parei. Espero que as pessoas tenham esse entendimento, de que maconha não é pra todo mundo".

Ainda não é uma visão definitivamente sensata, mas é um bom passo para largar o vício da droga que pode ter suas virtudes medicinais, mas cujo uso recreativo pode prejudicar o humor e a concentração mental.

Ela ainda vive nesse contexto de um culturalismo confuso, quando ela, na infância, virou empregada da máquina de fazer sucessos de Michael Sullivan (o chefão da música brega que hoje banca o "gênio-coitadinho") e, depois, foi fazer uma MPB mais pop.

Vivemos essa época em que o culturalismo decadente brasileiro não pode ser criticado. Meu seminal livro Esses Intelectuais Pertinentes... é rejeitado como alguém que incomoda a criançada ao dizer que Papai Noel não existe e coelhos não são ovíparos.

A mediocridade cultural de hoje tem, para muitos brasileiros, a magia e a diversão de um gigantesco parque de diversões.

Os jornalistas culturais isentões, que tomaram o lugar da antiga crítica cultural na medida em que hoje passam pano em tudo, acham que esse cenário de mediocridade e até de imbecilização cultural fazem parte de um "diversificado shopping center multicultural".

Acham que "há espaço para todo mundo", mas a gente percebe quem leva a melhor no âmbito da visibilidade e na larga transmissão de valores socioculturais.

A boa cultura existe, mas está em pequenas bolhas. Existe cantora de jazz no Mato Grosso do Sul e banda de rock shoegazer em Sergipe. Temos ótimos militantes da boa música brasileira, como Lorena Calábria e meu amigo Marcos Niemeyer, divulgando artistas menos conhecidos.

Temos grupos teatrais esforçados, escritores emergentes talentosos, intelectuais críticos com alguma projeção e um cinema independente de certa forma corajoso e com muito talento.

Mas todos estes têm espaços restritos, falam para "iniciados", quase não aparecem fora de seus ambientes de um público fiel que só se expressa nesses circuitos fechados.

Fora dessas bolhas, o que se vê é a mediocrização, a imbecilização, o pedantismo, o oportunismo, que é o que mais aparecem e acabam influindo mais em nossa sociedade.

Daí que temos que ter senso crítico, sim, e não submeter o Brasil à flanelização cultural, passando pano na mediocridade, na imbecilização. O Brasil precisa recuperar o respeito e a credibilidade.

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