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POR QUE A CLASSE MÉDIA BRASILEIRA NÃO PODE SER DONA DE TUDO?

A CASA GRANDE SEMPRE TOMOU PARA SI AS RÉDEAS DO BRASIL.

A nossa classe média, na definição trazida pelo sociólogo Jessé Souza, sempre se achou acima de tudo e de todos, sendo dona da verdade, do senso comum, do bom senso, e até mesmo do mundo. Com uma linhagem atual que remete ao "milagre brasileiro", nossa classe média vive as disputas internas entre bolsonaristas e lulistas, enquanto o resto do povo, a grande maioria silenciosa, assiste a tudo passiva, impotente e desprezada.

A bregalização do Brasil, que tanto faz eventos supérfluos como a Farofa da GKay ter hoje a reputação que, um século atrás, tinha a Semana de Arte Moderna, e permite a inclusão de nomes da canção brega-popularesca na festa de posse de Lula (que, vamos avisar, sepultou todo o esquerdismo, favor aceitar essa realidade), tendenciosamente denominada Festa do Futuro, mostra o quanto a classe média, a "boa" elite do atraso, também monopoliza seu juízo de valor quanto ao que acham que deve ser o "popular".

Hoje a "boa" elite do atraso tenta jogar o direitismo apenas para uma estética do raivismo e da intolerância. Já não se preocupa mais em ver o Brasil se tornando progressista e justo, mas apenas um país qualquer nota em que apenas se eliminam as crostas fáceis de tirar do raivismo. Se bem que os bolsonaristas ainda estão com força e já existe uma articulação para um golpe contra a posse de Lula.

Agora teremos uma "democracia qualquer nota", na qual apenas se joga fora a simbologia da raiva e do mau humor. Não se quer mais um Brasil progressista, justo, desenvolvido. Se quer um Brasil como está, promovendo um "milagre brasileiro" sem AI-5, sem DOI-CODI e similares, um país conservador mas alternando entre o profano e o sagrado, entre o desbunde e a religiosidade, tudo num ambiente de concórdia e conformidade que chega-se ao ponto de rejeitar o senso crítico.

Ou seja, prefere-se a "paz sem voz" (ver "A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)", canção de O Rappa) do que um senso crítico que seja erroneamente confundido com uma suposta mania de reclamar das coisas. Deixa-se tudo como está, apenas se faz uns "arranjos" para fazer o Brasil brincar de ser país de Primeiro Mundo:

1) Deixar as cidades bem arrumadinhas, para favorecer o turismo, com restaurantes, boates, hotéis e outras áreas de lazer, incluindo centros históricos convertidos em "paisagens de consumo";

2) Dar medidas paliativas ao povo pobre, para diminuir a dor da miséria, embora não oferecendo a cura da pobreza, apenas trazendo algum alívio e medidas que deixem o povo pobre em relativo conforto, o suficiente para evitar a revolta que fazem muitos miseráveis se tornarem assaltantes;

3) Criar um clima de aparente prosperidade econômica, com algum avanço tecnológico, um forte estímulo ao consumo e preços estáveis, de forma a fazer os brasileiros abastados poderem ser turistas no próprio país, em vez de sofrerem a humilhação de serem forasteiros nos países do Primeiro Mundo ou terem o infortúnio de encarar o período de férias de virada de ano no inverno.

Não se trata, portanto, de dar sequência a um progresso mais aprofundado como se observou no período de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1961. Trata-se apenas de criar um Brasil socialmente inofensivo, com os retrocessos acumulados desde 1964 mantidos, porque a nossa classe média está acostumada com isso, e até vê vantagem em ver um povo idiotizado como meio de atenuar as tensões sociais.

E aí vemos que a classe média, a moderna Casa Grande do pós-1974, mantendo todo um sistema de valores que veio dos tempos do general Médici e que sobreviveram mesmo 37 anos depois da primeira redemocratização do Brasil.

Temos um culturalismo marcado pela bregalização cultural, pela supremacia do poder midiático e do mercado e pelo obscurantismo religioso. Até o fanatismo pelo futebol segue parâmetros de 1970, como se as vitórias recentes da Seleção Brasileira de Futebol não fossem emoções nem conquistas novas, mas tentativas de repetir, em vão, o espetáculo do Tri-Campeonato da Copa do México, que foi um grande fenômeno midiático e mercadológico no meio esportivo mundial.

De ídolos bregas a "bispos" e "médiuns", passando pelo coitadismo dos funqueiros, o Brasil mergulha nesse culturalismo vira-lata enrustido como se isso trouxesse o prazer a todos. De jeito nenhum. Há, somente, uma sensação de se estar habituado com isso, com os entulhos acumulados de 1964 para cá, mantidos sistematicamente quando o golpe que derrubou João Goulart completou 10 anos. 

Na prática, substituiu-se a promessa dos Anos Dourados de Kubitschek pelos "anos dourados" da sociedade vira-lata do Brasil dos generais Médici e Geisel. Uns "anos dourados" hoje defendidos pelos jornalistas culturais "isentões" como se estes acreditassem num hipotético paraíso "gente como a gente", onde é possível passar pano nos defeitos humanos e poder subir pela Escadaria do Céu mesmo com milhares de tropeços e quedas na Terra.

E aí vemos a classe média, a Casa Grande pós-moderna, mais uma vez fazer seu juízo de valor. Se, no passado, a Casa Grande sempre resistiu, por décadas, à decadência do sistema escravista como modelo econômico, hoje a "boa" sociedade se acha "a mais legal e esclarecida", achando que pode julgar o mundo e as classes populares conforme as convicções próprias da classe do conforto extravagante e do prestígio.

Mas o mundo não é como essa classe, essa burguesia brasileira tida como "gente como a gente", deseja que fosse. O povo não é propriedade dessa nova Casa Grande apegada ao grotesco cultural das redes sociais, e vemos o quanto foi constrangedor uma elite de intelectuais culturais querer julgar o povo pobre conforme os juízos de valor da pequena burguesia pensante, travestidos de "combate ao preconceito", falácia desmascarada pelo meu livro Esses Intelectuais Pertinentes....

Ainda se irá desmascarar todo esse culturalismo bairrista que prevalece no Brasil, com suas "farofas", sua música brega-popularesca, o portinglês falado junto ao português rasteiro, a adoração aos risíveis "bispos" e "médiuns" da fé obscurantista, sua supervalorização aos medianos de fora - como Michael Jackson que terminou a vida como subcelebridade nos EUA e só no Brasil ele é visto como o "maior gênio de todos os tempos" - e seu solipsismo capaz de inventar mentirosas "shipadas" como a que forçadamente tentou juntar Fausto Silva e Selena Gomez.

Esse culturalismo não é universal, não pertence ao povo, não está acima dos tempos, das tribos, das ideologias. São coisas privativas de uma classe limitada socialmente, cheia de dinheiro para consumir, embora não da dimensão exorbitante de banqueiros e grandes empresários, mas o bastante para colocar essa "boa" elite do atraso, agora em parte refugiada sob as barbas de Lula, enquanto outra se ressente da derrota eleitoral e quer golpe, como uma categoria social delimitada como um grupo específico de interesse.

Apenas há duas elites do atraso. A elite do atraso propriamente dita, associada ao bolsonarismo, e a outra, mais enrustida, ligada ao lulismo, que deseja um Brasil qualquer nota, medíocre e conservador, mas apenas sem raiva e dotado de alegria, conformidade e aceitação. Essas elites devem ser vistas como grupos seletos e não como o "povo" como pensam as narrativas transmitidas por essa mesma classe. Ela não é invisível nem representa todo o povo, mas é apenas uma parcela de privilegiados que não estão aí para o bem do verdadeiro povo brasileiro que escapa de suas mãos.

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