A narrativa de Lula, na política externa, aponta para o multilateralismo ou multipolaridade. Para confrontar com o imperialismo dos EUA, hoje marcado pela ação desgastada mas ainda resistente do presidente Donald Trump, Lula propõe o chamado Sul Global, um bloco político de países emergentes que faria contraponto aos países desenvolvidos.
O Sul Global não é necessariamente composto por países do Hemisfério Sul, mas por países pobres e outros que estão em processo de desenvolvimento, neste caso o grupo dos BRICS, sigla que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (do original, S de South Africa). O Sul Global seria a junção dos BRICS com o restante excluído do Primeiro Mundo.
Neste momento, vemos a candidatura de Flávio Bolsonaro, aposta da extrema-direita, decair em mais um escândalo. Depois do envolvimento com o esquema do Banco Master, de Daniel Vorcaro - o “irmãozão” (sic) do 01 dos filhos de Jair - , que também deu no fiasco do patético filme Dark Horse, vieram outros escândalos.
Um foram as brigas que Flávio teve com a madrasta e ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro,que mostraram a desunião entre os extremo-direitistas. Isso enfraqueceu a disputa presidencial da extrema-direita, levando em conta o reacionarismo escancarado de Romeu Zema e o baixo carisma do ruralista Ronaldo Caiado.
A mais recente encrenca de Flávio foi criar uma tese delirante sobre as urnas eletrônicas que teriam sido fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic. A ideia era associar o processo eleitoral brasileiro ao que elegeu o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, hoje deposto e preso.
O Tribunal Superior Eleitoral enviou um comunicado esclarecendo a alegação que Flávio fez sem provas. Segundo o TSE, a Smartmatic só foi contratada para prestação de serviços de conexão de dados e voz, e não para o desenvolvimento ou operação da urna eletrônica. A Smartmatic até participou, em 2020, de uma licitação para a fabricação de urnas eletrônicas, mas perdeu para a brasileira Positivo, sediada em Curitiba.
O PT e outros partidos de esquerda moveram ações no TSE para punir o candidato do PL fluminense por difundir informações falsas. A declaração de Flávio Bolsonaro foi repudiada até por vários setores de direita e até pela grande mídia, que viu que o filho 01 de Jair “foi longe demais”.
Somente depois do desgaste, Flávio gravou anteontem um vídeo pedindo desculpas à madrasta após esta ter conversado com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sobre o pedido para reaproximar a esposa do pai do senador para a campanha presidencial. “Michelle, renovo aqui o convite para caminharmos juntos”, disse Flávio.
Com tamanhos incidentes, Lula se empolga demais e, diferente da perspectiva de promover um “mundo multipolar”, prefere ser o “candidato único” da campanha presidencial deste ano. Multilateralismo só funciona lá fora, mas aqui, mesmo sob a desculpa de que “nunca foi tão fácil escolher como agora”, praticamente o lulismo sufoca as demais escolhas políticas, desde que Lula sabotou a campanha presidencial de 2022.
Sabe-se que Lula faltou a debates, cooptou ou depreciou concorrentes. O que ele fez com Ciro Gomes, independente do que este representa de vantajoso ou não na corrida presidencial, foi deplorável, pois em vez do petista enfrentar o político cearense no debate de ideias, Lula fugiu enquanto seus seguidores agrediram o outro. Usando da projeção psicológica, os lulistas agrediram Ciro Gomes mas alegavam terem sido “agredidos” por ele.
Lula não foi libertado da prisão para fazer o que quiser. Sua idade avançada não lhe permite investir numa ambição sem limites, como se somente ele pudesse ser o vencedor. A História não produz filhos mimados, e não é por ser Lula que ele tem poderes e privilégios pessoais que o façam um protegido e um predestinado.
A Terra não é um satélite do Sistema Lular. Seria necessário diversificar a concorrência na campanha presidencial. Ver o presidente Lula manipulando o jogo eleitoral para favorecer somente ele é um atentado à verdadeira democracia, que não pode ter dono.
O multilateralismo tem que valer também em nossas eleições. Daí precisarmos de uma ou mais opções, caso contrário as eleições se tornariam um jogo de urnas marcadas, independente da credibilidade que elas expressam na sociedade brasileira.

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