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AS PESSOAS NÃO ENTENDEM A CRISE DA NOSSA CULTURA


As pessoas não conseguem entender que a cultura brasileira está em crise. Confundem cultura com economia e, por isso, acham que a economia vai bem porque se consome "mais cultura" e os faturamentos dos ditos "bens culturais" continuam altos e estáveis.

Já percebi o quanto essa negligência é muito forte, e sob vários aspectos. As pessoas têm dinheiro para ir ao teatro, sentam em poltronas das livrarias para ler alguma coisa, veem um monte de livros, CDs, DVDs, ligam o rádio e há uma "porção de intérpretes" tocando - embora ignorem que as rádios de "sucessos" só tocam um limitado elenco de intérpretes - e acham que tudo está bem.

As pessoas vão para a praia felizes. Se contam piada, tomam a cerveja, vão para a água e ouvem um som qualquer nota do brega-popularesco em um quiosque e voltam para casa felizes, acham que a cultura brasileira está em alta.

Há muitas desculpas para dizer que não há crise na cultura. Do sol azul ao fato de que a filha de fulano foi cantar na festa de aniversário da vovó e todo mundo aplaudiu, ou que o músico de MPB vai salvar o planeta porque se apresentou num programa exibido somente de madrugada em um obscuro canal de TV por assinatura. Tudo é desculpa para a cultura estar em alta.

Algumas pessoas citam webradios inacessíveis a poucos - há um esforço em ampliar a sintonia, mas ainda há um esforço maior de recarregar os celulares e os computadores - , espaços culturais alternativos de acesso difícil (vá um morador de São Gonçalo querer ir a uma casa noturna da Gávea, por exemplo, e ter de voltar na madrugada), canais obscuros de TV paga em horários ingratos etc.

CRISE DE VALORES

Infelizmente, a verdade é que muitas pessoas no Brasil veem a realidade com o próprio umbigo. Acham que o problema não existe porque usam como pretextos os improvisos pessoais, muitas vezes difíceis, e pensam que, só porque a cultura está fragmentada, não há crise, todos consomem bens culturais felizes da vida e só existem sorrisos, plateias lotadas e dinheiro se movimentando.

Essa pode ser a razão de que as pessoas aparentemente não pensam em comprar meu livro MÚSICA BRASILEIRA E CULTURA POPULAR EM CRISE. Como as pessoas só conseguem ver a crise no enfoque econômico, as pessoas imaginam que essa crise não existe só porque a "cultura" - que confundem com "entretenimento" - está faturando adoidado e as pessoas consomem "bens culturais" como se estivessem consumindo um combo de comida rápida nas lanchonetes.

Só que o problema, quando se fala em crise cultural, não é crise de dinheiro. Mas é crise de valores, de princípios, de expressões. A música brasileira, o cinema, o teatro, a literatura e outros tipos de bem cultural vivem sob a influência de um comercialismo cada vez mais voraz e predatório, hoje está cada vez mais distante termos cultura de verdade. Tudo virou mera mercadoria.

É isso que consiste no problema. Uma cultura não está em alta porque rende dinheiro, ela está em alta se puder transmitir conhecimento e valores sociais sólidos e relevantes para a população. E, infelizmente, o que temos são meramente bens de consumo que nada trazem senão atrações e produtos que oscilam entre o pitoresco e o anestesiante, entre o sensacionalismo e o misticismo.

O Brasil, além disso, tem um quadro de crise cultural ainda pior, na medida em que as pessoas se recusam a admitir essa mesma crise, não aceitando debater nem analisar as coisas. A pior doença é aquela em que o doente se recusa a diagnosticar para buscar a cura, e é aí que os sintomas se tornarão mais graves.

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