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O BRASIL NOS CINQUENTA ANOS DO AI-5

ATENTADO EM UMA IGREJA CATÓLICA DE CAMPINAS, QUE CAUSOU CINCO MORTES.

No dia em que se lembra dos 50 anos do AI-5, num contexto em que nos preparamos para encarar o governo ultraconservador de Jair Bolsonaro, incidentes graves vêm à tona.

O quinto ato institucional da ditadura militar a tornava mais rígida, levando adiante o cenário autoritário iniciado em 1964, só que de maneira mais agressiva.

E aí temos o "período 1964" redivivo em Temer e o "AI-5" de Bolsonaro, botando o país à deriva.

Alguns incidentes, então, vêm para trazer reflexão.

Um é a acusação do "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, latifundiário e charlatão - se dizia curandeiro mas era incapaz de se auto-curar de um câncer - de ter feito assédio sexual contra várias mulheres.

As denúncias de assédio começaram no programa Conversa com Bial, da Rede Globo, uma pauta que surgiu por acaso.

A roteirista e jornalista Camila Appel foi para Abadiânia, Goiás, para convidar o "médium" para uma entrevista, mas encontrou mulheres revoltadas que o acusavam de assédio sexual.

Dez depoimentos foram gravados, mas apenas quatro mulheres foram convidadas pela produção do programa para denunciar o religioso.

Houve ainda uma carta anônima, dando o número inicial de 11 denúncias.

A coisa cresceu como bola de neve e o escândalo tornou-se um dos maiores escândalos do tal "Espiritismo" que existe no Brasil nos últimos anos.

João se diz inocente, mas as denúncias são contundentes - que inclui até mesmo sessões individuais com o "médium" com pênis de fora - , chegando hoje a mais de 200, e o Ministério Público já pensa em pedir prisão preventiva para o religioso.

A religião "espírita" já surgiu desviando dos ensinamentos originais de Allan Kardec, que, apesar de bajulado, foi trocado por uma combinação do Catolicismo jesuíta do Brasil-colônia com algumas concessões esotéricas.

A crise de João de Deus é apenas um dos inúmeros escândalos que envolvem essa religião cheia de contradições, que eu abandonei, com gosto, em 2012.

Tem "médium" de Salvador que construiu seu "centro" em Pituaçu de maneira irregular, além de pintar quadros falsos que atribui aos mortos, desviar dinheiro da caridade para comprar bens de luxo como um carrão e, em suas palestras, fazer piadas machistas e gordofóbicas.

Mas há o famosíssimo "médium" que muitos imaginam ser íntegro e generoso que também fez coisas horríveis, como criar literatura fake, como uma caricata antologia poética de supostos vários autores lançada em 1932 e participação em fraudes de materialização.

Esse "médium", hoje "símbolo máximo de amor e bondade humana", foi réu de um processo judicial em 1944 movido por herdeiros de Humberto de Campos.

O "médium" foi beneficiado pela seletividade da justiça, que não viu que as obras "psicográficas" que usavam covardemente o nome do escritor maranhense, eram explicitamente fake (o termo, originário do idioma inglês, não era usado no Brasil).

Esse "médium" foi um oportunista que cresceu tanto que um considerável número de pessoas acredita que ele seja um "espírito de luz" que, morto em 2002, foi direto para o "reino dos puros".

Reacionário, conforme mostra um famoso programa da TV Tupi de 1971, o "médium" no entanto teve um poder de sedução e um esquema de marketing pessoal que conseguiu seduzir e enganar setores das esquerdas e até dos ateus.

E esse "médium" abençoou João de Deus, caindo em contradição, pois o "sábio" sujeito foi incapaz de prever as traquinagens taradas do goiano.

E assim o dito "Espiritismo" vive um vexame maior do que os evangélicos pentecostais, que mal acabavam de sofrer um clima de "saia justa" com o Jair Bolsonaro que apoiaram, porque ele descartou o pastor e político Magno Malta da sua equipe ministerial.

Muita coisa ainda será revelada nos bastidores "espíritas", e o "iluminado médium", que morreu após a roubalheira do "penta" da CBF de 2002, será desmascarado com sua multidão de fakes e suas pregações reacionárias de que "todos temos que aguentar o sofrimento em silêncio".

Enquanto isso, o governo Jair Bolsonaro tem em Fabrício José Carlos de Queiroz, policial militar e amigo íntimo do "mito", sua grande pedra no sapato.

Fabrício, que foi motorista e assessor de Flávio Bolsonaro, está associado a favorecimentos ilícitos a familiares do presidente eleito. Criou um escândalo que já fez Jair ser diplomado com a imagem desgastada que carregará também na posse, no começo do próximo ano.

O ex-juiz Sérgio Moro, hoje futuro ministro de Jair Bolsonaro, tentou abafar o assunto, dizendo três coisas.

Uma, que o presidente eleito, segundo Moro, já "esclareceu a sua parte" no episódio, outra, é que a questão depende do depoimento de outros envolvidos, inclusive Fabrício. A terceira é que Moro se recusa a dar suas explicações a respeito do caso.

E como uma das bandeiras do governo Jair Bolsonaro é a liberação do porte de armas para cidadãos comuns, um incidente trágico, mais típico dos EUA, ocorreu há dois dias.

Um ex-servidor público de 49 anos, Euler Fernando Gandolpho, depois de assistir uma parte de uma missa em na Catedral Metropolitana de Campinas, ergueu-se e, sacando um revólver, deu vários tiros a diversas pessoas, matando cinco e ferindo outras tantas.

A polícia correu atrás de Euler, que teria sido baleado antes se cometer suicídio.

O episódio é raro, mas tivemos casos como uma chacina no Morumbi Shopping, em São Paulo, em 1999, após a exibição do filme Clube da Luta (Fight Club), e outra chacina numa escola no bairro do Realengo, no Rio de Janeiro, em 2013.

A onda armamentista que toma conta da sociedade reacionária brasileira está em processo ascendente, do contrário que nos EUA, onde incidentes sangrentos já fazem celebridades se mobilizarem pela restrição no comércio de armas.

Infelizmente, no Brasil, mais pessoas comuns estão frequentando aulas de tiros e mais pais de família estão dando para crianças armas de brinquedo.

Alex Solnik, jornalista do Brasil 247, lembrou bem de uma antiga campanha anti-armamentista brasileira, que dava um aviso a quem pensasse em ser atirador: "Mocinho hoje, bandido amanhã".

Era uma campanha contra a venda de brinquedos que fizessem alguma alusão à violência.

Hoje é o contrário.

Num contexto em que um comercial como o da Semp Toshiba de 1994-1995 faz apologia sutil ao feminicídio e quase ninguém percebe isso (houve quem chamasse a infeliz peça publicitária de "clássico"), mais se estimula que desencoraja a violência dos "homens de bem".

Isso não trará mais segurança para os brasileiros. A liberação do porte de armas para pessoas comuns só vai fazer com que, muitas vezes, o caçador, por acidente, acabe se tornando a caça.

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