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SOCIEDADE BRASILEIRA ESTÁ ATRASADA E REFÉM DE SUA MEDIOCRIDADE


Disse Oscar Wilde, "A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular, é indispensável ser medíocre".

Nunca Oscar Wilde falou tanto sobre elementos que se encaixam na atualidade brasileira.

No conto "O amigo dedicado" ("The devoted friend"), nota-se que o rico moleiro se aproveitava da pretensa amizade com um jovem jardineiro para lhe fazer dar todas as flores plantadas, e dava ao rapaz, em troca, um carrinho de mão quebrado e inútil.

Não bastasse isso, o "bom" moleiro ainda pediu ao rapaz fazer um favor a ele, durante um dia de chuva violenta e em horário de noite escura (lembremos, era o século XIX). O rapaz, na volta, morreu afogado, depois de tropeçar num chão alagado.

Isso lembra bastante a intelectualidade "bacana" pró-brega, dentro daquele "eterno verão" do "combate ao preconceito" de 2002-2014. 

Para as elites, vale a MPB ou mesmo os antigos sambas, catiras e baiões do povo pobre do passado. Para o povo pobre, os enlatados musicais do pior do comercialismo dos EUA e similares, que servem de matéria-prima para a "maravilhosa" música popularesca que a sociedade "isenta" glorifica.

E o favor que o moleiro pediu ao jardineiro? Lembra os "sacrifícios humanos" que enchem de regojizo os maravilhosos "espíritas" que não despertam, aparentemente, suspeita sequer aos céticos e investigadores de plantão, apesar do obscurantismo medieval da religião feita no Brasil.

Aliás, esses dois aspectos ilustram o quanto a mediocridade atinge níveis catastróficos no Brasil de hoje, capaz de levar a sério e creditar como "sábia" uma literatura fake de um deplorável "médium de peruca", cosplay do Eustáquio (Coragem o Cão Covarde) e papa da positividade tóxica no país.

Essa sociedade brasileira em que vivemos, em que uma classe média completamente retardada ou, na melhor das hipóteses, apenas medíocre, conduz o senso comum e a opinião pública no Brasil, é constrangedor que haja gente que acha que "está tudo maravilhoso".

"Muitas vozes e muitas narrativas"? Cá para nós, até um monte de gaiolas, umas com canários, outras com bem-te-vis, outras com papagaios, outras com rolinhas, trazem uma comunicação mais consistente.

Esta semana meu irmão teve problemas pessoais envolvendo essa sociedade. E aí veio a "recomendação" de que eu e ele teríamos que nos enturmar com qualquer grupo que parecesse "bom" e "relevante" para a nossa vida social.

O problema sempre cai nessa limitação: a gente "descer" em valores e princípios, em nome da Espiral do Silêncio, aderindo ao "espírito da manada". Devemos deixar de ser o que somos, abrir mão da individualidade e sermos apenas "mais uns na multidão".

A sociedade brasileira virou refém da mediocridade. Ela é regra até nas abordagens "isentas" dos cursos de pós-graduação, que geram teses de pós-graduação indigestas, desprovidas de senso crítico e de caráter meramente descritivo das problemáticas envolvidas, que recebem muita passagem de pano.

Senso crítico é discriminado, alvo de demonização numa sociedade que se diz "democrática", mas que não suporta ver alguém dizendo que "algo está errado", principalmente se for aquilo que está na moda ou é popular no chamado senso comum.

É difícil ficar fora da mediocridade reinante. É como se, numa escadaria de embarque em um cais, fôssemos empurrados para entrar num Titanic.

Temos que ser medíocres e desaprender o que aprendemos. E isso fez e faz muita gente boa cair no abismo das mudanças constrangedoras.

Vide, por exemplo, a gafe de Ivan Lins em glorificar dois cantores medíocres. Ver um grande artista de MPB se rebaixar a uma atitude vergonhosa dessas é cosntrangedor.

Tem muita gente passando pano na mediocridade.

Vide o caso recente de Lula, um grande líder sindical hoje reduzido a um nada, a um ursinho de pelúcia dos neoliberais. No momento, Lula está em alta, menos por representar uma esperança de mudança e mais por ter se adaptado ao nível de exigência médio da centro-direita.

O pior é que a sociedade em geral é acomodada em si, não se torna extrovertida, não quer aprender as coisas, fica na sua zona de conforto.

Na vida social, funciona o seguinte: quem sabe andar, fica parado na sua. Quem tem que correr é o paralítico.

Não há o estímulo ao altruísmo, à sensibilidade emocional que, quando muito, pasteurizada e deturpada na religiosidade gosmenta que intoxica as redes sociais.

Tenho que, de vez em quando, sair denunciando, no meu perfil "clandestino" no Instagram, as mensagens religiosas, sobretudo o hipócrita e deplorável Espiritismo brasileiro, e bloqueando os canais e possíveis derivados das contas responsáveis.

Tive desilusões na vida, mas a sociedade quer me obrigar a fingir que nada aconteceu e me inserir no contexto da positividade tóxica de uma "alegria" ou "esperança" vinda do nada, quer dizer, da dor.

A sociedade brasileira está muito, muito, muito atrasada. Dá a impressão de que não chegou ao século XX.

Culturalmente está um horror. Temos religiões "neopenteques" e "kardecistas" (porém anti-Kardec na essência), a música popularesca atinge níveis tão dominantes que os bregalhões mais antigos são tidos como "geniais" por uma complacente geração de músicos e jornalistas experientes.

Se literatura fake tida como "espiritualista" - a moda agora é um livro "mediúnico" cheio de grosseiros erros históricos chamado "Paulo e Estêvão" - é levada a sério a ponto de sua principal editora ter um estande espalhafatoso nas bienais dos livros, então o nosso Brasil anda muito emburrecido.

Paciência. Síndrome de Dunning-Kruger é "paixão nacional", quando o costume infeliz de colocar a ignorância acima da sabedoria é visto como "hábito sagrado" pelo imaginário religioso brasileiro. É aquele papo de que "o ignorante é o verdadeiro sábio, e aos ignorantes se destina o Reino de Deus".

Temos também o fanatismo pelo futebol, que, pelo menos no Rio de Janeiro, faz muitos torcedores, quando conhecem alguém, perguntar o time antes do nome da pessoa.

E isso é tão surreal que Niterói despreza dois times próprios de futebol, o Canto do Rio e o Tio Sam, para torcer pelos times da cidade vizinha. Algo como troianos torcendo pelos times de Esparta.

A pessoa passa perto de um restaurante ou loja de eletrodomésticos e, no piloto automático, se prende a uma televisão com algum gramado verde com vários homens correndo em torno de uma bola.

Pode ser até o jogo da série Z do Brasileirão, o pessoal segue o instinto.

E temos outros hábitos culturais infelizes: danças bobas do Tik Tok, mensagens piegas nas redes sociais, apego ao hit-parade, ao mainstream, ao que é manjado no âmbito dos sucessos culturais em geral (música, filmes, livros etc) e por aí vai.

E isso quando não vem tolices exclusivas do retardamento local, como uma suposta shipagem (pensamento desejoso que forja casal em duas pessoas não vinculadas entre si) entre o apresentador Fausto Silva e a atriz estadunidense Selena Gomez. Vá entender uma conexão idiota dessas.

A impressão que se tem é que o imaginário cultural brasileiro hoje segue uma linha difundida por veículos como SBT, Record, Rede Globo e Jovem Pan, além do suporte intelectual da Folha de São Paulo.

Esse é o grosso da tutela culturalista existente no Brasil, que influi nas pessoas que juram de pés juntos que "só veem Netflix e mal conseguem ficar algumas horas vendo o HBO".

Temos um quadro de mediocridade social profunda, afeita a uma cultura popularesca, uma religiosidade cega e obsessiva, e um apreço por baixarias pseudo-humorísticas que deveriam causar vergonha, se nosso país fosse menos tolo.

Até as universidades estão submersas na mediocridade, cultuando músicas meramente "identitárias", em muitos casos entre uma MPB "carneirinha" (Anavitória, Vítor Kley etc) e o hip hop "mais pop" porém muito fraco e banal.

Substituiu-se a grandeza de antes - como nos anos 1960 - pela grandiloquência.

Fica-se fazendo "carteirada por baixo", como os tais "quenuncas" ("Quem nunca errou na vida?"): "todo mundo erra", "defeitos todo mundo tem", e tantos clichês que mais parecem um sentimento oculto de orgulho em ser errado e ter falhas.

Defeitos existem, sim, mas para serem corrigidos e não para virarem motivo de orgulho dessa sociedade "quenunca" que prevalece no Brasil.

O mais cruel é que a sociedade cobra de pessoas como eu que "mudem" para "agradar a maioria das pessoas". Tem que se descer ao fundo do poço da mediocridade reinante.

E os outros falam que "eu é que tenho que combater o meu 'eu', que nunca deu resultado na vida, e mudar completamente e aceitar o que está aí, porque todo mundo curte e blablablá".

Falam isso estudando o peito, reprovando os "abusos existencialistas do 'eu'", se esquecendo que, neste caso, não sou eu o "eu" da bronca deles. Eu sou o "outro". O "eu" são eles, o "eu" é a sociedade que na sua zona de conforto cobra corrida de quem não pode andar.

Eu que tenho que me adaptar à mediocridade dos outros, em nome de supostas vantagens sociais de uma maioria que, sinceramente, não sabe o que quer na vida e que fica tentando explicar de forma desesperada aquilo que não entendem direito.

Quem pode não quer fazer por onde e quem não pode é que tem que dar murro em ponta de faca, mesmo que seja só para sangrar a mão. O peixinho pequeno que tente dar um salto olímpico sobre uma árvore, mesmo só podendo dar um pulinho que mal dá acima da superfície da água ou do rio.

Os extrovertidos que se calem na sua bolha. O introvertido é que se torne extrovertido. O triste é que precisa animar os alegres, como um bobo-da-corte moderno. 

O Brasil de hoje está na Idade Média.

A sociedade brasileira é que precisa mudar, ter autocrítica, saber o que está fazendo ou deixou de fazer.

É difícil uma coletividade que se acomoda na zona de conforto do "estabelecido", no paraíso tóxico que se vê nas redes sociais hoje em dia, ter o ônus da mudança e da autocrítica.

Preferem a "carteirada por baixo". A mania dos "quenuncas". Passar pano no erro. O "eu" (ou o "nós") da sociedade atrasada pedindo aos outros combater o "seu eu".

Até quando o Brasil vai chegar ao século XXI? Porque, agora, nosso país ainda não chegou ao século XX, exterminando as tentativas de acertar o relógio que, de alguma forma, haviam nos anos 1960 e, com intensidade menor, nos anos 1980. Está tudo atrasado no nosso país.

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