
A cultura rock Brasil, descontando os esforços das rádios rock autênticas dos anos 1970 e 1980 e de alguns bons samaritanos nas rádios comunitárias e nas webradios, dificilmente estava imune ao viralatismo ou à superficialidade. Às vezes, mesmo no “esquemão”, algumas atitudes curiosas ocorrem que mostram grupos aqui pouco conhecidos furando a bolha cultural viciada apenas nos sucessos de sempre.
Em 1968, a edição 279 da revista Fatos e Fotos fazia uma chamada de capa com a pergunta “Você entende os jovens?”, seguindo a pegada da Contracultura que estava no auge naquela época. Cinco rapazes aparecem na capa e as pessoas foram dormir tranquilas achando que eram meros estudantes dos EUA.
Só que se tratava do subestimado grupo The Byrds, uma das maiores bandas de rock dos EUA e considerada seminal (ou seja, que se torna importante referência para outros músicos na posteridade). Dá para reconhecer até o saudoso mestre David Crosby, no lado centro-esquerdo da foto, que é um pouco datada, pois mostra a formação de 1966, já que os Byrds já estavam em outra formação em 1968, com destaque para o promissor músico de country rock Gram Parsons.
Aliás, em 1968 Crosby planejava uma nova banda, impressionado com os sons do grupo britânico The Hollies e do grupo canadense Buffalo Springfield. Ele foi convidar os músicos Graham Nash, dos Hollies (que integrou a formação que gravou o sucesso “Bus Stop”), e Stephen Stills e Neil Young, do Buffalo Springfield, para o novo projeto, que hoje conhecemos como Crosby Stills & Nash (eventualmente Crosby Stills Nash & Young), que se tornou um dos gigantes do rock nos anos 1970.
Voltando aos Byrds, o grupo foi razoavelmente conhecido no Brasil dos anos 1960. Era tratado quase como um one-hit wonder, através da versão de “Mr. Tambourine Man” de Bob Dylan, lançada em 1965. Mas pelo menos a Jovem Guarda assimilou, em duas canções, as influências do icônico grupo californiano.
Uma foi a versão dos Incríveis para o sucesso italiano de Gianni Morandi, que em português virou “Era um Garoto que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones”, de 1967, cuja introdução foi inspirada em “Mr. Tambourine Man” e os arranjos eram calcados no som dos Byrds. Outra canção foi o sucesso de Bobby de Carlo, “Tijolinho”, cuja gravação, também de 1967, também teve arranjos inspirados nas faixas mais agitadas dos Byrds.
No Tropicalismo, a influência dos Byrds reflete com maior nitidez numa canção dos Mutantes, “2001”, uma adaptação literal ao contexto brasileiro da canção “Mr. Spaceman’, uma canção sobre uma temática espacial com roupagem de country rock. Os Mutantes se inspiraram no filme de ficção científica 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, para desenvolver uma canção caipira, com a saudosa Rita Lee compondo com o tropicalista baiano Tom Zé. O senso de humor do grupo fez com que a roupagem de “2001” satirizasse o humor radiofônico das duplas caipiras dos anos 1950.
Depois os Byrds caíram no esquecimento e, na falta de rádios autenticamente de rock, a presença do grupo no imaginário roqueiro brasileiro nunca foi além de raríssimas execuções de “Mr. Tambourine Man”. Nem “Ballad of Easy Rider” e a versão de “It’s All Over Now, Baby Blue” (que ganhou uma versão em português cantada por Gal Costa) são evocadas, apesar de estar na mesma trilha sonora de Sem Destino (Easy Rider), de 1969, que tem “Born to Be Wild” do Steppenwolf, martelada pelos “roqueiros” da Faria Lima que ouvem 89 FM e congêneres.
Infelizmente a cultura rock sucumbiu a uma zona de conforto da mesmice e da mediocridade. Ver pessoas superestimando o Guns N'Roses e falando de bandas medíocres dos anos 1990 e 2000 é de lamentar. Sinceramente, a Faria Lima não tem moral para investir na cultura rock no Brasil.
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