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CHACINA EM CAMPINAS INAUGUROU ONDA DAS CONVULSÕES SOCIAIS

AS VÍTIMAS E O CRIMINOSO.

Há dez anos, "coxinhas" me esculhambaram quando disse que a gíria "balada" - mais tarde revelada como um jargão, privativo das boates paulistas, propagado pelo consórcio Jovem Pan / Rede Globo - não era coisa de pessoas inteligentes.

Transformaram minha página de recados no Orkut em um arremedo de bate-papo de reaças irônicos.

Ficavam irritados porque a gíria "balada", patenteada por Luciano Huck e Tutinha, era o que lhes tinha de "moderno", dissimulando suas mentes retrógradas de um Comando de Caça aos Comunistas repaginado.

Tinham que combinar ataques em série, com humilhações gratuitas e humor destrutivo.

Algo bem parecido que Maju Coutinho, Taís Araújo e outros tiveram no Facebook.

Mensagens combinadas em série para dizer ironias, ofensas e ameaças.

Internautas que mostraram logo sua burrice e estupidez.

Cinco anos atrás, era a vez de busólogos fãs de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho me fazerem ofensas semelhantes, já no Facebook, Ônibus Brasil e numa petição contra pintura padronizada nos ônibus.

Isso demonstrava o reacionarismo social que ainda era limitado às redes sociais.

Nem o direitismo era assumido, no caso da "galera tudo de bom" que se entrincheirava na comunidade "Eu Odeio Acordar Cedo" no Orkut.

Tinha pitboy que se autodefinia "esquerda-liberal", mesmo com seu reacionarismo doentio que o colocaria no conselho diretor do Instituto Millenium.

Eles tinham que se comportar assim. A mídia não havia desconstruído Lula e os "revoltados on line" tinham que cooptar petistas, psolistas e independentes para depois convertê-los no "coxismo".

Fingiam odiar o imperialismo e adorar Che Guevara. Até que, dez anos depois, passaram a ser reaças doentios querendo tirar o "comunismo" da face da Terra, felizes em ver mortos Fidel Castro e Dom Paulo Evaristo Arns, para eles jogados nas profundezas do inferno.

Mas se a coisa estava violenta nas redes sociais e não se transformava em atos de rua sistematicamente reacionários, a coisa mudou nos últimos tempos.

Já houve um ensaio, no Natal passado, que foi o espancamento de um ambulante que queria defender um travesti da agressão de dois rapazes, numa estação de metrô em São Paulo.

Os dois rapazes lincharam o vendedor até a morte, foram presos em circunstâncias diferentes e depois se diziam "arrependidos" pelo que fizeram.

Era um ensaio, mas era a ampliação de um surto de ódio que já fazia com que pessoas ilustres da sociedade estivessem à vontade para expor seus preconceitos sociais.

Cláudio Botelho, Lobão, Roger Rocha Moreira, Nizan Guanaes, Flávio Rocha (dono da Riachuelo), Guilherme Fiúza, Otávio Mesquita, mostraram seus surtos reaças diversos.

E isso orquestrado pela Rede Globo (sobretudo Jornal Nacional e Jornal da Globo), Veja, Folha de São Paulo, Estadão e, mais recentemente, a revista Isto É ("Quanto É" para os íntimos).

Ou, na TV, por programas humorísticos voltados à humilhação gratuita de segmentos sociais, ou programas policialescos que promovem justiçaria barata.

Mas a inauguração oficial desse "tiroteio" moral (mas às vezes físico e fatal) chamado "convulsão social" se deu em Campinas.

Na festa de Reveillon em Campinas, o técnico de laboratório, Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, invadiu uma reunião de família para atirar contra 15 pessoas.

As principais vítimas foram a ex-mulher, Isamara Filier, de 41 anos, e o filho dos dois, João Victor, de oito anos.

Sidnei já foi denunciado por Isamara por cometer abusos contra o filho. Informações recentes disseram que Joãozinho já pensava em um dia matar o próprio pai.

Sidnei matou 12 pessoas, feriu 3 e depois se suicidou.

Ele havia deixado uma carta que demonstrava seu profundo ódio contra Isamara.

Citando o contexto sócio-político do país, ele não cansava de dizer o termo "vadia". Escrevia numa fúria tipicamente machista, embora não se considerasse como tal.

Mesmo assim, chamou a Lei Maria da Penha, que protege as mulheres vítimas da violência, de "Lei Vadia da Penha".

Sidnei parecia um "coxinha" de ideias desconexas. E escrevia uma carta para o filho que matou depois, dizendo que "o amava".

Foi um ato de feminicídio, e Sidnei, em sua carta, não sentia o menor constrangimento em ser preso, porque "não precisaria acordar cedo para trabalhar" e "não perderia cinco meses de salário pagando impostos".

Na cara-de-pau, ele havia escrito que receberia "representantes de direitos humanos" puxando o saco dele.

Pior: ele ainda recebeu apoio nas mídias sociais. Há quem se ache no direito de ser machista, racista, homofóbico, elitista, vingativo.

Trata-se de um lado das convulsões sociais, porque elas são o bangue-bangue existencial do Brasil em crise.

O outro lado é justamente os efeitos danosos que a sociedade sofre pelo próprio reacionarismo.

Como no cyberbullying, onde encrenqueiros depois se desentendem com seus próprios parceiros ou, quando vão a outras cidades para ameaçar desafetos, são "paquerados" por criminosos que o veem como um "invasor" do terreno deles.

Em muitos casos, o feitiço vai contra o feiticeiro.

Encrenqueiros vão longe demais e acabam sendo vítimas de sua própria valentia.

Sidnei se matou talvez por ver que as consequências seriam pesadas demais para ele aguentar.

Mas ele já deixou prejuízo, tirando a vida de 12 pessoas inocentes, que viviam sua alegria de virada de ano, e causando um clima de tensão em todo o país.

De qualquer modo, a grande mídia, em especial a televisiva, não só a Globo, mas mesmo a Record e o SBT, e também a Band, tem muito culpa na formação das convulsões sociais.

Degradam a cultura popular, glamourizam a violência, incitam preconceitos sociais, estimulam o fanatismo, o radicalismo e o reacionarismo.

Isso vem desde os anos 1990 e parecia que eu pressentia tudo isso.

O Brasil entrou numa época de insegurança ainda mais crônica.

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