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É O TCHAN: MAIS UM ESCÂNDALO NO CIRCUITO DA AXÉ-MUSIC


Pouco após a divulgação de um documentário "etnicizando" o comercialismo da axé-music, um escândalo envolve um dos grupos do "movimento", É O Tchan.

Uma de suas dançarinas, Joyce Mattos denunciou a exploração sofrida quando integrava o grupo, e que fez desligar-se do mesmo, após a denúncia.

Joyce reclama que as dançarinas são "tratadas que nem cachorros".

Elas eram maltratadas pelos outros integrantes do grupo baiano, sobretudo Compadre Washington.

Joyce e a companheira, Elizângela Pereira, a Zanza, gravaram um vídeo no qual foram expulsas do palco durante uma apresentação do grupo.

As reclamações também incluíam trabalho sem carteira assinada e salário defasado de R$ 250 por apresentação, sendo um total de quatro por semana, número que aumenta durante datas festivas como o Carnaval.

Apenas Joyce saiu. Até segunda ordem, Zanza permanece no grupo, que lançou uma nota lacônica anunciando o desligamento da outra:

"Em respeito a imprensa e aos fãs da banda É o Tchan, oficializamos a informação de que a dançarina Joyce Mattos não é mais uma integrante do grupo. O Tchan segue com sua formatação normal, tendo à frente Compadre Washington e Beto Jamaica", diz a nota.

Joyce contratou um advogado para representá-la no processo contra o grupo. Ela disse que tem mais coisas a denunciar contra o É O Tchan.

A precarização do trabalho não é exclusividade do É O Tchan. Ivete Sangalo, Asa de Águia e o Chiclete Com Banana então com Bell Marques também foram acusados de desrespeitar direitos trabalhistas.

Ivete e Asa foram acusados de "pejotização", quando forçaram músicos de apoio adotarem registro de pessoa jurídica para burlar regras trabalhistas e livrar os patrões de certas obrigações do setor.

O Chicletão de Bell tratou um guitarrista enfermo, Cacique Jonny, como se fosse um mero empregado.

Jonny era integrante do grupo, aparecia nas fotos. Nem como músico de apoio ele foi tratado.

A prepotência da axé-music é bastante conhecida.

E contagiava o "pagodão" e o arrocha, os dois derivados da axé-music oferecidos ao povo mais pobre.

Sylvano Sales e Pablo, cantores de arrocha, adquiriram carros de luxo, importados.

O de Sylvano chegou a ser apreendido devido ao não-pagamento de IPVA e por estar sem a placa do código do Detran na dianteira.

O New Hit, grupo de "pagodão", foi acusado de assediar e tentar estuprar duas fãs.

Isso num contexto em que o "pagodão" não esconde sua vocação machista.

Suas letras falavam em "tapa na cara, mamãe" ("mamãe" é gíria para moça), "toma, toma", "é na madeirada".

O É O Tchan já fez apologia ao estupro no seu primeiro sucesso, "Segura o Tchan".

E teve a cara-de-pau de, recentemente, dizer que "valorizava o feminismo" colocando não apenas duas, mais seis dançarinas, durante uma fase.

O grupo chegou a ser sucesso nacional durante vários anos.

Foi blindado pela Rede Globo, Folha de São Paulo e pelo Grupo Abril.

As dançarinas do É O Tchan (Carla Perez, Scheila Carvalho e Sheila Mello) foram a ponte entre as garotas da Banheira do Gugu e as mulheres-frutas do "funk".

Recentemente, o Estadão, que é ortodoxo de tão conservador, afirmou que a época da Banheira do Gugu era "menos careta".

Bregalização sempre é "menos careta" para a mídia venal. Transformando o povo pobre em caricatura, os barões da mídia acham legal.

A intelectualidade "bacana" também. O problema é que ela quer se entrincheirar na mídia esquerdista.

Hoje o É O Tchan só faz sucesso local, em Salvador.

E isso num cenário em que a antiga monocultura do Carnaval baiano se desgasta seriamente.

Alguns grupos de axé-music já estão migrando para o Rio de Janeiro, que anda sofrendo um declínio cultural vertiginoso.

Vão invadir o "carnaval de rua", que até anos atrás foi reciclado com algum ranço quase vanguardista, mas hoje virou establishment.

Salvador começa a sair do provincianismo que atingiu a cidade entre os anos 1970 e 2000.

O Rio de Janeiro sucumbiu a esse provincianismo nos anos 1990, mas ele se acentuou de 2009 para cá.

Talvez o É O Tchan tente mais uma vez fazer sucesso no país a partir do Rio de Janeiro.

Nada que um Fausto Silva não possa resolver, não é mesmo?

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