Um dos fatores que derrubaram o jornalismo foi a privatização da opinião pública. O bonapartismo radiofônico de FM através do opinionismo acabou se tornando o ovo da serpente ao abrir caminho para opinadores irresponsáveis que disseminar fake news. A hierarquização da opinião pública criou diretrizes que favoreceram o pensamento reacionário que influiu no golpe de 2016.
O carnaval dos maus formadores de opinião incluiu muita gente que jogou pólvora para a crise de 2015-2016. Tivemos a festiva intelectualidade “bacana” que, sob a desculpa do “combate ao preconceito”, fez expandir a níveis estratosféricos, invadindo a imprensa de esquerda para atrapalhar os debates sobre cultura popular, evitando o desenvolvimento de um novo CPC da UNE.
Tivemos também uma diversidade de reaças que pediram a queda de Dilma Rousseff e a mídia hidrófoba que conduziu para a defesa do golpe de 2016. E aí o opinionismo da nossa imprensa hierarquizou a opinião pública depois que o agenda setting das notícias quis ser também um hit-parade de FM.
Vieram então influenciadores digitais e comediantes de estandape que influíram no movimento golpista, lembrando que os comediantes transformaram Jair Bolsonaro num fenômeno lacrador, o que foi crucial a eleição do maligno presidente.
Em seguida, o “efeito CQC”, em alusão ao humorístico que parodiava um noticiário, veio uma onda de humoristas “jornalistas”, mas sem o talento dos verdadeiros jornalistas de humor que se consagraram com o Pasquim. O Pânico da Jovem Pan virou arremedo de jornalístico, para complicar as coisas.
E muito comediante passou a invadir os postos de trabalho de Comunicação, depois que influenciadores e comediantes passaram a serem vistos como “novos formadores de opinião”. Jornalistas de talento genuíno foram demitidos e substituídos por repórteres com a vivência de um youtuber de terceira categoria.
As demissões também ocorreram para abrir caminho para um jornalismo asséptico, sem senso crítico, voltado apenas a descrever fatos ou mesmo factoides ou mitos. Daí que veio o contexto atual de creditar escritórios e gabinetes como “oficinas de verdades”, a ditar o que o bom senso precisa acreditar ser a visão definitiva das coisas.
Salas privativas querem julgar o mundo e o universo como se eles fossem vassalos desses ambientes fechados. Notícias que, muitas vezes, não passam de propagandas, levantando a velha questão da Publicidade como uma fórmula oculta do jornalismo faccioso.
O jornalismo asséptico virou o tom da imprensa pós-Bolsonaro. Um jornalismo “responsável” e “positivo”, claramente comercial e pouco inclinado a fazer as pessoas pensarem e refletirem. Apenas um narrador de notícias, que nos EUA tem a analogia de um contador de estórias, vide o termo story muitas vezes atribuído aos textos jornalísticos.
E aí a hierarquização da opinião pública se renova num contexto em que, de forma bastante preconceituosa, se atribui o senso crítico ao bolsonarismo e às fake news. Agora a “verdade” passa a ser um atributo privativo dos escritórios jornalísticos, que determinam um padrão dominante de pensar a realidade do qual se desaconselha fugir, sob pena de ser cancelado nas redes sociais.
Essa tendência fez com que a imprensa corporativa se moderasse nos impulsos reacionários, adotando uma postura “imparcial” que fez com que o clube da imprensa patronal ganhasse a adesão de O Antagonista, de um lado, e de Carta Capital, Fórum e Diário do Centro do Mundo, de outro.
Os escritórios viraram pretensas "fábricas de verdades", marcados pelo prestígio, pela hierarquia e pelo poder que exercem na sociedade, num cenário em que a Faria Lima determina até as gírias que os jovens devem falar no seu dia a dia. E isso é assustador.
Dessa forma, se desenvolve um poder midiático formal, complementado também pela seletiva informalidade dos influenciadores digitais, na formação de uma opinião cada vez menos pública é que, na maioria das vezes, exala um forte odor vindo dos paletós da Faria Lima. Ver a verdade rebaixada a uma mercadoria oferecida pelos escritórios reflete esse país neoliberal enrustido em que vivemos.
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