A visão etnocêntrica dos apoiadores do "funk" tenta apelar, pegando pesado no marketing vitimista no desespero de criar argumentos bombásticos, forçando a comoção pública. E isso vem de uma classe média que jura que é "especializada em pobre".
Em entrevista ao jornalista Augusto Diniz, da Carta Capital, a cantora Fernanda Abreu manifestou esse sentimento desesperado de empurrar o "funk" para mercados "mais exigentes" e promover o ritmo brega-popularesco como algo mais do que um simples pop comercial suburbano.
Fernanda, em primeiro lugar, cometeu um grande equívoco ao afirmar que o "funk" se ascendeu sem ser "criado por publicitário, gravadora ou empresário". Os DJs Marlboro e Rômulo Costa são empresários, a Som Livre e, em parte, a PolyGram (atual Universal), investiram pesado no gênero. Isso sem falar do empresariado do entretenimento, das empresas multinacionais e de outras grandes corporações que, em primeira hora, apoiaram o "funk" no fim dos anos 1980. E publicitários, aos montes, principalmente nas festas da alta sociedade, bateram ponto ao vestir a camisa do gênero.
Diante de argumentos contundentes contra a mediocridade cultural do "funk" e seu rigor estético e até ideológico, que aprisiona os jovens nas favelas - hoje transformadas em "paisagens de consumo" e "safáris humanos", para o deleite dessa elite boçal que apoia o ritmo - , Fernanda tenta renegar que essas elites apoiam o gênero e acusam elas de "distorcer" as visões em torno dele.
"Isso trouxe uma visão muito equivocada da mídia e das elites, que tentavam juntar a imagem da juventude do funk ao tráfico e às facções criminosas", disse a cantora, se esquecendo que a grande mídia, em especial a Folha de São Paulo e a Rede Globo, foram as que mais apoiaram o "funk", a ponto da Globo inserir o gênero numa grande variedade de atrações, seja na TV Globo, seja no Multishow, GNT, Canal Brasil e até no canal educativo Futura.
Mas o desespero de Fernanda se deu na declaração bastante forçada, que é a de que quem rejeita o "funk" é "racista", uma acusação gravíssima que pode gerar sérios problemas legais, se fosse identificar quem faz críticas pesadas ao gênero. Disse Fernanda:
"(A raiz do problema do funk) Não tem a ver com música ou com letra. Tem a ver com racismo estrutural, porque aquela música é feita por preto, pobre, favelado".
Afinal, há dois principais aspectos a pensar.
Primeiro, quem critica o "funk" aprecia, e muito, uma série de intelectuais, artistas e escritores negros. Acusar uma pessoa dessas de ser "racista" porque rejeita o "funk" é de um juízo de valor da mais extrema gravidade, que poderia dar processos judiciais contra os apoiadores do gênero, se tivessem definido alguém como alvo dessas críticas.
Um sem-número de negros brasileiros são admirados por quem critica o "funk": Milton Nascimento, Jackson do Pandeiro, Elza Soares, Agostinho dos Santos, Machado de Assis, Milton Santos, Cruz e Souza, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Itamar Assumpção, Almir Guineto, Martinho da Vila, Alaíde Costa, Pixinguinha, Auta de Souza e tantos nomes, do presente ou do passado, que contribuem para a diversidade da negritude no nosso país.
E como esquecer de Carolina Maria de Jesus, esta sim uma cronista da realidade das favelas, quando elas não eram alvo da hipócrita apreciação da intelectualidade "bacana" - na qual Fernanda Abreu se insere, integrada a esse think tank culturalista - , e os livros da icônica escritora mostram dramas que o "funk" em nenhum momento tem coragem sequer de falar.
Segundo, o "funk" é que escraviza os negros, tornados reféns do gênero e de sua simbologia. Há mais racismo em dizer que os jovens negros não têm futuro fora do "funk", que o "funk" é a única porta de entrada para a ascensão social do jovem.
O próprio rigor estético do "funk" já tem um quê de racismo, na medida em que associa o jovem negro a uma simbologia que gourmetiza a pobreza e determina certos papéis sociais através do gênero, que, tão zeloso em reclamar que sofre discriminação, faz uma gravíssima discriminação: a do músico.
O jovem pobre é louco para tocar um instrumento musical. Bota um violão num canto da favela, o jovem negro e pobre vem e pega, e toca o instrumento de maneira autodidata. Mas vai ele dizer que vai tocar violão no "funk" e o DJ não gosta. O DJ vai logo dizendo: "Você vai estragar o meu trabalho".
No aspecto comportamental, a mulher negra precisa ser sexualizada, virar mulher-objeto, por imposição do "funk". Se a mulher negra não cumpre esse papel determinado pelo establishment funqueiro, ela é vista como "sem valor". E a mulher negra também não pode ser instrumentista, tudo o que ela tem que fazer é rebolar e fazer a "dancinha da garrafa" e fingir que é "feminista" através disso.
Foi bastante infeliz a declaração de Fernanda Abreu, num contexto em que a burguesia ilustrada está retomando pesado a campanha em prol do "funk". Estranho é esse IPES-IBAD de sapatênis investir mais uma vez na defesa do "funk", com exposições e muita, muita propaganda.
Fernanda deveria ver ao redor para perceber que até o discurso dela em prol dos funqueiros tem o dedo de publicitários que criaram um perfil estereotipado de "juventude pobre" para movimentar a indústria do "funk", um ritmo bem mais de acordo com o "sistema" do que muita gente pensa. Esse papo vitimista nunca passou de conversa para turista ver e boi dormir.
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