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SUPREMACIA DA MÚSICA POPULARESCA, UMA CATÁSTROFE CULTURAL


Uma moça cantando “Ela Só Pensa em Beijar”, do MC Naldo (que no começo da carreira de lançou como hype se apresentando para famosos em vários eventos). Jovens histéricos tomando cerveja em bares e restaurantes cantando sucessos de Bruno e Marrone e de Calcinha Preta (grupo especializado a massacrar músicas estrangeiras em versões pavorosas, sem poupar “Dust in The Wind” do Kansas e The Unforgettable Fire” do U2). 

E ainda tem evento de exposição tratando o “funk” como um “movimento libertário”, ocorrendo no Museu da Língua Portuguesa, investindo na mentira do gênero como "a canção de protesto brasileira", uma estória muito bem montada pelos empresários-DJs de "funk" junto às elites intelectuais burguesas, um discurso que, no entanto, não tem a menor conexão com a realidade desse ritmo meramente comercial e que gourmetiza a miséria humana e aprisiona o povo nas favelas.

Trata-se de uma catástrofe cultural em que a mediocridade artística, supostamente atribuída às classes populares, revela um esquema comercial e empresarial perverso, que não se contenta em iludir e enganar a população pobre, mas a atrair a adesão até de pessoas com algum nível de esclarecimento mas que acabam sendo levadas por esse canto de sereia desafinada dos fenômenos popularescos.

A falsa nostalgia que trouxe o sucesso de “Evidências” com Chitãozinho & Xororó, que tentou reabilitar Michael Sullivan como a “raposa” que promete reconstruir o “galinheiro” da MPB é que tenta reabilitar o É O Tchan como uma suposta relíquia cult, ainda tenta vender o cantor de piseiro João Gomes como uma falsa renovação artística, sem acrescentar coisa alguma de relevante ao cancioneiro emepebista.

As empresas de entretenimento que controlam a música brega-popularesca se multiplicaram e os “artistas”, seus produtos, se proliferam mais ainda. E isso cresceu como um câncer que sufoca a verdadeira cultura musical brasileira, que corre o risco de se tornar peça de museu, na tendência Museu Nacional no modo incêndio de 2018, ou seja, desaparecendo da memória e do gosto das pessoas.

De que adianta a relativa revalorização da MPB se vem a “MPB de mentirinha” de volta, agora com piseiros, funqueiros, axézeiros e sofrentes brincando de “fazer MPB” gravando covers burocráticos em programas de TV e em outros tributos e eventos comemorativos? 

Nada sai criativo, tudo é só marketing para turista ver e, além disso, o público de brega-popularesco não vai ouvir MPB porque seus ídolos já gravaram esse repertório, dispensando de ouvir as músicas originais. Os cantores e compositores de MPB até ganham em direitos autorais, mas continuam perdendo em alcance ao grande público.

A supremacia popularesca atinge níveis exorbitantes. Não se trata dos popularescos conquistarem seus espaços, porque eles já tinham espaços demais. Eles tomaram os espaços que deveriam ser para a MPB e o Rock Brasil e hoje são emepebistas e roqueiros que mendigam espaços em mercados controlados pelos popularescos com a mesma mão de ferro com quem as milícias controlam as favelas cariocas, por exemplo.

Ou seja, a MPB e o Rock Brasil em si não tem acesso a todo o território nacional. Precisa negociar com os ídolos popularescos e aí vemos a "interação" entre a música brasileira de qualidade e o comercialismo brega-popularesco. É tudo negócio, por mais que haja todo o faz-de-conta que, recentemente, envolveu João Gomes e a banda Nação Zumbi.

As propagandas enganosas apontavam para uma suposta cumplicidade artística entre o ídolo do piseiro e a banda de mangue beat, a ponto de muitos pensarem, de maneira perigosa e erroneamente ingênua, que João Gomes seria o "novo Chico Science", quando, diferente da criatividade visceral do finado cantor, o astro popularesco é artisticamente medíocre e é subserviente e obediente às imposições de mercado.

O que está por trás da festejada "parceria" são relações de negócios. Não é João Gomes o "coitadinho em busca de reconhecimento artístico". Ele é que está no poder, é o mainstream. Quem busca espaços é a Nação Zumbi, que teve que aceitar esse acordo comercial disfarçado de "parceria artística" para não ficar de fora do mercado de eventos nordestinos, bastante fechado e restritivo.

Infelizmente vivemos a supremacia de um meio musical pseudo-popular, na verdade sustentado por poderosas oligarquias, por grandes empresas, inclusive multinacionais, por grandes latifundiários, entre outros interessados cheios de muita grana. Se isso é manifestação do povo pobre, não faz o menor sentido pois as classes populares são o gado consumidor desse mercado popularesco, tratado de maneira caricatural e impulsionada a comprar produtos para enriquecer essa máquina de fazer dinheiro.

Hoje quem está pobre é a MPB, o Rock Brasil, entre outros movimentos de música de qualidade, impedida de se manifestar fora das pequenas bolhas e de ambientes cada vez mais fechados, enquanto a mediocridade musical popularesca cresce como um câncer espalhando pelo corpo, fazendo com que o futuro da cultura musical brasileira seja cada vez mais sombrio e estarrecedor. 

O pior de tudo isso é que, com as novas gerações cada vez mais sendo enganadas, será criado um falso histórico que produzirá narrativas distorcidas que tendem a se tornar dominantes, criando uma visão fora de lógica, mas pretensamente unânime, sobre as tendências popularescas para daqui a alguns anos. Vamos ter que nos esforçar para que essas mentiras não virem verdades absolutas. 

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