As narrativas sobre escândalos e problemas no Brasil criam álibis de forma que apenas parte deles seja oficialmente reconhecida pela opinião pública (isto é, a opinião que se publica) e que, mesmo com revelações de algo mais do que as denúncias autorizadas vindo à tona, estas dificilmente conseguem repercutir de maneira mais ampla e sólida.
A Faria Lima exerce o poder sutil que penetra no inconsciente coletivo dos brasileiros. Mas para ter êxito nessa empreitada traiçoeira, precisa só mostrar uma pequena parte da sujeira, enquanto o resto se esconde debaixo do tapete.
O “Jornalismo da OTAN”, corrente da mídia que usa o termo “cultura” ou “culturalismo” apenas no âmbito da propaganda política, influi nessa manobra. No caso da Faria Lima, um álibi é usado para mascarar o gigantesco esquema de manipulação existente desde 1974, quando as forças civis que sustentavam a ditadura militar estavam preocupadas com os efeitos colaterais do AI-5.
Assim como a Faria Lima, como “instituição” da elite empresarial paulistana, se limita a se “reconhecer” como entidade conservadora e, na pior das hipóteses, apenas pela acusação de envolvimento com o PCC e o Banco Master, o culturalismo viralata, ou viralatismo cultural, se limita a alguns aspectos relacionados ao propagandismo político, à etiqueta social das elites e a posturas hidrófobas e antissociais de humorísticos, reality shows e noticiários em geral.
O viralatismo cultural se limita ao âmbito político ou, quando muito, a hidrofobia jornalística e à sociopatia de atrações humorísticas ou de reality shows. No entanto, sabemos da sujeira fedorenta que está escondida sob o tapete viralatista e que oficialmente se vende como se fosse “coisa boa”.
A bregalização cultural, os termos de portinglês (body, snack, bike, boy, flat etc), o obscurantismo religioso (como o Espiritismo brasileiro, que é o Catolicismo medieval redivivo), o rock domesticado pela 89 FM (o templo radiofônico da Faria Lima) e, principalmente a gíria “balada”, nascida de um jargão da elite empresarial paulistana para definir um rodízio de pílulas alucinógenas (o ecstasy, que era a “bala” em questão), tudo isso é viralatismo cultural, é Faria Lima, é o circo difundido pela mídia hegemônica.
Mas como, para esse senso comum fabricado pelas manobras sutis da Faria Lima, o que parece agradável é "intocável", o chamado culturalismo viralata ou viralatismo cultural se limita apenas ao terreno do raivismo ou do clube de personae non gratae que envolve Sérgio Moro, Jair Bolsonaro, Carla Zambelli, Roberto Campos Neto, Daniel Vorcaro e similares.
Pouco importa se o funqueiro é machista, o "médium" apoiou a ditadura, falar body e bike no idioma português soa tão ridículo e subserviente aos EUA ou se Michael Jackson, falecido há mais de 15 anos, soa "novidade" no Brasil. Isso tudo pode ser viralatismo cultural dos mais escancarados, mas oficialmente é tabu creditá-los dessa forma. A Faria Lima não quer que se mexa no que parece "agradável".
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