Em 2023, ter senso crítico era garantia de cancelamento. Não estar de acordo com o que é estabelecido fazia com que a pessoa fosse alvo de desprezo e, quando muito, de críticas pesadas. Com o declínio da pandemia, 2023 virou um cenário em que os privilegiados se fingiram de excluídos e montaram um país do qual só valeriam seus interesses e pontos de vista.
Havia a frustração da burguesia quanto ao desgoverno de Jair Bolsonaro, que não assistiu devidamente a população diante da tragédia da Covid-19, preferindo promover um remédio de eficiência duvidosa, a cloroquina, do que investir na vacina preventiva. A burguesia resolveu apoiar Lula por ser este um político muito mais moderado do que se imaginava.
E aí a burguesia resolveu, ainda em 2021, investir num cenário de festa. A idiotização cultural permitiu a escancarada adoração aos ídolos popularescos. O uso de redes sociais tornou-se obsessivo. O consumismo sem freios, as festas barulhentas, o acúmulo de dinheiro, tudo isso estourou no ocaso da pandemia e do bolsonarismo.
Depois do negacionismo bolsonarista, veio outro negacionismo, o negacionismo factual, pois o “novo” momento mostrava a ascensão de uma elite que, só ela, se acha a “mais certa” e a “dona da verdade” (sem admitir isso no discurso, mas na prática). Só por ter muito dinheiro, muitos seguidores e adquirir com facilidade bens desejáveis fazia essas pessoas se acharem “intocáveis” e “indiscutíveis”.
A ordem é estar de acordo com tudo. Lula retorna ao poder em 2022, 12 anos após encerrar seu segundo mandato e adota procedimentos estranhos, fazendo concessões à centro-direita que divergiu do radicalismo bolsonarista. Mesmo assim, a regra era não dar um pio contra o que Lula fizesse, mesmo sendo erros. Qualquer crítica neste sentido fazia seu autor ser alvo de desprezo retumbante. Ter senso crítico era visto como “sinônimo” de bolsonarista, devido à prevalência do raciocínio algorítmico da sociedade brasileira.
Daí que o raciocínio binário não admitia uma vírgula contra o que Lula decidisse ou fizesse. Na época, o ano de 2023, o presidente brasileiro investiu nas chamadas “verbas para emendas parlamentares”, um “novo” nome que dava uma impressão de ser um termo “técnico”.
Na época o termo estava associado a Lula e a ideia seria pagar parlamentares para votar as propostas do governo, e, além da gratificação no valor de cinco dígitos para cada votação, as verbas teriam também uma espécie de “comissão” que seriam recursos para projetos sociais dos domicílios políticos dos deputados.
A ideia de pagar dinheiro dos parlamentares para aprovar projetos de Lula teria sido praticada também nos mandatos anteriores, e pode ter sido a raiz do chamado “mensalão”. Mas a suposta destinação social e o pomposo nome de “verbas para emendas parlamentares” escondeu o caráter de compra de votos da medida.
Recentemente, com a dissociação das “verbas” da agenda lulista, vieram escândalos envolvendo o ex-presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (que atuou mesmo preso, influenciando o Congresso Nacional mesmo impedido de exercer direitos políticos) e o empresário Luis Estevão, ex-dirigente esportivo e hoje dono do jornal Metrópoles, de Brasília. O que mostrou que essas “verbas para emendas parlamentares” são uma grande farsa.
O ministro do STF e ex-ministro da Justiça do terceiro mandato de Lula, Flávio Dino, vetou o que ele define como “terceirização” das emendas parlamentares e a formação das “oligarquias parlamentares”. “A definição da destinação dos recursos públicos é incompatível com a atuação de centros informais de deliberação orçamentária”, disse Dino, dentro da antiga tese “técnica” das tais “verbas”.
E aí vemos o disparate dos lulistas, que com tanta conformidade aceitam o abismo de um salário mínimo de R$ 1.621 e os mais de cinquenta mil dados a cada parlamentar para “concordar” com Lula. Hoje, pelo menos, dá para criticar os erros de Lula, mas, em 2023, isso era motivo para o boicote e cancelamento.

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