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A FLANELIZAÇÃO DO BRASIL


O Brasil não está vivendo um bom momento. Está culturalmente decadente, socialmente acomodado e politicamente confuso.

Não estamos vivendo uma excelente fase.

Em tese, somos um grande shopping sócio-cultural, com acesso para "tudo de tudo", mas o problema é que, apesar de "muitas vozes e muitas narrativas", os espaços de expressão e repercussão são muito seletivos.

A mediocridade está reinante. Os abusos, mesmo repercutindo mal, não causam prejuízo nos seus praticantes.

Pelo contrário. Nós, pressionados pela espiral do silêncio, temos que passar pano em quem abusa, em arrivistas que, na pressa de levar vantagem na vida, cometem atos desonestos.

De "médiuns" picaretas que fizeram literatura fake e agora são "heróis da Pátria" até políticos corruptos que viram dublês de radiojornalistas, temos que ficar passando pano nessas pessoas. Senão, somos jogados ao isolamento.

Para vender livros, temos que jogar esse palavrão chamado "Conhecimento" no lixo, criar obras analgésicas que anestesiam seus leitores e garantem os enriquecimentos estratosféricos dos autores de best sellers.

Na música, um monte de porcaria predomina nas redes sociais, sustentando seu sucesso de forma mais apelativa ou sensacionalista possível.

Fenômenos popularescos fazem o povo pobre parecer tão caricato quanto os humoristas de A Praça É Nossa. Mas temos que passar pano nesses fenômenos, para o bem do "combate ao preconceito".

E se até os veteranos da bregalização musical, inserinos num falso saudosismo, agora se vendem como pretensa vanguarda, então a coisa está grave, mesmo.

Mas temos que passar pano, mesmo. O Brasil vive uma flanelização cultural.

Flanelizar, ficar passando pano, atrai mais amigos, consumidores, traz cartaz, monetiza canais nas redes sociais, faz o flanelinha sócio-cultural se tornar um grande sucesso, um lacrador certeiro.

E vemos o quanto a imbecilização cultural contamina as redes sociais, criando problemas que no entanto recebem a passagem de pano dos formadores de opinião.

Quando exercemos o senso crítico, tocando na ferida dos problemas culturais, sempre chega aquela turminha do "não é bem assim". Verdadeiros flanelinhas conceituais.

Os "isentões" são também flanelinhas culturais, pois passam pano com categoria.

O hedonismo desenfreado, a idiotização gratuita até quando se fala na vida de solteiro, tudo isso tem que receber o toque das flanelas, hoje se acariciam pessoas com pano de limpeza.

As pessoas se tornam marionetes da mídia, do mercado? Passa-se pano nisso tudo e finge que o controle midiático não existe. Para todo efeito, somos obrigados a acreditar que tudo ocorre trazido pelo ar mais puro, como se os piores modismos fossem criação da Natureza.

As pessoas veem ou leem Globo, Folha de São Paulo, Estadão, Jovem Pan, O Antagonista, Terça Livre, rede TV! e Rede Record, mas juram que só veem Netflix, Instagram e WhatsApp.

É uma grande hipocrisia, vinda de gente que se diz "contra a hipocrisia".

Fico bastante triste com isso. Queria ver um país melhor.

O desprezo aos miseráveis, nessa sociedade passadora de pano, é uma ferida nas almas que se refugiam no ilusionismo das redes sociais.

As favelas viraram paisagens de consumo, pretensos habitats dos pobres que, em verdade, não veem a hora de sair desses lugares.

Até nossas esquerdas, cada vez mais decepcionantes com sua mania de triunfalismo de quartinho, presas na memecracia, acham que o problema dos sem-teto está previamente resolvido com a ação solitária de um padre Júlio Lancelotti.

Nosso cenário político está tão confuso que, há mais de dois anos, os brasileiros não conseguem tirar Jair Bolsonaro do poder, assim como o "Fora Temer" tornou-se uma vergonha, com Michel Temer completando o mandato rindo da cara dos brasileiros.

A única coisa que se critica severamente é o senso crítico, erroneamente visto como "patrimônio dos ressentidos".

Porque, mesmo nas esquerdas hoje domesticadas e infantilizadas, o que interessa é passar pano. Porque passar pano traz amigos, fama, dinheiro, sucesso.

Nos cursos de pós-graduação, problemáticas são desproblematizadas pelo passar de panos das teses acadêmicas, que vivem seus quinze minutos de fama quando lançadas mas, estéreis no âmbito do Saber, são condenadas ao isolamento das estantes e a um mofado exílio como arquivo PDF na Internet.

Os jornalistas culturais "isentões", que acham que o Brasil está "culturalmente a maravilha das maravilhas", passam pano na mediocridade que predomina em nosso país.

Passar pano é elegante, é mais simpático, faz todo mundo sorrir, interage com a "galera", estabelece uma aparente paz entre as várias forças sociais envolvidas em uma atividade qualquer.

A flanelização do Brasil está travando o progresso. Mas de que adianta lembrar disso, se a maioria das pessoas sente a falsa impressão de que "tudo está bem"?

As coisas só vão bem no seu solipsismo de pessoas medíocres, no recreio das redes sociais, em que se acredita que o Brasil é a sucursal do Paraíso na Terra.

E são pessoas com algum nível de prosperidade econômica, felizes consigo mesmas, que apelam para que o Brasil permaneça em otimismo e alegria sem motivo. A tal positividade tóxica, de ser feliz à força.

Enquanto isso, vemos que o buraco é mais embaixo, com as crises e convulsões que acontecem fora dos limites das redes sociais e da linearidade social da imprensa cultural "isenta".

O Brasil caminha para um futuro sombrio, porque a festa parece boa, mas a ressaca poderá ser terrível.

Mas enquanto a festa não acaba, a regra é ficar passando pano.

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