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A TEMPESTADE POLÍTICA DO BRASIL TEMEROSO


O Brasil está desgovernado e só agora as coisas ficarão claras.

Vários executivos e funcionários da empreiteira Odebrecht assinaram acordo de delação com a Operação Lava Jato, e o primeiro deles, Cláudio Melo Filho, já chegou fazendo muito barulho.

A coisa é grave. São 77 delatores. Se o primeiro já começa denunciando muita gente, os demais vão simplesmente derrubar toda a nata do poder político dominante no país.

É um relato de 82 páginas que já arrepia os detentores atuais do poder pelas citações feitas nas denúncias de esquemas de corrupção.

O líder do governo no Senado Federal, Romero Jucá, do PMDB de Roraima, foi o mais citado, com 105 vezes.

Daí o medo que Jucá expressou na famosa conversa com o ex-senador e ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, sobre o risco da Lava Jato pegar o PMDB e PSDB.

Outros seis políticos mais citados são do PMDB. E incluem o presidente temeroso.

Geddel Vieira Lima, baiano e antigo rival de Antônio Carlos Magalhães, é o segundo mais citado, com 67 vezes.

Em seguida, o reconduzido presidente do Senado, Renan Calheiros, com 60.

O ministro-chefe da Casa Civil de Michel Temer, Eliseu Padilha, aparece 45 vezes.

Em seguida, o próprio Michel Temer, com 43.

Os dois últimos da lista de sete são do Estado do Rio de Janeiro: o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, com 37, e o ex-prefeito de Niterói, Wellington Moreira Franco, com 35.

Mas as denúncias são de arrepiar e incluiem do assessor e conselheiro de Temer, o advogado José Yunes, até o atual presidente da Câmara dos Deputados, o também fluminense Rodrigo Maia, filho de César Maia.

Há também a citação do potiguar do DEM, o senador José Agripino Maia, sobrinho do falecido João Agripino Maia, udenista dos tempos de Juscelino Kubitchek, Jânio Quadros e João Goulart.

José Agripino também é parente dos fluminenses César e Rodrigo Maia.

Também são citados Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves, respectivamente governador de São Paulo, ministro das Relações Exteriores do governo Temer e senador presidente nacional do PSDB.

É citado também Paulo Skaf, empresário que tentou concorrer ao governo de São Paulo, em 2014 e, derrotado, foi descontar suas mágoas financiando as passeatas dos "coxinhas" pelo "Fora Dilma".

Aliás, o próprio patrocínio de Skaf, presidente da FIESP conhecido por ser um "industrial sem indústria", a grupos como Movimento Brasil Livre pode fazer o lamaçal derramar também nas pernas de Kim Kataguiri, Renan Santos e o vereador eleito por São Paulo, Fernando Holiday.

É um terremoto político sem precedentes na História do Brasil, e ocorre diante de duas situações relacionadas aos envolvidos.

As denúncias de Cláudio Melo Filho se deram no intervalo entre as passeatas de domingo passado, em favor do juiz federal Sérgio Moro, e a abertura das votações finais da PEC do Teto, no Senado, a ocorrer na terça-feira próxima.

Entre o dia 04 último, dia da passeata "verde-amarela", e o próximo dia 13, o da votação da "peque", se deu a denúncia que inaugura oficialmente o começo do fim do governo Michel Temer, um governo que deixará triste lembrança na nossa história.

E ainda teve a festa da revista Isto É, a entrega do prêmio Brasileiro do Ano 2016, com um flagra de Sérgio Moro e Aécio Neves rindo e contando confidências.

Em palestra na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, Sérgio Moro tentou se desculpar.

Disse que foi uma foto "infeliz", e alegou que "não viu indícios" de envolvimento de Aécio Neves no esquema de corrupção da Petrobras.

Moro ainda disse que Aécio "não está em sua jurisdição" e crê "não haver sentido" de envolvimento do PSDB com o esquema do "petrolão", por ter atuado na oposição aos governos do PT.

Mas Aécio está citado em boa parte das delações da Lava Jato, seu nome não aparece nas delações por passeio, os delatores não quiseram fazer um jogo de combinações de vogais e consoantes em duas palavras de cinco letras cada.

Houve também um relatório da ONU que definiu a PEC do Teto, uma das bandeiras "desenvolvimentistas" do governo Temer, de "ameaça aos direitos humanos".

Philip Alston, relator da ONU sobre direitos humanos, manifestou preocupação com o corte de gastos públicos que trará grandes prejuízos a futuras gerações.

A grande mídia tentou, em parte, abafar a notícia da ONU. Mas UOL e Estadão, por exemplo, tiveram que engolir e mandar a notícia.

A coisa está tão feia que Veja e Jornal Nacional tiveram mesmo que noticiar denúncias contra seus antigos protegidos do PSDB.

A mídia venal tenta abafar. Enquanto a Internet "viralizava" o caso da foto de Sérgio Moro e Aécio Neves, a mídia venal ainda estava mastigando o caso Sérgio Cabral Filho e Adriana Ancelmo.

O casal, ex-governador do Rio de Janeiro e a correspondente ex-primeira-dama, aparecia vestindo roupas de presidiário, cada um em separado, mas com a exploração midiática demorada e espetacularizada.

Era um mundinho diferente que se apresentava na mídia comercial, diferente do que a realidade mostrava.

Os noticiários tentavam fazer crer que a corrupção política se encerrava com as prisões de Sérgio Cabral Filho e sua esposa e Anthony Garotinho (depois solto).

Mas depois teve que admitir denúncias cabeludas de Cláudio Melo Filho que poderão trazer efeitos devastadores para a vida política nacional.

Tudo está ainda no começo e, aparentemente, há a chance de vários dos envolvidos abafarem o caso e "preparar uma pizza" para sua farra futura.

Só que os escândalos se somarão tanto que as consequências serão imprevisíveis.

Uma coisa é certa. Mostra que o Brasil ficou à deriva.

É como no navio em que o capitão timoneiro e a tripulação se envolvem em brigas e confusão e a embarcação trafega sobre águas revoltas e tempestades no céu.

Ver que muitos brasileiros ainda estão tranquilos e felizes com isso é muito assustador.

Em certos casos, a despreocupação de muitos pode soar algo muito preocupante, diferente de aflições coletivas que podem tranquilizar as pessoas quando há solidariedade e disposição de luta.

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