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A VISÃO BINÁRIA QUE BLINDA A BREGUICE CULTURAL

LUAN SANTANA E WESLEY SAFADÃO - O COMERCIALISMO MUSICAL QUE PALPITA OS CORAÇÕES DA GRANDE MÍDIA.

A falta de um intelectual cultural de esquerda com visibilidade e uma visão realmente questionadora abriu caminho para a invasão de uma centro-direita intelectual nos círculos esquerdistas.

Sob a desculpa do "combate ao preconceito", empurraram uma visão preconceituosa das classes populares.

Uma visão que descrevia a "pobreza feliz", a "prostituição engajada", o "subemprego criativo" e o "alcoolismo consolador".

Um "povo pobre" que nunca saía de sua inferioridade social, mas se afirmava a partir dela.

A contraposição artificial e simplória de "povo" versus "elite", "mulher" versus "machismo", "bom gosto" versus "mau gosto", "sucesso de público" versus "fracasso da crítica", que nada diziam sobre as verdadeiras questões e dilemas acerca da cultura popular.

Durante anos aceitamos as pregações de intelectuais "bacanas", assim chamados porque, em tempos de anti-intelectualismo, uma parcela da "elite pensante" queria se jogar para a plateia.

Não bastassem suas pregações agradarem em cheio os executivos da mídia venal, alguns deles partiram para fazer proselitismo na mídia de esquerda.

E não havia um intelectual com visibilidade plena para se contrapôr a essas visões "sem preconceitos" mas muito preconceituosas que durante anos prevaleceu sobre a opinião pública, num consenso forçado que atingia até mesmo as esquerdas.

Preconceitos típicos da Rede Globo e da Folha de São Paulo eram servidos de bandeja nas páginas de Caros Amigos, Carta Capital, Fórum e Brasil de Fato.

Preconceitos que foram vistos como "desprovidos de preconceito" por uma interpretação puramente binária, uma visão simplória que os intelectuais "bacanas" traziam das classes populares.

Partia-se da ideia simplória de que qualquer coisa valia porque atraía o grande público.

Era o tal "popular demais", no qual qualquer aberração musical ou comportamental media seu valor pelo aparente agrado ao grande público ou pelo suposto incômodo sentido pela elite "ilustrada".

Tudo muito simplista: só porque é "popular", qualquer coisa era vista necessariamente como "boa" e "genial".

Como quem procura cabelo em ovo, falou-se até de ídolos inócuos do brega que tinham supostas letras de protesto.

Verdadeiros panfletos publicitários eram escritos sob o aparato formal de monografias, artigos acadêmicos, grandes reportagens, estas sob um estilo calcado na linguagem do Novo Jornalismo.

Abordagens historiográficas também se apressavam a usar a técnica sofisticada da História das Mentalidades.

Era preciso caprichar na narrativa para empurrar a bregalização à opinião pública, sobretudo de esquerda, e reduzir a autoafirmação do povo pobre naquilo que ele tem de inferior.

Primeiro se afirma o povo pobre com suas piores qualidades, e se força a aceitá-la resignadamente.

Até que a classe média, presenteando os ídolos dessa "cultura popular" com a blindagem intelectual mais convicta, dá um banho de loja, técnica, tecnologia e tudo o mais, e a multidão brega se repagina parecendo "culturalmente mais legal".

Isso não trouxe resultados satisfatórios.

Tentaram "eMePeBizar" a geração neo-brega, de "pagodeiros" e "sertanejos" - além de outros estilos musicais comerciais - que fizeram sucesso nos anos 1990, durante a Era Collor.

Tiveram até o apoio da Globo, que enfiava esses canastrões musicais para cantar covers de MPB em eventos ou programas tributos diversos, desde o aniversário da cidade de São Paulo até homenagem ao Clube da Esquina.

O resultado foi abaixo do sofrível: "pagodeiros" e "sertanejos" nivelados a crooners de churrascaria, cantando "boa música" sem conhecimento de causa e a produção autoral continuava medíocre.

Seus discos eram embelezados por arranjadores, artistas visuais, engenheiros de som etc. Viraram "discos de arranjador". Se as músicas se tornaram "mais palatáveis", agradeça ao arranjador.

Cada dezena de grupos de "pagode romântico" ou cada meia-dúzia de "sertanejos românticos" conta com uma equipe de arranjadores que praticamente faz tudo: os intérpretes é que cantam e executam os arranjos e todo o trabalho já feito.

Isso só virava "MPB de verdade" para os midiotas que povoam as redes sociais. Alguns complacentes até adotam os neo-bregas de 1990 no "panteão da MPB", até por ter peninha deles pelo "sucesso estrondoso" que fizeram.

Em termos práticos, porém, a colaboração desses "artistas" para a MPB foi inócua, para não dizer inexistente e fraca.

A facilidade de encher plateias não foi garantia de grande relevância cultural, até porque as plateias se enchiam pelos apelos dados por emissoras de rádio e TV "populares", mas controladas por oligarquias nacionais e regionais.

Outro dado simplório é definir as siliconadas como "feministas" só porque não têm marido.

Em muitos casos, até tinham uma excelente relação conjugal com seus maridos, mas, pra o bem do mercado da sensualidade, tiveram que se separar deles, que eram até indenizados.

Sabe como é, ser solteira vende mais. É evidente as frustrações de fãs quando famosas decidem se casar ou já se revelam casadas.

Mas elas cumprem o papel que o machismo lhes impôs, o de objetos sexuais. Funqueiras dançavam com os glúteos de frente para a plateia ensandecida. Siliconadas em geral postam fotos no Instagram com pouca ou nenhuma roupa e vão para os eventos usando roupas apelativas.

Se gabam em ser "feministas", mas cumprem o papel machista de mulheres-objetos. Não têm vínculos com maridos ou namorados, mas seus patrocinadores são homens: seus empresários, os dirigentes esportivos, os dirigentes carnavalescos, os barões da mídia venal.

Só porque são mulheres que habitam o imaginário "popular" e não têm vínculo aparente com maridos ou namorados, não significa que elas expressem algum tipo de feminismo popular.

Há 15 anos, uma intelectual festejada, Bia Abramo, responsável pela petista Fundação Perseu Abramo (nome do pai da jornalista), cometeu uma gafe.

Bia preferiu defender as "proibidas do funk" que haviam parodiado as profissionais de enfermagem vestindo roupas de "enfermeiras sensuais".

A jornalista classificou as profissionais de enfermagem como "moralistas" quando elas processaram as "proibidas" pela exploração depreciativa.

Detalhe: as "proibidas" eram empresariadas por Alexandre Frota, alguém que nunca se comprometeu com alguma causa de esquerda, nem mesmo para pegar carona.

Frota faz parte da elite de famosos histéricos de direita, como Lobão, Roger Rocha Moreira, Regina Duarte, Arnaldo Jabor, os humoristas do Casseta & Planeta e outros.

Foi um grande atropelo da mentalidade binária daqueles que querem ver o povo pobre refém de sua própria imagem caricatural.

Diante dessa visão binária e simplória, em que o "popular" serve de pretexto para qualquer tipo de decadência, houve visões elitistas preocupantes, que revelam preconceito mascarado pelo "combate" ao mesmo.

Malu Fontes, professora da UFBA, ao defender o "arrocha", rejeitou as críticas alegando que "era aquilo que o povo sabia fazer".

Lembra Marta Suplicy na sua atual fase temerosa.

Muitos preconceitos eram expressos sob o manto do "combate ao preconceito".

O aspecto quantitativo das plateias cheias, a "vontade popular" induzida pelo poder midiático, se esquecendo que a chamada "mídia popular" é em boa parte controlada por políticos, latifundiários e grandes empresários.

Não há sequer sombra da pretensa imagem do "corajoso produtor" ou do "destemido gerente artístico" em sua suposta contribuição para a (risível) "autossuficiência das periferias". Fernando Henrique Cardoso estaria orgulhoso dessa "autossuficiência".

Da mesma forma, não há sombra de "independência fonográfica" em gravadoras pequenas cujo apetite mercadológico se compara às grandes corporações fonográficas de Los Angeles e Nova York.

Esse apetite mercadológico desmerece o termo "indie", jogado aos ventos pela intelectualidade "bacana" só por causa da estrutura empresarial aparentemente pequena.

Só que gravadora indie não é aquela que tem necessariamente uma pequena estrutura, mas aquela que trabalha com uma filosofia oposta à ganância capitalista das gravadoras dominantes.

E mais uma vez, a visão simplória, binária: gravadoras tidas como "independentes" só por não terem a estrutura de uma Warner ou Universal Music. Não têm a estrutura, mas têm a mentalidade, e várias delas são dependentes de verbas de latifundiários e barões da grande mídia.

O "popular demais" tornou-se um processo sustentado por argumentos simplórios.

Algo que monografias, reportagens e documentários não conseguem esconder, eles que usam uma roupagem objetiva para tão somente impor um apelo publicitário.

Pois é isso que fazem: para empurrar uma concepção etnocêntrica das populações pobres, trazida por supostos bens culturais simbólicos difundidos por rádios, TVs e imprensa, tiveram que sofisticar o discurso da melhor maneira, mas obviamente trazendo visões confusas e nada objetivas.

Visões contraditórias, que, com a pretensão de trazer a visão "definitiva" da cultura popular, como se acadêmicos e intelectuais de classe média fossem "mais povo que o povo", só conseguem revelar visões elitistas.

Em nome do "combate ao preconceito", os intelectuais "bacanas" só conseguiram expressar uma coisa: puro preconceito com o povo pobre.

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