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ESQUERDAS E OS "KUBITSCHEK DE BOTEQUIM"

EDUARDO PAES, RODRIGO NEVES E GERALDO ALCKMIN.

Que as esquerdas brasileiras sempre procuram um "direitista favorito", isso é verdade. Vide os "brinquedos culturais" da direita moderada que, adotados pelas esquerdas, as fazem ver a realidade do Brasil como se fosse uma novela das 21 horas da Rede Globo de Televisão, com seus funqueiros, "médiuns", craques de futebol, "sertanejos" e mulheres-objetos povoando os pensamentos desejosos de esquerdistas que querem um mundo de direita habitando o universo de esquerda.

Com esse costume, cujo ato mais marcante foi a escolha do neoliberal irredutível Geraldo Alckmin para a Vice-Presidência na chapa de Lula, as esquerdas não querem transformar o Brasil, preferindo apenas conviver com valores e personalidades de direita que não falem hidrofobês, o idioma da raiva e do rancor. Se ser de esquerda é acolher tudo que é de direita que dispense o idioma do ódio, então para que Karl Marx ter se esforçado para ter um diferencial ideológico?

Há um hábito estranho nas esquerdas brasileiras em acolher políticos de direita associados a uma hipotética imagem desenvolvimentista. São os "Kubitschek de botequim", ou seja, pastiches de Juscelino Kubitschek cuja atribuição de desenvolvimentismo não passa de conversa mole, mas mesmo assim esses políticos de direita parecem queridinhos das esquerdas médias do nosso país.

Para quem não sabe, Juscelino Kubitschek foi um político de direita moderada, mas com vocação excepcionalmente humanista e uma visão de progresso urbano ímpar. Fez muitas realizações urbanas em Belo Horizonte, quando foi prefeito da capital mineira, a ponto de ser chamado de "prefeito furacão". Construiu Brasília atendendo a uma sugestão de um farmacêutico num comício improvisado em Jataí, Goiás, e mesmo de forma apressada cumpriu esse desafio, entregando a nova capital em 1960.

Mas aí vemos pastiches de políticos "desenvolvimentistas" cuja reputação, neste sentido, não passa de um jogo de cena. Recentemente, o Partido dos Trabalhadores recorreu a Eduardo Paes e Rodrigo Neves numa articulação entre as candidaturas ao Governo do Estado do Rio de Janeiro - cujo competidor pelo PDT é Neves, ex-prefeito de Niterói (cidade que não constrói avenida ligando bairros vizinhos e faz de rodovia estadual uma "avenida de bairro") - e a de Lula para a Presidência da República.

FERNANDO COLLOR EM 1990 E EM 2006.

Essa estranha vocação das esquerdas médias fez com que, durante um tempo, cortejasse o ex-presidente Fernando Collor de Mello, que por cerca de dez anos brincou de ser "esquerdista". O político que rivalizou com Lula em 1989 virou seu, digamos, "aliado" entre 2006 e 2016, e esse apoio das esquerdas médias ao "marajá das Alagoas" criou uma situação muito engraçada.

No começo da década de 2010, quando a mídia progressista estava em ascensão, a figura de Fernando Collor se dividia em dois "personagens": um, o ex-presidente qe confiscou as poupanças dos brasileiros e sofreu impeachment, e outro, o senador "esquerdista" que falava mal das pautas hidrófobas de Veja. Lembrando que, em 2005 e 2006, Fernando Collor era queridinho da concorrente de Veja, a Isto É.

Desde 2016, porém, Fernando Collor aderiu ao golpe contra Dilma Rousseff e ao conservadorismo político mais explícito resultante desse fato político. Ultimamente, Collor virou apoiador de Jair Bolsonaro, num caminho similar ao que Zezé di Camargo fez na música.

Mesmo assim, as esquerdas médias sempre acolhem como "sua" o direitista pretensamente progressista, cheio de projetos mirabolantes, como Eduardo Paes, por conta da realização das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro e, dois anos antes, de parte dos jogos da Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

E aí tem também Rodrigo Neves, que, como prefeito de Niterói, só fez a única grande realização que foi a Cafubá-Charitas, uma via acertada, que encurtou o caminho de quem ia da Região Oceânica para o Saco de São Francisco. Foi um projeto realizado com quase 75 anos de atraso, e que fotografei, nos dois lados (Cafubá e Charitas), em registro publicado no meu livro de fotos A Niterói Que Eu Vejo. Também está no meu livro outra coisa acertada de Rodrigo Neves, o alargamento da Av. Marquês do Paraná.

Eduardo Paes - que começou sua carreira como tucano e representante das ricas elites da Barra da Tijuca - também fez uma única coisa acertada, a demolição do Viaduto da Perimetral. Mas são apenas virtudes pontuais, que não fazem de Eduardo e Rodrigo os desenvolvimentistas dos sonhos, apesar dos comentários rasgadores de seda de André Ceciliano, candidato carioca do PT ao Senado Federal.

Paes instituiu os horrendos ônibus padronizados, medida tão escandalosa - revelou-se depois que havia um esquema de corrupção por trás do esconde-esconde de empresas de ônibus sob uma única identidade visual - que ele preferiu não repetir, na sua atual gestão como prefeito do Rio de Janeiro. 

Já Neves se limitou a conceber a mobilidade urbana através de medidas válidas porém confortáveis como recapear asfaltos e criar ciclovias. Problemas diversos, como alagamentos em chuvas, congestionamentos intensos e falta de passarelas para pedestres e de avenida (rodovia) própria ligando Rio do Ouro a Várzea das Moças, continuam persistindo.

Diante desse deslumbramento das esquerdas médias, que agora com Geraldo Alckmin - outro falso desenvolvimentista, associado ao governo de São Paulo - , nota-se o quanto os movimentos progressistas brasileiros estão decadentes, sem saber o que realmente são as causas progressistas. Ver as esquerdas se limitando a conceber seu mundo adotando valores, conceitos e personagens de uma direita comportada, é de entristecer. Daí minha grande e profunda decepção com Lula.

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