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A “FELICIDADE” NUM PAÍS EM QUE NEM TODO MUNDO PODE SER “TODO MUNDO”



Duas pesquisas, uma realizada pela Organização das Nações Unidas e outra pelo Instituto Ipsos, destaca a aparente posição do Brasil entre os “países mais felizes do mundo”. Mais sonhador, o levantamento do Ipsos, que incluí a problemática Índia em primeiro lugar, coloca o Brasil em quinto.

A ONU parece relativamente mais realista, classificando o Brasil como 36° lugar mundial e segundo da América Latina, depois do Uruguai, 29° lugar no ranquim. Os critérios avaliados pelo Ipsos superestimam as declarações dos entrevistados, enquanto as Nações Unidas considera critérios objetivos como o Produto Interno Bruto (PIB), o suporte social, expectativa de vida saudável, liberdade, generosidade e percepções de corrupção.

O Brasil vive um período em que busca desesperadamente o protagonismo e a hegemonia mundial. Não se trata de promover necessariamente a justiça social plena ou a redução real das desigualdades, mas de garantir o poder social, econômico, político e cultural para uma elite relativamente variada planejada desde o “milagre brasileiro” de 1969-1974.

Essa elite vai desde os ex-pobres que, através da chamada “sorte grande”, foram inseridos no consumismo de bens e emoções, até os famosos que, extremamente ricos, não têm o poder de decisão de juristas e banqueiros. Entre eles, está a classe média abastada, também chamada de “pequena burguesia”, e a nova burguesia descolada dita “democrática”.

É claro que hoje a realidade está sendo deixada de lado por narrativas nada realistas, porém bastante organizadas na produção de sentido e de argumentações convincentes e na capacidade de compartilhamento por milhares de pessoas. São meias-verdades e até mentiras que conseguem se passar por “verdades indiscutíveis” por apresentarem uma narrativa desprovida de raiva mas expressa com pretensa objetividade.

Daí que nesse universo, temos um “povo brasileiro” que não corresponde à realidade. Um “povo” dotado de valores que, na verdade, são produzidos ou difundidos por uma elite de pessoas influentes, de publicitários a líderes religiosos. Eles é que desenham um Brasil domesticado e subserviente, entregue a uma positividade tóxica que garante a suposta paz social dos últimos tempos.

É o que eu chamo de “Clube de Assinantes VIP” da “democracia” lulista, a “democracia de um homem só” na qual o presidente Lula decide e o povo apenas é convidado a brincar, dançar e consumir. Uma “democracia” que mais parece um “AI-5 do bem”, um “AI-SIMco” no qual o senso crítico está proibido, sob ameaça de cancelamento na Internet.

Esse “clube” é o clube dos privilegiados de alguma forma. Já não é somente o 1% das revoltas de 2016, mas os 30% da “democracia” lulista de hoje, um Brasil “único” onde uns são mais “únicos” do que outros. Mesmo assim, não é a totalidade da sociedade brasileira, que mantém desigualdade e injustiças em níveis bastante dramáticos.

A “democracia de um homem só” de Lula 3.0 exclui quem não se enquadra no clima festivo, identitário e pró-burguesia dos que apoiam o presidente da República. A “sociedade única” é apenas um recorte de um cenário em que tradições conservadoras “positivas”, aliadas a um neoliberalismo assistencialista e ao culturalismo identitário, e quem está fora sai em prejuízo, seja este qual for.

Portanto, a “felicidade” corresponde apenas a uma parcela de privilegiados do governo Lula, que não são o todo da população, mas apenas a parte que se enquadra nos padrões sociais vistos no Instagram, Tik Tok e Facebook. Gente com algum dinheiro, com alguma posição social e de acordo com o sistema de valores conservador que prevalece no Brasil há 50 anos.

Enquanto isso, essa “felicidade” permanece invisível para os movimentos sociais e para os excluídos da festividade dos tempos atuais. Fora da bolha lulista, um Brasil chora em silêncio seus dramas diários.

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