Pular para o conteúdo principal

A JUVENTUDE INFANTILIZADA E... DESMOBILIZADA


O Brasil hoje vive uma grave crise sociocultural que envolve não apenas a precarização da cultura popular como a domesticação dos segmentos sociais potencialmente subversivos: jovens, pobres e, em parte, roqueiros.

Essa crise ocorre de maneira invisível porque, para esses extratos sociais, algum benefício relativo é transmitido pelo cenário político, econômico e cultural vigentes: uma relativa prosperidade econômica e estímulos ao lazer e ao consumo plenos.

Hoje completo 54 anos de vida e, por incrível que pareça, sou mais jovial do que minha idade sugere e tenho até voz de rapazinho. Adoro o espírito juvenil e sua forma de se divertir, mas o que me preocupa é o infantilismo exagerado e alienado que a atual geração Z está tendo, e isso faz com que pessoas com 22, 25 anos de idade se comportem como crianças de oito anos de idade.

Temos uma precarização da cultura jovem, com ídolos musicais falsamente "autênticos" e estupidamente comerciais, além do desprezo à atividade instrumental e à criação melódica. Temos também a deterioração da literatura, a decadência do jornalismo - após um período de supervalorização também negativa, no outro extremo - e a banalização do opinionismo que abriu caminho para fake news e para a ascensão de influenciadores digitais e humoristas dublês de jornalistas.

Vide esse quadro de verdadeira catástrofe sociocultural, da qual ninguém consegue ver sequer por indício. As pessoas, sobretudo as mais jovens, vivem num estado de felicidade tóxica preocupante, e é irônico dizer que sua despreocupação é altamente preocupante.

Não temos mobilizações sociais de grande porte. Os movimentos sindicais, camponeses e indígenas se mobilizam. Servidores públicos e professores da rede pública se mobilizam. Outros grupos sociais de excluídos ou oprimidos se mobilizam. Mas nada que possa ter algum efeito de pressão ou uma repercussão que alcance as alienadas e felizes bolhas sociais dominantes.

Enquanto isso, o que eu costumo ver são jovens infantilizados, pessoas com 22, 25 e até 30 anos com semblantes infantis. Se até temos muita gente na faixa dos 40, 50 anos que apresenta um semblante bitolado, imagine quem tem 25 anos e apresenta um semblante de quem tem 12 anos de idade, sempre com um riso bobo na cara?

Pessoas "felizes demais" preocupadas com piadinhas e frivolidades, contando estórias sobre a vida particular, verdadeiras tolices que, não raro, são anunciadas aos berros nos fins de noite, perturbando a vizinhança que, de graça, acaba conhecendo detalhes particulares das vidas dos vizinhos barulhentos.

A chamada cultura woke, nome que o identitarismo cultural recebeu nos EUA, só fez piorar as coisas, pois de que adianta repetir o figurino hippie e caprichar na diversidade sociocultural arrojada, com homens se vestindo de mulheres e mulheres se vestindo de homens, se até a trilha sonora, cheia de axé-music, "funk", trap e aberrações como "Evidências" com Chitãozinho & Xororó, envergonhariam qualquer idoso que havia sobrevivido às aventuras arrojadas de Woodstock.

Essa "Contracultura de resultados" nada contribuiu para o estímulo à mobilização e o que se tem é apenas a celebração alienante da "liberdade humana", com gente se autodestruindo com cigarros e se submetendo a gírias terríveis como "balada", a gíria de jovens riquinhos da Faria Lima que teima em ser um jargão "acima dos tempos e das tribos".

Fico triste com isso, porque não sou careta. Diferente dos "coroas" de 20 anos atrás, que, quando chegaram aos 50 anos, queriam parecer ter a vivência e o comportamento de 70, eu me tornei mais jovial e passei a compreender o poppy punk melhor do que quando eu estava na casa dos 20, 25 anos. 

Adoro o espírito de diversão juvenil, sinto falta da força daquele desejo juvenil de formar bandas de rock, como ocorreu no Reino Unido dos anos 1960. Muito entristecido, vejo que fenômenos juvenis de hoje, como o k-pop, por exemplo, são muito mais caretas e subservientes e mesmo o pop "polêmico" dos EUA de hoje não passa de fachada para ídolos que parecem mais obedientes e submissos do que parecem, sobretudo num mercado dominado pelo tirânico Max Martin.

A submissão à mídia e ao mercado também preocupam, pois os jovens aceitam qualquer parada. Se resignam em comprar produtos caros e não medem esforços para pagar ingressos para ver o ídolo do momento, podendo ser uma Taylor Swift ou Shakira, pouco importando os preços caríssimos dos ingressos, dos lanches, das camisetas, de tudo.

Até em termos de lideranças políticas, a juventude encara o presidente Lula não como um mestre experiente, mas como um "jovem" a conduzir o futuro dos brasileiros. Ou seja, não se preocupam em fazer florescer um líder mais jovem, com novas ideias, e preferem ficar na zona de conforto de querer reeleger um idoso doente e conservador, educado numa sociedade rural de 80 anos atrás.

Triste ver uma juventude tão alienada, consumista e resignada, preocupadas apenas em falar de bobagens e rir de maneira histérica por coisas sem graça. Falta mobilização, senso crítico, debates. Essa juventude não está agindo de maneira criativa e revolucionária, mas fazendo tudo de agrado para uma sociedade careta e conservadora, que pode no entanto dormir tranquila pois, fora algumas "excentricidades", a juventude atual brasileira não causa incômodo algum. E não foi preciso um DOI-CODI para desmobilizá-la.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O CARNAVAL BRASILEIRO VIROU UMA "CONTRACULTURA DE RESULTADOS"

DESFILE DO BLOCO TARADO NI VOCÊ, NO CENTRO DE SÃO PAULO. O Brasil virou um país estranho, culturalmente deteriorado e marcado por uma bregalização quase total e um complexo de superioridade de uma elite de privilegiados que domina as narrativas nas redes sociais, a burguesia ilustrada, classe que se acha "mais povo que o povo". Transformado em um grande parque de diversões, o Brasil no entanto tenta vender como "cultura de protesto" eventos que são somente puro entretenimento, daí os risíveis fenômenos do brega-vintage - cujo exemplo maior foi a canção "Evidências" na voz de Chitãozinho & Xororó - e, agora, do das canções infantilizadas como "Lua de Cristal", "Superfantástico" e "Ilariê". Em seguida, vemos o fato da axé-music querer se vender como a "Woodstock brasileira", e as narrativas de transformar o Carnaval de Salvador num fenômeno de engajamento sociopolítico e cultural são bem arrumadinhas. Sim, porque n...

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

EDUARDO PAES É MUITO MAIS PERIGOSO QUE TARCÍSIO DE FREITAS

EDUARDO PAES (D), AO LADO DE LUCIANO HUCK - "Príncipes" da Faria Lima no Rio de Janeiro. As narrativas que prevalece nas redes sociais são enganosas. A seletividade do pensamento crítico esbarra em certos limites e as abordagens acabam mostrando como “piores” coisas que até são bem ruins e nocivas, mas que estão longe de representar o inferno dantesco a que se atribuem. Comp jornalista, tenho compromisso de fazer textos que desagradam, mas são realistas. Meu Jornalismo busca se aproximar da fidelidade dos fatos, não sou jornalista para escrever contos de fadas. Por isso não faço jornalismo de escritório, que fala coisas como “a cidade A tem mais mulher porque tem praia e coqueiros ou a cidade B é mais barata porque lá os moradores rezam mais”. Não aprendi Jornalismo para me submeter a tais vexames. Por isso, quebro narrativas e crendices que parecem universais, mas expressam a visão de uma elite. O “funk” é considerado a “verdadeira cultura popular”? Eu revelo que não, que o ...

FEMINICÍDIO DIMINUI EM 15 OU 20 ANOS O TEMPO DE VIDA DE QUEM COMETE ESSE CRIME

A SOCIEDADE PATRIARCAL E AS RELIGIÕES CONSERVADORAS TRATAM AS LUTAS CONJUGAIS QUE RESULTAM EM FEMINICÍDIO COMO SE O AUTOR DO CRIME FOSSE O SUPER-HOMEM EXTERMINANDO A NAMORADA LOIS LANE.  Recentemente, o Ministério da Saúde do Brasil pediu para a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluir o feminicídio como uma doença mental, com o objetivo de estimular a criação de medidas preventivas contra esse crime e proteger as mulheres de continuar sofrendo essa tragédia. Na verdade, no feminicídio, fala-se que a mulher morre à vista e o homem morre a prazo. O feminicida também produz a sua tragédia, e falar nisso é um tabu para nossa sociedade. O feminicida e sua vítima costumam ser trabalhados pela mídia como se o Super-Homem matasse a Lois Lane. Essa abordagem que transforma o feminicida num "forte", atribuindo a ele uma longevidade surreal - supostamente resistente a doenças graves - , é compartilhada pela sociedade patriarcalista e pelo velho moralismo religioso conservador, de ori...

AS ESQUERDAS COMPLICAM SEU CONCEITO DE “DEMOCRACIA” NO CASO DO IRÃ

COMPLEXO DO LÍDER SUPREMO AIATOLÁ ALI KHAMENEI, EM TEERÃ, DESTRUÍDO PELO ATAQUE. O LÍDER FOI MORTO NA OCASIÃO. A situação é complicada. Não há heróis. Não há maniqueísmo. Apenas vivemos situações difíceis na política internacional, depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu bombardear o Irã e matar o líder supremo, o Aiatolá Ali Khamenei, sua filha, seu genro e seu neto, entre outras vítimas. Outro ataque atingiu uma escola de meninas em Teerã, matando 148 pessoas, entre elas muitas crianças. O governo iraniano decretou 40 dias de luto após o bombardeio que matou Khamenei. O ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, também foi morto no atentado à sede do governo daquele país. Outros ataques ocorreram. Depois do atentado, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, prometeu vingança como “direito legítimo” e o governo do Irã já realizou os primeiros ataques contra Israel. Já no Irã, assim como na Índia e no Paquistão, seguidores e opositores de Khamenei fizeram manifestações. ...

O SONHO E O PESADELO NO MERCADO DE TRABALHO

APESAR DA APARÊNCIA ATRATIVA, O TRABALHO DE CORRETOR DE IMÓVEIS MOSTRA O DRAMA DE ESTAGIÁRIOS QUE TRABALHAM DE GRAÇA ESPERANDO UMA COMISSÃO POR VENDA DE IMÓVES QUE É TÃO INCERTA QUANTO UMA LOTERIA. A polarização política virou o embate entre o sonho e o pesadelo, e no contexto posterior da retomada reacionária de 2016, tudo o que as esquerdas fizeram foi negociar com a direita moderada os seus espaços políticos. E é a mesma direita moderada que faz consultoria econômica para a extrema-direita e oferece sua logística administrativa. Quando falamos que o lulismo obteve um protagonismo de forma artificial, tomando emprestado os espaços políticos da direita temerosa, os lulistas não gostam. Falo de fatos, pois acompanhei passo a passo do período de 2016 para cá. Seria confortável acreditar que os lulistas conquistaram o protagonismo do nada por um toque de mágica do destino, como se a realidade brasileira fosse um filme da saga Harry Potter. Não conquistaram. Tanto que Lula foi cauteloso d...

QUANDO RECRUTADORES JOGAM FORA A MINA DE OURO

Infelizmente, no Brasil, quem interessa por gente talentosa é arrivista e corrupto, que precisa de uma aparência de bom profissionalismo para levar vantagem. É quando há patrões ruins em busca de ascensão e empregam pessoas com notável competência apenas para dar um aspecto de “respeitabilidade” para suas empresas. Fora isso, o que temos são contratadores que acabam admitindo verdadeiras aberrações profissionais, enganados pela boa aparência e pela visibilidade do candidato canastrão que, todavia, é um mestre da encenação na hora da entrevista de emprego ou na videoconferência seletiva. Mas, para o cargo desejado, o sujeito decepciona, com 40% de profissionalismo e 60% de desídia. Para quem não sabe, “desídia” é o mesmo que “vadiar durante o expediente”. Daí a invasão de influenciadores digitais e comediantes de estandape nos postos de trabalho sérios ligados à Comunicação. O caso do Analista de Redes Sociais é ilustrativo, um cargo qualquer coisa que ninguém define se é um serviço téc...

LULA AINDA NÃO ENTENDE OS MOTIVOS DE SUA QUEDA DE POPULARIDADE

O Partido dos Trabalhadores (PT) decidiu encomendar uma pesquisa para entender os motivos da queda de popularidade de Lula. A ideia é compreender os níveis de desaprovação que, segundo as supostas pesquisas de opinião, são muito expressivas. O negacionismo factual também compartilha dessa dúvida. Afinal, o negacionista factual se recusa a entender os fatos, ele acha que suas opiniões, seus estereótipos e suas abordagens vêm primeiro, não suportando narrativas que lhe desagradam. Metido a ser objetivo e imparcial, o negacionista factual briga com os fatos, tentando julgar a realidade conforme suas convicções. Por isso, os lulistas não conseguem entender o óbvio. Lula fez um governo medíocre, grandioso por fora e nanico por dentro. O terceiro mandato foi o mais ambicioso dos três mas, pensando sem sucumbir a emoções a favor ou contra, também foi o mais fraco dos três governos do petista. Lula priorizou demais a política externa. Criou simulacros de ações, como relatórios, opiniões, discu...

“COMBATE AO PRECONCEITO” E “BRINQUEDOS CULTURAIS “ FIZERAM ESQUERDAS ABRIREM CAMINHO PARA O GOLPE DE 2016

AS ESQUERDAS MÉDIAS NÃO PERCEBERAM A ARMADILHA DOS "BRINQUEDOS CULTURAIS" DA DIREITA MODERADA. Com um modus operandi que misturava fenômenos de “quinta coluna” de um Cabo Anselmo com abordagens “racionais” de think tanks como o IPES-IBAD, o “combate ao preconceito”, campanha trazida pela mídia a partir da Rede Globo e Folha de São Paulo, enganou as esquerdas que tão prontamente acolheram os “brinquedos culturais”. Para quem não sabe, “brinquedos culturais” são valores e personalidades da direita moderada que eram servidos para o acolhimento das esquerdas médias sob a desculpa de representarem a “alegria do povo pobre”.  Muitos desses valores e pessoas eram oriundos da ditadura militar, mas as gerações que comandam as esquerdas médias, em grande parte gente com uma média de 65 anos hoje, era adolescente ou criança para entender que o que viam na TV durante a ditadura simbolizava esse culturalismo funcionalmente conservador, embora “novo” na aparência, sejam, por exemplo, Gret...

A SIMBOLOGIA DO REBAIXAMENTO DA ESCOLA DE SAMBA QUE HOMENAGEOU LULA

O resultado do desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo tema foi “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula”, pode ter sido um alívio para os lulistas diante da forte acusação de crime eleitoral que poderia causar. A escola foi rebaixada e voltou ao grupo de acesso, um ano após ter chegado ao grupo de elite do Carnaval do Rio de Janeiro. A vencedora foi outra escola niteroiense, a Viradouro, o que permitiu a visibilidade da cidade de Niterói, que há 51 anos teve tirado, da ditadura militar, o status de capital do Estado do Rio de Janeiro, condenada a uma vassalagem que só beneficiou o empresariado e acostumou mal a população, mesmo sendo a maos prejudicada neste processo. Niterói hoje se reduziu a um quintal do Rio de Janeiro, um playground de luxo para os vizinhos do outro lado da Baía da Guanabara se divertirem. Só para perceber o absurdo da situação, muitas matérias dos noticiários nacionais produzidos no Rio creditaram Niterói, de forma irresponsável, como “Rio de Janeiro -RJ”, metr...