Setores das esquerdas, entre 2005 e 2016, acolheram valores culturais da direita que eram difundidos desde a Era Geisel. A desculpa era que esses valores, em tese, fariam o povo pobre sorrir ou eram associadas a coisas que parecem positivas.
Isso foi facilitado porque grande parte das esquerdas dos últimos 25 anos nasceu depois de 1960 e era muito nova para entender as sutilezas dos anos de chumbo. Daí que essa geração, que viu televisão ao longo dos anos 1970, imaginou que o culturalismo viralata da bregalização, do obscurantismo religioso “filantrópico” e da espetacularização do futebol fossem “valores naturais” do povo brasileiro. Na época, essas pessoas eram crianças ou adolescentes.
Palavras “mágicas” como “paz”, “interatividade”, “mobilidade urbana”, “democracia” e “periferia” serviam de isca para as esquerdas acolherem esses valores da direita moderada, que chamo de “brinquedos culturais” pela forma ingênua com que são recebidos pelas esquerdas médias. Nunca nos esqueçamos que o termo “periferia “, nos anos 1970, era um jargão muito difundido por certo sociólogo chamado Fernando Henrique Cardoso.
Escrevo isso depois de ler um depoimento de José Genoíno, político do PT e remanescente das guerrilhas contra a repressão ditatorial, ter declarado em entrevista a respeito do erro em ter confiado na neutralidade da mídia corporativa. “Estamos pagando um preço alto por termos tido muita ilusão com a mídia golpista”, disse.
Genoíno, entre outras coisas, afirmou que a mídia hegemônica não é neutra e também alertou para o cuidado de usar as redes sociais como um contraponto para a grande mídia brasileira, pois esses espaços digitais são controlados “pelo núcleo mais estratégico do capitalismo hoje, que são as bigtechs”.
É certo que Genoíno falou sob o ponto de vista estritamente político, mas o veneno maior se deu no âmbito “inocente” dos valores culturais, com a bregalização musical como carro-chefe dos “brinquedos culturais” que fizeram as esquerdas imaginarem que o modelo de Brasil era uma novela das 21 horas da Rede Globo.
As esquerdas foram dormir tranquilas quando o menino de ouro do Projeto Folha, Pedro Alexandre Sanches, foi passear pelas redações da imprensa esquerdista para fazê-las pensar “igualzinho à Ilustrada da Folha de São Paulo”. Em troca, Sanches enganava as esquerdas imitando feito papagaio as narrativas criadas pelos jornalistas de esquerda.
Graças a isso, as esquerdas absorveram com facilidade os valores culturais da direita que come com garfo e faca. Mesmo valores difundidos pela Rede Globo e pela Veja no auge de seus ataques hidrófobos eram acolhidos de forma servil pelas esquerdas médias. Se havia promessa de fazer o pobre sorrir e se sentir bem, até valores dignos da Era Médici valiam.
Vieram ídolos cafonas do passado, “médiuns espíritas” de ideias ultraconservadoras (mas dissimuladas com uma linguagem “amigável”), funqueiros musicalmente precários (isso para não dizer ruins), craques de futebol fanfarrões e mulheres-objetos “celibatárias” e as esquerdas aceitaram tudo de mão beijada. Se o povo pobre poderia, em tese, sorrir, tudo bem, embora na verdade os pobres ficam desconfiados com tudo isso.
As esquerdas médias ainda pioram as coisas quando não querem assumir o erro de terem acolhido os “brinquedos culturais”. Até admitem terem confiado demais na mídia hegemônica, mas ficam em silêncio quanto ao erro grave de ter acreditado em “médiuns” ou funqueiros, permanecendo no clima lacônico e omisso do “vocês pensem o que quiserem”.
Só que o direitismo dos “brinquedos culturais” não é opinião, é fato. Se calar e evitar defender os “brinquedos culturais” só para evitar polêmica não é suficiente para combater o falso esquerdismo plantado nesses valores. Guardar os “brinquedos culturais” no armário pressupõe um uso futuro, com as esquerdas ainda presas na ilusão de que o “bom” direitismo iria fortalecer as esquerdas e a democracia.
Nada disso. Os “brinquedos culturais” são a expressão do poder da grande mídia, que influiu, tanto direta quanto indiretamente, na difusão e, antes, do desenvolvimento desses valores. Relativizar seu caráter conservador e se calar para evitar controvérsia em nada contribui para o debate e, para piorar, também não põe em xeque esse poder midiático. Pelo contrário, esse poder se aumenta e se fortalece.
Daí as condições criadas para o golpe de 2016, pela defesa dos “brinquedos culturais”, e que poderão se repetir com o silêncio e a omissão diante da necessidade de romper com estes valores.
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