ADVOGADO ADMITE QUE FAMOSOS RECEBEM CACHÊ PARA CURTIR ÍDOLOS POPULARESCOS


O ator ou atriz de TV aparece num "baile funk", numa festa "sertaneja", num evento de axé-music, "pagode romântico" ou "forró eletrônico" e em outra apresentação parecida porque gosta, porque adora aquele cantor, aquele músico ou aquela dançarina e se identifica com as baixarias e canastrices musicais que eles transmitem?

Não, os famosos fazem isso por dinheiro, e o público não consegue perceber que aquele ator e atriz do momento aparece ao lado de um ídolo funqueiro, axezeiro etc na verdade não vai com a cara dele e adere a esse ídolo sem saber da armação.

Está na coluna de Léo Dias no jornal O Dia. O colunista, relatando um caso de um processo que a atriz Bruna di Túlio lançou contra a banda de "forró eletrônico" Cavaleiros do Forró, que pouco após ela ser contratada para aparecer num camarote, durante a gravação de um DVD, teve sua imagem reproduzida sem sua autorização.

Bruna recorreu ao advogado Sylvio Guerra, especializado em atender pessoas famosas e com muita experiência no ramo. Ele acabou revelando a situação mercenária que está por trás de ídolos que aparecem nas plateias, camarotes ou bastidores dos eventos musicais popularescos.

"É sabido que em todas essas aparições de artistas, há um cachê a ser cobrado, e isso não foi feito pela banda, que não comunicou o fato à atriz. Ainda mais, a atitude da banda gerou dano material correspondente a este cachê, que minha cliente poderia ter auferido, se tivesse sido ao menos consultada sobre o assunto", disse o advogado, com muito conhecimento de causa.

Não é a primeira denúncia de que a "tietagem" de famosos ao brega-popularesco não passa de uma grande armação publicitária. Em abril de 2009, a atriz Samara Felippo, diante das denúncias de que a Câmara dos Deputados pagava viagens para famosos, através do deputado Fábio Faria, admitiu razões contratuais para ela e "tantas outras atrizes" foram contratadas para participar de uma micareta.

"Não sabia de jeito nenhum! Que horror! Fui contratada para participar de uma micareta como tantas outras. Ninguém sabia nada disso", disse a atriz, "entregando" que ninguém iria a eventos de ritmos popularescos pela "beleza" de suas músicas.

COMO FUNCIONA O ESQUEMA

Sabe-se que os empresários de brega-popularesco são muito mais ricos do que qualquer medalhão de MPB (acusada de ser "elitista" e "aristocrática"). Um único empresário de "forró eletrônico", por exemplo, tem um patrimônio financeiro maior do que todo o inventário da família Buarque de Hollanda (de Chico Buarque) reunido.

Tidos como "pobres" por investir em ritmos considerados "populares demais", esses empresários tentam disfarçar o poder econômico que exercem vestindo ternos velhos, jeans rasgados e desbotados e pares de tênis, tentando parecer "gente como a gente". Mas vários deles são até latifundiários e estabelecem alianças com barões da mídia, outros latifundiários e políticos de suas regiões.

Quanto ao contrato de atores para integrar camarotes ou plateias de eventos popularescos - "funk", axé-music, "sertanejo", "forró eletrônico", "pagode romântico" e outros - , a ênfase cai para ídolos emergentes, geralmente participando de núcleos juvenis em novelas ou em produções como o seriado Malhação, da Rede Globo, contratados para participar como "tietes" nesses eventos "populares".

A ideia é estabelecer um vínculo publicitário entre jovens atores emergentes - ou mesmo atores com alguma experiência mas com desejo de ampliar suas carreiras - e os ídolos popularescos que fazem sucesso nas rádios e TVs, dando a crer que pessoas influentes "recomendam" o grande público a gostar desses ídolos canastrões e grotescos.

Em certos casos, atores e atrizes aparecem posando ao lado de nomes como Zezé di Camargo, Alexandre Pires, Joelma, Bell Marques e Valesca Popozuda como se fossem "grandes admiradores", mas tudo não passa de uma grande armação publicitária e, anos depois, esses mesmos atores e atrizes não querem mais relembrar disso.

Os empresários de ídolos e eventos de brega-popularesco firmam contratos com patrocinadores e com redes de TV - como Rede Globo e, às vezes, Rede Record - para criar uma rede de relações contratuais que praticamente obriga o ator ou atriz emergente ou ascendente a fingir ser "tiete" do ídolo popularesco.

Essa obrigação é imposta sob a condição de que o ator ou atriz depende de tais "compromissos" para ter algum destaque maior na competitiva carreira da atuação. Se o ator ou atriz recusar, não só deixa de ganhar seu cachê como é condenado à "geladeira", boicotado por produções de TV diversas e ganhando a fama de "difícil".

Houve uma época em que o "funk carioca" estabeleceu um esquema jabazeiro junto a Rede Globo e vários patrocinadores, inclusive cursos de inglês, marcas de cosméticos etc. e condicionava a ascensão de atores e atrizes emergentes ao comparecimento a eventos popularescos, vários deles constrangedores, para garantir maior destaque em propagandas e produções televisivas.

A atriz que quisesse se ascender na carreira tinha que participar de um "baile funk" (inclusive fazer o ridículo rebolado do gênero, espécie de "dança da boquinha da garrafa" repaginada), fazer algum comentário "social" a favor do ritmo, e assim era "liberada" para fazer comerciais de cosméticos e ser protagonista de uma nova novela. Caso contrário, seria jogada no "freezer", sem dó.

Curiosamente, a coluna que publicou a denúncia de Sylvio Guerra, a de Léo Dias, tem boa conta com ídolos popularescos, inclusive elogiando vários que utilizam esse esquema que mistura jabaculê e estrelato, e que são bem tratados pelo colunista como se fossem "gênios musicais".

Houve casos em que, como quem compra cabeças de gado, elencos de atores eram contratados para assistir a eventos de nomes popularescos como Exaltasamba, Naldo Benny, Anitta e Ludmilla. No auge da axé-music, cada bloco de carnaval (o principal deles era o Camaleão, da banda Chiclete Com Banana, então com Bell Marques) chegava a contratar até cinco atores para subir no trio elétrico.

Com isso, a mediocrização cultural fez seu habilidoso golpe publicitário, enganando as pessoas com a falsa ideia de que os famosos mais admirados e, portanto, influentes, gostam realmente das porcarias que dizem serem "fãs". E aí as pessoas comuns são enganadas e vão comprar os discos desses ídolos canhestros, sem perceber que foram tapeadas pela propaganda enganosa.

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