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O PIOR NÃO É "ENDEUSAR" A MPB, MAS O COMERCIALISMO MUSICAL


Recentemente, li um artigo do humorista Gregório Duvivier sobre o fato de que os grandes nomes da MPB eram tratados como "deuses". Observo um certo aborrecimento das gerações recentes quanto a essa divinização aos medalhões da MPB autêntica, aqueles que não dependem de plateias lotadas para fazer sucesso.

A verdade é que o poder midiático, nos últimos 40 anos, passou a meter seus dedos na cultura brasileira. De um lado, a MPB, aos poucos, foi perdendo o diálogo com o grande público, o que deu a falsa impressão de que eles estão no Olimpo do elitismo cultural.

De outro, o comercialismo do brega-popularesco passou a aumentar suas reservas de mercados indo dos redutos latifundiários das zonas rurais até as universidades. A situação cresceu de tal forma que a imbecilização cultural é levada a sério até pela comunidade acadêmica, que acredita numa "etnografia" dos glúteos.

Hoje o problema não é o endeusamento dos emepebistas ou o fato deles serem vistos como "complicados" e "chatos", mas é o endeusamento que recebem os "anti-MPB" de diversos matizes, desde o comercialismo "classe média" de um Jota Quest e LS Jack à breguice que varia dos "pioneiros" Waldick Soriano e Odair José até coisas mais rasteiras com o "funk carioca".

Com uma mídia reacionária e emburrecedora, com um mercado se desqualificando em todos os aspectos - a ponto de, na imprensa, repórteres acharem natural fazerem matérias de televisão usando o recurso cômico das imagens aceleradas ou usarem a gíria "balada" para notícias "mais sérias" - , ser "culturalmente provocador" tornou-se cada vez mais confuso e contraditório.

Os jovens acham que o "estabelecido" cultural é a MPB autêntica. Acham que os brega-popularescos que estão no topo das rádios são os "excluídos". Eles aparecem na Rede Globo o tempo todo e muitos acreditam que eles estão "fora da mídia". Acham que estão fazendo "revolução" adorando o mau gosto ou apostando em coisas frívolas e fúteis achando que estão reagindo à "chatice da MPB".

Dão um tiro no pé e assinam embaixo a muitos modismos e fenômenos defendidos pelos barões da grande mídia. Falam a gíria "balada" sem perceberem que ela foi criada por barões midiáticos do porte de uma Globo que contrata um Merval Pereira e uma Jovem Pan que tem Reinaldo Azevedo como um dos principais comentaristas políticos.

As pessoas imaginam que, gostando de brega, cultuando Odair José e Raça Negra, evocando o mau gosto para combater o que pensam ser o establishment da cultura brasileira, e acabam legitimando o poder de um establishment muito mais cruel, que é o comercialismo musical que, de apoio em apoio, acaba fechando a MPB e marginalizando o nosso rico patrimônio musical.

Hoje, são os emepebistas as piores vítimas de preconceitos. Ainda não engoli o fato de que, numa comunidade de Florianópolis no extinto Orkut, pessoas definam o conceituadíssimo Turíbio Santos como "chato" e "insuportável". Sim, uma capital sulista que se dizia "culta". É um pessoal não muito diferente dos burguesinhos que atacaram Chico Buarque.

Por outro lado, funqueiros, "sertanejos" e similares agora ocupam o Olimpo musical muito mais cruel, excludente e malicioso. A cultura brasileira é empastelada e o pessoal não percebe. A gororoba musical que mistura David Bowie com Gretchen, Beatles com Raça Negra, Legião Urbana com Odair José, Smiths com É O Tchan, em vez de parecer provocativa, revela uma chatice pior.

Essa chatice é de pessoas quererem ser provocativas do nada, ecléticas sem critério, tomadas pelas ilusões do entretenimento pleno e obsessivo, em que tudo parece maravilhoso, quando não é. Coisas ruins e boas são misturadas sob o pretexto de uma diversidade que não é mais que a máscara da mesmice, um "estabelecido" fantasiado de novo que perece nas mentes das pessoas.

Me preocupa jovens adultos assim tão iludidos, felizes com essa gororoba, com essa "mistura" que soa indigesta e nada contribui para a produção de conhecimento, mas para uma provocatividade vazia que já não traz mais debate, causando tédio e aborrecimento diante da "provocação" ser reduzida como um fim em si mesmo.

Por isso, os jovens "provocativos", "animadamente ecléticos", misturando "baile funk" com carnaval de rua, vestindo trajes confusos e alucinados, tornam-se os chatos de amanhã. Eles endeusam o lixo cultural e o vinculam ao que há de manjado na cultura de qualidade. Hoje eles se acham vanguardistas, até seus filhos crescerem e se entediarem com essa mesmice que provoca sem provocar.

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