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DAVID BOWIE TAMBÉM DEU LIÇÃO DE JOVIALIDADE


É vergonhoso ver homens no Brasil, nascidos entre 1950 e 1955, que, escondidos em seus consultórios e escritórios, como médicos, empresários, executivos, economistas e advogados, se acharem mais velhos do que são.

Vejo pessoas mais velhas que esses "senhores", como Joey Ramone, Lemmy Kilmister e, recentemente, David Bowie, terem marcado a vida com sua jovialidade. É constrangedor que homens nascidos até mesmo em 1953 e 1954 tenham que se pautar em tipos mais antiquados de homens, ainda sonham com os anos 40 que lhes havia fugido do berço bem antes.

David Bowie, nascido em 1947, foi um dos que anteciparam os anos 80. Ele é uma espécie de "tio" dos Sparks, do XTC e do Devo, só para citar grupos pós-punk - embora surgidos antes do punk - , que estão entre os mais excêntricos que brilharam na cena alternativa oitentista.

Se David Bowie, nascido nos anos 1940, olhava para os anos 80 com carinho - ele mesmo participou dela e faixas como "Blue Jean" e "Dancing With the Big Boys" são bem viscerais, e "This Is Not America" e "Absolute Beginners" bem reflexivas - , por que os brasileiros "de sucesso" nascidos em 1953 e 1954, por exemplo, sentem tanta alergia pela década oitentista?

Logo eles, que por um lado se realizaram profissionalmente nos anos 80, e depois de alguns casamentos desfeitos, se casaram com moças nascidas nos anos 1970 e que moldaram suas personalidades e seus momentos mais felizes também nessa mesma década!

E aí, desde um tempo atrás, mais ou menos de 2002 para cá, os "senhores" brasileiros ficam se achando demais com seus cabelos grisalhos. Bastava eles completarem 50 anos e reencontrarem então seus antigos professores e patrões, na casa dos 70 anos, para acharem que podem ser cinquentões com bagagem de setentões. Nada mais patético.

Que um médico ou empresário que hoje está no começo dos 60 anos vá falar, em suas palestras, sobre o que eles fizeram em suas profissões, vá lá. Mas daí para eles arriscarem a dar seus pitacos sobre anos 1940, pintura do século XIX, música dos anos 1930 e por aí, soa muito pedante. Ver caras assim tentando parecer com a mesma idade de Millôr Fernandes, por exemplo, é constrangedor.

E esse pedantismo, essa pretensão de homens nascidos na primeira metade dos anos 1950 que falam como se tivessem sido adultos na segunda metade da mesma década, é desmascarado quando alguns dos ícones cinquentistas eles não lembram ou não conheceram: Jurandir Bizarria Mamede, Julie London, Stan Kenton, Ben Gurion, Henrique Teixeira Lott, Errol Flynn, Dick Haymes.

Os sessentões brasileiros mais caretas olham para trás e só pensam em eventos de gala e repousos em casa. Veem os anos 80 - que representaram o último grande período de amplo vigor criativo na cultura - como se fosse um jardim de infância. Veem a música de seus contemporâneos dos EUA e Reino Unido como a trilha sonora para seus filhos.

Numa época em que precisamos rejuvenescer e arejar as pessoas de meia-idade - duas belíssimas atrizes, hoje cinquentonas, reapareceram completamente fora de forma, recentemente - , fica complicado por que pessoas bastante joviais acabam falecendo no auge de seus talentos e projetos de vida.

Se David Bowie usou drogas, se José Wilker e Marília Pera fumaram muito, isso não significa que os sessentões se isolem, fechados com seus cabelos brancos e suas caras que misturam semblante pesado com cansado, num saudosismo passadista de vovós de primeira viagem que se comportam como se fossem trisavôs.

O Brasil anda mofado e vejo que cabelos brancos não trazem sabedoria. Nem se os cabelos brancos forem acompanhados de ternos em cor grafite ou sapatos de verniz bem engraxados. Aí é que piora, porque a obsessão doentia pela elegância expõe a falta de maturidade de pessoas que querem ser maduras pela forma, e não pelo conteúdo.

David Bowie costumava cantar sobre a tragédia de seus personagens. Mas eu fico pensando, vendo os médicos, economistas e empresários de 62, 63 anos que apareceram na revista Caras ao lado de suas jovens esposas, se também não seria trágico falar na Nova York de 1947, no antigo centro histórico de Roma de 1920 ou nas antigas vinícolas do interior da França do século XIX.

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