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GOIANENSES JULGAM O 23 DE MARÇO UMA DATA AUTORITÁRIA. E A FUSÃO DO RJ COM A GUANABARA, TAMBÉM NÃO ERA?


Uma das coisas que não dá para entender é a rejeição do 23 de Março como um dia histórico para Goiânia. Em contrapartida, os goianenses
acham que Goiânia nasceu capital de Goiás logo quando surgiu, em 24 de outubro de 1933, o que é um profundo atestado de ignorância histórica.

Nessa data, Goiânia foi apenas uma cidadezinha de Goiás, a capital continuava sendo a cidade de Goiás, popularmente conhecida como “Goiás Velho”. Foi um “desprezível” decreto de 23 de março de 1937 que transformou Goiânia em capital goiana, se não fosse essa data, a cidade seria “mais uma” entre tantas de Goiás.

Daí não dá para entender por que 23 de março em Goiânia não é feriado. A “efeméride” só serve para empresários e fazendeiros, estes sim na maior folga, enquanto o povo tem que ficar no batente, sem descanso. A desculpa para a data ser rejeitada e não virar feriado é o suposto modo autoritário com quem foi feita a nova condição.

Mesmo? E o que dizer do modo claramente autoritário da fusão entre os Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, em 1975, auge da ditadura militar? As pessoas tratam a arbitrária decisão como se tivesse vindo de um “clamor popular”, mas o máximo de debate que se deu para pedir a (com) fusão entre os dois Estados foi “de cima”, através de grupos políticos de direita, ainda nos anos 1960.

A fusão criou uma zona de conforto a princípio na qual a cidade do Rio de Janeiro reinava soberana dominando o antigo Estado do Rio de Janeiro e transformando Niterói numa vassala, a ponto dos noticiários cariocas, de forma vergonhosa, creditarem as notícias de Niterói como “Rio de Janeiro -RJ”. Dizem que Niterói virou a “Zona Leste” que a cidade vizinha não tem.

Só que vamos combinar que a fusão foi uma revanche do Rio de Janeiro ter perdido o status de capital do Brasil. Sem poder liderar um país, o Rio de Janeiro se encanou em tomar um Estado vizinho como seu e isso sobrecarregou politicamente de tal forma que abriu brechas para o crime organizado.

Tendo virado uma arena do fisiologismo político da ditadura, a fusão da antiga Guanabara com o antigo Estado do Rio de Janeiro só é defendida por conta da zona de conforto que gerou nas elites, apesar delas também pagarem o preço caro da violência.

Então estamos diante de dois absurdos. 

Um deles são dois Estados siameses, Rio de Janeiro e a antiga Guanabara que, fundidos por decisão da ditadura, sucumbiram com a violência e a decadência social vertiginosa, quando a solução deveria ser a desfusão, para que o Rio de Janeiro administrasse sozinho seus problemas sem precisar ser responsável por outros municípios, que por sua vez também deixariam de sofrer o jugo da capital. 

Ou seja, a desfusão iria facilitar o combate ao crime, com o Rio de Janeiro resolvendo sozinho seus problemas e os demais municípios dispensados de depender da capital para buscar soluções para resolver suas crises internas.

Outro absurdo é Goiânia renegar a data da promoção de capital, 23 de março de 1937, e fingir que nasceu capital em 24 de outubro de 1933. Isso é sustentar uma grande mentira histórica, assim como se ignora que o 23 de março poderia ter aberto o caminho para Brasília, com a promoção de uma cidade em uma nova capital, pois a partir de 1937 Goiânia, com o novo status, permitiu que o Centro-Oeste tivesse transformações que facilitaram a construção da atual capital do Brasil.

Mal comparando, é como se um universitário renegasse a data de formatura e considerasse como data de sua diplomação sua matrícula no ensino médio de alguns anos atrás. É um absurdo Goiânia renegar o 23 de março, mesmo que, se dependesse só do 24 de outubro, Goiás Velho seria capital goiana até os dias atuais.

De um lado, um ressentimento de uma cidade que perdeu o título de capital do Brasil e decidiu mandar em um Estado, através de uma fusão imposta, complicando a situação social, econômica e política. De outro, uma cidade que renega a data em que virou capital estadual. Vá entender esse país.

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