HOMEM GRANFINO DE 70 ANOS ESBANJANDO PEDANTISMO PARA SUA JOVEM ESPOSA.
Eu parei para pensar a respeito das críticas das pessoas ao mito da “eterna juventude”, da mesma forma das exigências de que deve-se comportar “de acordo com a idade”, e noto que há muito equívoco nesses pontos de vista que durante décadas se vendeu como “sabedoria verdadeira”.
Esquecemos, no entanto, de que tais padrões de comportamento,incluindo vestuário, etiqueta e tudo o mais, em especial a mania dos “coroas” em “ensinar por ensinar”, só por causa de um reles acúmulo de anos de vida, não são sinônimos de maturidade, do contrário do que grande parte das pessoas pensa e insiste em considerar.
Nas minhas folheadas na revista Caras, nos anos 1990 e 2000, vendo o comportamento “adulto demais” de maridos de famosas, como Almir Ghiaroni e Eduardo Menga, ambos na altura dos 72 anos, fico perguntando se o estilo de ser deles seria maturidade ou seria um modelo antigo de perseguir a “eterna juventude”.
Nós nos apegamos a um paradigma de juventude que se desenvolveu dos anos 1960 para cá, e por isso muita gente se revolta quando pessoas com mais de 50 anos ouvem rock, vestem bermudão e tênis e preferem ir ao Coachella Festival do que a um baile de gala.
O que os Menga e Ghiaroni perseguem pode ser, por um outro prisma, é um modelo de “eterna juventude” dos anos 1940, que prevaleceu no imaginário da sociedade até às vésperas do sucesso de “Rock Around the Clock”, com Bill Haley & His Comets. Devido à Segunda Guerra Mundial, a primeira metade da década de 1950 foi marcada pela vontade de viver tardiamente os anos 1940 e seu modelo de glamour e curtição.
Deixando de lado análises sobre qualidade artístico-cultural, para a geração desses homens Frank Sinatra era o Justin Bieber do seu tempo. Nos anos 1950, mesmo sob a roupagem do jazz, houve muita coisa medíocre que sumiu com o tempo, como muitos grupos vocais de doo-wop. E a música orquestrada considerada “ligeira”, hoje tida como “clássica”, era não obstante piegas e enjoativa.
Os homens desse tempo, e falamos dos da casa de 20, 25 anos, mas modelos de sucesso na época, exageravam no uso de ternos, gravatas e sapatos de couro, machucando os pés e produzindo calor sem necessidade. Beber vinhos, uísques, champanhes, licores e a “popular” cerveja eram símbolos de “superioridade” social, mas são mais nocivos que a “infantil” bebida gasosa chamada refrigerante.
As regras de etiqueta pareciam sinal de bom gosto e requinte, mas também serviam para falsificar a personalidade do homem. Gestos calculados eram erroneamente vistos como “prazer”, como o modo de posicionar garfos e facas durante as refeições ou de arrumar nos pratos os “terrenos” do feijão, arroz e guarnições, mas prazer era algo que não existia nesse ritual mais técnico do que espontâneo.
A erudição cultural não era demonstração de inteligência profunda e natural, antes fosse um meio de parecer diferente e criar assuntos interessantes para conversar nos bares e restaurantes. Isso, não obstante, demonstrava mais pedantismo do que sabedoria, ou um meio de parecer intelectualmente mais velho que a idade, mas sem a eventual identificação com o passado remoto dos pesquisadores autênticos.
Outro recurso era dançar bailes de gala, inspirado em Gene Kelly e Fred Astaire, que faziam muitos garotos da época se darem bem nas conquistas. Muito lindo de se ver e genial na técnica, mas bastante banal para trazer algum diferencial humano relevante. Sem falar que as festas de gala foram as raves da época, com toda a superficialidade lúdica que só o saudosismo glamouriza.
Tudo hoje parece superior, mas isso foi o estilo de vida do jovem dos anos 1940 e, zelar por isso, também é perseguir o mito da “eterna juventude”. Pior é que eles refletem um padrão de juventude que não sobreviveu, perdeu o contexto e só mantém alguma superioridade social alimentado por um saudosismo que tenta recuperar o que se perdeu para sempre.
O “coroa” que só ouve música romântica ou orquestrada, sente obsessão em ensinar até o que não sabe nem viveu, que é desmedido na mania em ser comedido, que usa sapatos de couro até nas caminhadas no calçadão, que tem mania de repreender os filhos dos erros que ele mesmo tem grande risco de cometer, tudo isso soa amadurecido para as gerações mais recentes, saudosas de adultos mais “requintados” e “rígidos” para, em tese, botar ordem na humanidade de hoje.
Mas quantas dessas qualidades não impediram de produzir homens irresponsáveis, confusos e inconsequentes, sendo, décadas atrás, apenas máscaras para imaturidades de causar vexame em crianças de oito anos de idade! Em contrapartida, vejo o quanto crescem idosos que, assimilando formas de comportamento juvenis, conseguem se dar melhor com os jovens. Ver um Eduardo Menga, de 73 anos, cancelado nas redes sociais, enquanto Mick Jagger, dez anos mais velho, interagir com a juventude numa boa, é reflexo disso.
As velhas qualidades acima citadas soam maduras para hoje, mas defender a recuperação das mesmas é forçar de forma piorada um modelo antigo de juventude, tirado fora do contexto. Antes de se preocupar em se comportar “de acordo com a idade”, deveria a sociedade pensar em se comportar de acordo com os tempos de hoje.

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